Como "Dahmer" está a lançar o debate sobre as séries de crimes que realmente aconteceram (opinião)

CNN , Opinião de Sara Stewart
15 out, 19:00
Dahmer

Nota do Editor: Sara Stewart é uma escritora de artigos de cinema e cultura que vive na Pensilvânia ocidental. As opiniões aqui expressas são exclusivamente da própria autora.

Está o crime real (true crime) a perder popularidade? O intenso debate sobre a nova série da Netflix “Dahmer - Monstro: A História de Jeffrey Dahmer” propõe uma mudança para o género macabro, se este quiser sobreviver.

A série de Ryan Murphy, protagonizada por Evan Peters como Dahmer, foi a série mais vista de sempre na sua primeira semana na plataforma de streaming. Contudo, uma forte reação negativa surgiu em torno da incapacidade dos produtores da série em consultar as famílias das vítimas, tendo em conta que a série tinha como objetivo contar as suas histórias nos longos episódios.

Rita Isbell, cujo irmão foi uma das vítimas de Dahmer, escreveu uma publicação comovente sobre a experiência traumática de ver a recriação do dia em que esteve em tribunal na série de Murphy. “Eu até poderia compreender e aceitar a situação se eles dessem algum dinheiro aos filhos das vítimas... Se a série os beneficiasse de alguma forma, não seria tão duro e imprudente”, disse ela.

Membros da comunidade queer negra em Milwaukee, onde Dahmer viveu e foi preso, também se manifestaram contra a série, referindo a intenção de se focarem nas vítimas foi uma farsa. Um membro da equipa da série publicou alguns comentários no twitter em relação ao tratamento abismal, e alegadamente racista, no local de gravações. Referiu também que se sentiu “re-traumatizado” após ver o trailer da série.

Aparentemente, Murphy ainda não respondeu aos críticos da série, mas Evan Peters disse numa entrevista recente que o realizador “tinha uma regra na produção desta história: nunca seria contada do ponto de vista de Dahmer. Enquanto público, não simpatizamos com ele”. Mas isso não impediu uma tendência perturbadora de telespectadores a cobiçar o ator que interpreta o assassino em série no TikTok e em outras redes sociais (e, em alguns casos, a partilhar sentimentos pelo próprio assassino). A desconexão entre as intenções expressas por Murphy e a forma como a sua série atingiu os telespectadores aponta para um conjunto de questões éticas sobre este género de “ficção”.

Será que a sede da nossa obsessão por crimes reais poderá estar a chegar a um fim? Os números crescentes da Netflix não mentem, mas tem havido uma mudança palpável no que diz respeito ao criticismo da série nas redes sociais. O lançamento de sexta-feira das “Conversas com um Assassino:  As Gravações de Jeffrey Dahmer” poderá levar a audiência à exaustão depois de uma década inteira repleta de conteúdo desta género.

Este subgénero tem sido uma mina de ouro para a Netflix e outras plataformas durante anos, mas o seu poder sobre as audiências poderá estar a diminuir. O filme de Ted Bundy de 2019, “Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil”, insistiu, através do uso do astro Zac Efron, que estava a realçar de que forma o privilégio da raça caucasiano permitiu que Bundy escapasse impune ao homicídio durante tanto tempo.

Zac Efron em “Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil”

Mas tanto o “Dahmer” como o “Extremamente Perverso” são protagonizados por jovens e belos atores, um convite para verem os famosos assassinos como, a um certo nível, simpáticos (ou, no mínimo, glamorizados de forma atrativa). E o fracasso de Murphy em contactar aqueles que foram de facto afetados pelo assassino destacou um problema relacionado: o crime real muitas vezes veicula para a exploração, mesmo quando afirma que está a servir a justiça, ou a educação ou a explicação.

Outra nova série está a ser alvo de controvérsia por razões semelhantes: “A História de Gabby Petito” da Lifetime,  que revisita um crime com apenas um ano de idade. Em agosto do ano passado, Gabby Petito, de 22 anos, foi morta pelo seu namorado, Brian Laundrie, com quem tinha viajado pelo país numa caravana de campismo.

Um vídeo da polícia gravado antes do desaparecimento de Petito, que mostra polícias a entrevistar o casal em disputa e a ignorar todos os sinais de que Laundrie havia sido abusivo, tornou-se viral. Isto desencadeou uma onda de discussões nas redes sociais e uma reação negativa sobre a fixação dos media e das autoridades em mulheres brancas indefesas, ao mesmo tempo que ignoram inúmeras vítimas de cor nas mesmas situações.

