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Diretor executivo CNN Portugal

Se tivesse ganhado os 230 milhões do Euromilhões depositava-os no banco? Errou

13 jul, 12:44

A inflação é neste momento duzentas vezes superior à taxa de juro média dos novos depósitos bancários. Quem quer perder dinheiro?

Já toda a gente sonhou com o que faria se ganhasse o Euromilhões. Pelo menos, muitos tê-lo-ão feito esta semana, antes de sair a chave do maior jackpot de sempre, estimado em 230 milhões de euros (à hora em que este texto foi escrito, o valor final não era ainda público). Nos seus sonhos, talvez muitos destinassem uma parte do dinheiro a poupança em depósitos nos bancos. Qualquer economista ou gestor de finanças pessoais recomendaria poupar, aliás. Mas há quem na prática não o esteja a recomendar: os próprios bancos.

A subida das taxas de juro está para já a verificar-se do lado dos créditos, mas não do lado dos depósitos. A subida das taxas de juro dos bancos centrais e dos mercados já está a encarecer os créditos à habitação, mas quem tem dinheiro em depósitos a prazo está na prática a perder, porque as taxas de juro que recebe são muito menores do que a inflação atual. E a inflação, já se sabe, come o seu dinheiro, porque a mesma quantia consegue no futuro comprar uma menor quantidade dos mesmos bens e serviços.

Os últimos dados do Banco de Portugal revelam que, em maio, a taxa de juro média dos novos depósitos de particulares se manteve em 0,04%. Vou repetir: 0,04%. No mesmo mês, a taxa de inflação foi de 8% - e entretanto acelerou para 8,7% em junho.

A diferença é colossal: a inflação é duzentas vezes maior do que a taxa média de um depósito a prazo até um ano.

Agora faça a conta: imagine que colocava os 230 milhões do Euromilhões num depósito bancário.

É claro que, para um montante destes, os bancos disputariam o seu dinheiro, oferecendo não só taxas melhores como propondo uma gestão de carteira personalizada e diversificada. Mas, neste texto, o exemplo serve para ilustrar como os depositantes portugueses em geral estão realmente a perder dinheiro. Por isso, prossigamos o exemplo:

Se depositasse 230 milhões de euros no banco a prazo, com as taxas e a inflação de hoje, arriscava-se a daqui a um ano ter menos cerca de 8% em termos reais. Ou seja, a “perder” 18 milhões de euros, ficando com “apenas” o equivalente a 212 milhões de euros a preços de hoje.

O exemplo não pretende sugerir que não vale a pena poupar, pelo contrário. Pretende sim exemplificar como os depósitos bancários estão desfasados da inflação e, neste momento, os bancos estão na prática a desincentivar os clientes de depositarem dinheiro.

Isto acontece em parte porque os bancos estão com elevados níveis de liquidez, beneficiando das políticas anteriores do Banco Central Europeu, pelo que não precisam de entrar numa “guerra de depósitos” que faria as taxas pagas subirem.

Ao contrário, os bancos parecem sim aliviados por verem as taxas de juro subirem do “outro lado”, do dos créditos à habitação, à medidas que as Euribor deixaram de estar negativas. Dessa forma, os bancos preparam-se para aumentar as suas margens financeiras, logo os seus lucros. Em Espanha, o governo anunciou esta semana a intenção de lançar um imposto extraordinário sobre setores que estão neste momento a aumentar os seus lucros: as empresas de energia e… os bancos.

Haverá um momento em que as taxas dos depósitos bancários também começarão a subir, mas demorará muito até atingirem o nível da atual inflação elevada, se é que chegarão. Até lá, os aforradores estão a perder dinheiro nos depósitos, preferindo pois outro tipo de investimentos (como o imobiliário, assim alimentando a "bolha", ou em ativos de maior risco) ou preferindo consumir.

Se respondeu imediatamente que sim à pergunta do titulo, errou na resposta. Parece evidente que o tema das taxas de juro dos depósitos tem de entrar na agenda da política monetária, da banca – e de quem ganha dinheiro e quer poupar. Até porque todos podem sonhar com ganhar o Euromilhões, mas não podem depender disso para viver. Afinal, sonhar não paga imposto… nem taxa de juro.

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