O que se sabe sobre o misterioso atentado que matou Darya Dugina, a filha do “cérebro de Putin”

22 ago, 11:36

Um explosivo detonado remotamente e a autoria reivindicada por um grupo de dissidentes russos

A morte foi imediata. Darya Dugina, de 29 anos, saiu do festival “Tradição”, nos arredores de Moscovo, e entrou no carro do seu pai, o influente pensador russo Aleksandr Dugin, que tinha decidido viajar noutro carro. Em pleno andamento, uma carga explosiva colocada debaixo do banco do condutor foi detonada e o veículo acabou por ser completamente consumido pelas chamas.

Segundo a agência TASS, que cita as autoridades russas, a bomba, com 400 gramas de TNT, colocada no veículo foi detonada remotamente. “Já sabemos que a bomba no carro de Dugina foi detonada remotamente. Presumivelmente, o carro foi monitorizado e o seu movimento foi controlado pelos autores do ataque”, afirmou uma fonte relacionada com a investigação.

Imagens partilhadas nas redes mostram Aleksandr Dugin com as mãos na cabeça a observar os veículos dos bombeiros a chegarem ao terreno para prestar auxílio. O homem acabou por ser hospitalizado horas mais tarde, embora as causas não tenham sido esclarecidas.

De acordo com a imprensa russa, os dois deveriam seguir no mesmo carro, mas uma decisão no último minuto levou a que viajassem em veículos diferentes, pelo que vários analistas suspeitam que o principal alvo do ataque fosse Aleksandr Dugin. No entanto, há quem destaque o papel cada vez mais proeminente de Darya em movimentos de extrema-direita e a favor da invasão russa da Ucrânia como um fator que fariam dela um alvo de vários movimentos.

Um dos últimos registos da jovem nas redes sociais foi numa visita ao complexo industrial de Azovstal, onde, durante dois meses, as forças militares ucranianas se defenderam contra o cerco das tropas russas. Em março, após o início da guerra na Ucrânia, Darya passou a fazer parte da lista de indivíduos sancionados pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, devido ao papel do seu site na “disseminação de desinformação”.

A Rússia, através da conta oficial da porta-voz do Ministério das Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, foi rápida a classificar o atentado como “terrorismo de Estado” levado a cabo pela Ucrânia. A Ucrânia esperou pelo dia seguinte para desmentir a autoria do ataque. "A Ucrânia, é claro, não tem nada a ver com isso, porque não somos um Estado criminoso, como a Federação Russa, e muito menos um Estado terrorista", disse Mykhailo Podolyak, conselheiro do presidente Volodymyr Zelensky.

Horas mais tarde surgiu a acusação formal por parte de Moscovo. O Serviço Federal de Segurança (conhecido pela sigla FSB) apontou o dedo aos serviços secretos ucranianos. Segundo as autoridades russas o atentado foi executado por uma cidadã ucraniana nascida em 1979 que chegou à Rússia em Julho e arrendou um apartamento no mesmo edifício de Dugina. A suspeita, alegam as autoridades russas, viajou para a Rússia acompanhada pela filha e esteve presente no mesmo evento que Dugin e a filha, tendo levado a cabo a detonação do explosivo de forma remota quando Darya Dugina se encontrava ao volante. O FSB acredita que a mulher fugiu para a Estónia. 

A autoria do ataque acabou por ser reivindicada por um grupo que se autointitula de Exército Republicano Nacional Russo, que diz dedicar-se a derrubar o regime de Vladimir Putin. O antigo deputado russo Ilya Ponomarev, que se encontra exilado na Ucrânia, diz ter estado em contacto com o grupo de dissidentes e garante que esta não é a primeira ação do grupo.

“Um evento importante ocorreu perto de Moscovo na noite passada. Este ataque abre uma nova página na resistência russa ao Putinismo. Novo – mas não o último”, garante.

A CNN Portugal não conseguiu verificar a autenticidade das alegações feitas por Ponomarev.