A atriz Thora Birch, que fez a sua estreia com o filme sobre Petito, disse ao The List numa entrevista divulgada a 27 de setembro, que via o filme como potencialmente educativo para outras jovens mulheres. “Explorar a história da forma mais realista possível, atendendo aos factos que conhecíamos, foi algo que me pareceu muito intrigante, mas também, considerei-a como uma oportunidade para talvez ser útil como um conto de advertência”.

A mãe de Gabby Petito divulgou uma declaração sobre o filme da Lifetime, indicando que a família não tinha sido contactada. “Achámos por bem informar os nossos seguidores que o filme da Lifetime sobre a Gabby Petito não tem qualquer ligação com a família Petito e não houve qualquer aprovação da nossa parte”, escreveu ela. “A Lifetime encarregou-se de fazer o filme à sua vontade”.

Por sua vez, no início deste ano, Renee Zellweger produziu e estrelou numa minissérie da NBC,“The Thing About Pam”, baseada num podcast da Dateline com o mesmo nome sobre o assassinato de Betsy Faria em 2011. A mãe e a filha de Faria afirmaram que não foram informadas sobre a produção. Disseram também que a série interpretou mal inúmeros factos e tomou um tom estranhamente cómico nesta retratação do acontecimento mais perturbador das suas vidas.

A diretora do filme, Jenny Klein, conversou com a Entertainment Weekly sobre a importância de honrar “a história de Betsy, a história da sua família, e de honrar a verdade tal como a conhecemos”, embora ela não tenha mencionado ter contactado a família.

Jeremy Dean como Agente Carrigan, Renée Zellweger, Cuyle Carvin como Det. Brian Hilke em “The Thing About Pam”.

Mesmo que ambas as séries tivessem contactado os familiares das vítimas para consulta e autorização, elas representam um outro problema fulcral do género de crimes reais: o seu foco quase exclusivo nos caucasianos.

A jornalista Veronica Wells-Puoane diz: “Para pessoas como eu, mulheres negras e outras pessoas de cor, o fenómeno do crime real é um lembrete de que enquanto estamos a ser observados, interrogados e encarados com desprezo ao jantar fora, as pessoas brancas estão literal e figurativamente a safar-se de um assassinato. Em vez de o chamarmos pelo que é: uma farsa,  chamamos a este conteúdo ‘binge-worthy’ (ver uma série inteira de uma vez só)”.

Ela ainda acrescenta: “Receio que estas séries, quer sejam documentários ou ficção, emitam uma espécie de aviso nocivo às audiências brancas… comete um crime e fica famoso com um documentário na Netflix”.

O debate acerca de “Dahmer” também faz uma justaposição interessante com o último caso "em série", no qual o assassino acusado, Adnan Syed, foi libertado após ter passado mais de 20 anos atrás das grades devido a uma série de falhas na forma como o seu caso foi tratado. “Serial” (Em série), o podcast seminal de 2014, foi bastante elogiado por ter dado destaque ao caso de Syed, embora haja também quem tenha notado que o seu advogado, Rabia Chaudry, fez a maior parte do trabalho pesado que levou à revogação do tribunal. Independentemente disso, “Serial” e muitas outras séries de prestígio geraram inúmeros imitadores e pseudo-detetives, bem como ouvintes e telespectadores de séries de crimes reais que vivem na esperança de conseguir ajudar a desvendar casos ainda por resolver.

Mas não nos iludamos: o fascínio humano com notícias aterradoras é em grande parte voyeurístico. O crime real é viciante porque é em geral entusiasmante. Muitas séries de crimes reais têm sido meticulosamente investigadas e bem contadas; outras simplesmente proporcionam um escapismo sombrio. A escassez estatística de assassinos em série faz com que estas histórias provoquem um medo mais seguro do que os horrores banais do nosso quotidiano.

Tal como existem formas de ser um consumidor mais ético do crime real, também existem formas mais éticas de contar histórias destes crimes. Incluam as famílias das vítimas neste processo de narração. Foquem-se nas histórias das vítimas. Não incluam a representação de violência gratuita ou gráfica. Evitem o uso fácil de sensacionalismo no marketing.

Há muito tempo que sou fã do crime real, e decerto não deixarei de o ser em breve. Mas quanto mais falamos dos problemas inerentes ao género, há uma maior probabilidade e chance de pensarmos no que estamos a absorver e no que isso significa para as pessoas que foram afetadas por esses acontecimentos. Se vamos continuar a consumir traumas como entretenimento, devemos-lhes pelo menos isso.

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