Mas quem é Aleksandr Dugin?

É um dos mais importantes pensadores políticos russos da atualidade e vê na soberania da Ucrânia um dos maiores obstáculos ao sucesso das suas teorias políticas. Toda a influência que conquistou valeu a Aleksandr Dugin, de 60 anos, a alcunha de “cérebro de Putin”, embora se desconheça a profundidade da relação entre os dois.

Filho de uma família de oficiais do exército russo, Dugin foi dissidente político da era soviética, que ganhou notoriedade entre vários membros do núcleo duro da elite russa. Apregoador de um império eurasiático, de Lisboa a Vladivostok, há quem aponte o filósofo como um saudosista da Rússia dos czares.

O pensador foi um dos principais responsáveis pelo reaparecimento do projeto da "Novorossiya", que significa Nova Rússia e inclui a anexação dos territórios da Crimeia, Donbass, Zaporizhzhia, Kherson e Odessa. Essa visão fica clara na obra em que publicou em 1997 "Fundações da Geopolítica", em que destaca a visão de uma Rússia de Lisboa a Vladivostock, e onde destaca a importância de semear instabilidade e desinformação nos Estados Unidos. O livro tornou-se um best-seller na Rússia. 

A pegada ideológica do pensador político não é nova. Em 1997, Dugin já descrevia a soberania ucraniana como “um enorme perigo para a toda a Eurásia”. Em 2013 apelou publicamente às forças pró-russas na Ucrânia para se revoltarem contra o que dizia ser “um golpe de Estado” levado a cabo pelos Estados Unidos no país, que ameaçava abertamente a sua visão do Eurasianismo. Esse é o único caminho para atingir aquilo que considera ser a “restauração da Grande Rússia”, numa “União Eurasiática”.

Ainda em 2014 desdobrou-se em tentativas de recrutar combatentes para lutar nas regiões separatistas da Ucrânia. Esse seu papel enquanto impulsionador das hostilidades na Ucrânia levou a que os Estados Unidos o sancionassem um ano depois dos confrontos terem começado na região do Donbass, em 2015.

Durante os confrontos, ficou célebre por afirmar que a Ucrânia "tem de ser apagada do mapa e reconstruída". "Eu penso que precisamos de matar, matar, matar. Não pode haver mais conversa. Esta é a minha opinião enquanto professor", afirmou num polémico vídeo

O filósofo é um dos maiores defensores de Vladimir Putin, chegando mesmo a descrever o presidente russo como "absoluto e insubstituível". Num dos seus livros, chamado "Putin vs Putin", o professor universitário descreve dois lados do presidente russo: um lado lunar, cauteloso e pragmático, e um lado solar, dedicado à criação do Império Eurásiatico. Para Dugin, o lado solar de Putin "venceu" o confronto entre estas duas facetas. Honras que o filósofo não reserva para o restante executivo. "Todos no poder na Rússia são escória. Excepto Putin", afirma.

Mas Aleksandr Dugin tem sido crítico da “operação militar especial” levada a cabo por Vladimir Putin, uma vez que considera que a Rússia deve declarar guerra à Ucrânia e decretar a mobilização geral da população e conquistar a capital ucraniana. Para o filósofo, a Rússia não terá hipóteses de sair vitoriosa contra a Ucrânia e os vários países que apoiam o governo de Kiev a menos que toda a sociedade russa seja mobilizada a contribuir para o esforço de guerra.

Foi precisamente isso que escreveu no sábado, no seu canal no Telegram, um dia antes de marcar presença no festival “Tradição”, juntamente com a sua filha. Para Dugin, a Rússia “desafiou o Ocidente enquanto civilização” e isso, sublinha, “significa que a Rússia deve ir até ao fim”. Poucas horas depois, à saída desse mesmo festival, a sua filha, Darya Dugina, acabaria por perder a vida ao entrar no carro do pai.

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