"Talvez seja o único que teve o Cristiano e Jorge Jesus como atletas". Henrique Jones tem uma "certeza absoluta": "Estão os dois arrependidos"

Há 1h e 14min

, tudo tem um limite, tudo tem um fim

vai lidar muito mal com o abandono

"Talvez seja a única pessoa que teve o Cristiano e Jorge Jesus como atletas"

São dois egos muito importantes

Tenho a certeza absoluta que, neste momento, os dois estão arrependidos

ninguém pode apagar estes mais de 20 anos de alta competição

Na minha opinião, pode não ter sido o melhor futebolista de sempre, mas foi o maior atleta do futebol de sempre.

ENTREVISTA | Foi médico do Vitória de Setúbal quando no meio-campo sadino mandava um jovem Jorge Jesus. Depois foi médico principal da seleção nacional, onde se cruzou regularmente, durante 11 anos, com Cristiano Ronaldo. À CNN Portugal, o ortopedista Henrique Jones confessa-se "triste" e defende que "um atleta com esta dimensão merecia um adeus "que ficasse na memória dele e de todos aqueles que o idolatraram"

Como olha, enquanto português e antigo médico da seleção nacional, para este adeus de Cristiano Ronaldo?

Como qualquer português que se interessa por desporto e, neste caso, por futebol, obviamente que é uma data que nos marca pela negativa. Mas tudo é finito nesta vida. Embora não tenha sido com o perfil que seria desejado para um atleta com a dimensão do Cristiano, foi a decisão dele e temos de a respeitar. Devo referir que um atleta com esta dimensão merecia talvez um adeus diferente.

À semelhança do que aconteceu com Messi na Argentina?

Sim, algo que ficasse na memória dele e de todos aqueles que o idolatraram.

Henrique Jones foi médico da seleção nacional durante 14 anos, entre 2000 e 2014, tendo acompanhado a equipa nos Euros de 2000, 2004, 2008 e 2012 e nos Mundiais de 2002, 2006, 2010 e 2014. Acabou por abandonar o cargo na sequência da fraca prestação da equipa das quinas no Mundial 2014. (José Sena Goulão/Lusa)
Henrique Jones assiste Cristiano Ronaldo no jogo com a Holanda, nos oitavos de final do Mundial 2006, que ficou conhecido como a "Batalha de Nuremberga" e em que houve quatro expulsões. (Getty Images)

Cristiano Ronaldo quase nos fez pensar que seria possível ludibriar o destino de qualquer jogador que envelhece. Como conseguiu esta longevidade, mantendo-se ao nível a que nos habituou?

O Cristiano sempre foi, usando uma analogia, um monstro de trabalho. Sempre valorizou o seu trabalho silencioso, fora da sua prestação, ao mais alto nível. Trabalhava exaustivamente no ginásio para manter a forma, motivava os colegas a trabalhar e isso esteve sempre presente enquanto lidei com ele na seleção nacional.

É um atleta inteligente do ponto de vista dietético, do repouso, da preparação para o treino e das técnicas de recuperação. Sempre quis estar atualizado ao mais alto nível para ajudar o seu corpo a render aquilo que nos habituou a render. Penso que chegou uma certa altura em que o Cristiano, com todos estes cuidados à sua volta e todo este apoio à sua prestação, chegou à conclusão de que provavelmente já não seria aquilo que gostaria de ser em termos da sua prestação e da entrega ao desporto, que sempre amou.

Cristiano Ronaldo conquistou praticamente tudo aquilo a que se propôs e talvez até mais do que o adepto mais otimista achou ser possível. Ainda joga na Arábia Saudita, mas o que acontecerá quando terminar definitivamente a carreira?

Penso que irá jogar até cumprir o objetivo a curto prazo que tem em mente, que é chegar aos mil golos. Comparando com outros atletas de alta competição que, não tendo chegado tão alto, atingiram um patamar bastante elevado, não só no futebol mas também em modalidades como o ténis ou o basquetebol, a fase após a retirada da competição é muito importante.

Não é que o Cristiano não tenha o que fazer. Deve ter milhares de coisas para fazer, mas vai faltar-lhe o cheiro da relva, o cheiro do balneário, a idolatria dos adeptos, os media à sua volta. Vai faltar-lhe tudo isso, e tem de haver apoio psicológico.

Acho que pode continuar, e deve continuar, ligado ao desporto, mas a um nível mais baixo e sem a responsabilidade que tem hoje, em atividades com menos sobrecarga emocional e física.

Henrique Jones assiste Cristiano Ronaldo no jogo com a República Checa, na fase de grupos do Euro 2008. (Getty Images)

E uma carreira como treinador? Durante 11 anos esteve com o Cristiano nos treinos, acha que um cargo de técnico se enquadraria no seu perfil?

Penso que não. O Cristiano Ronaldo não tem perfil para treinador. Tem uma personalidade muito controversa, é um indivíduo inteligente, é um profissional, tem o culto da imagem, é apaixonado pela família e pelos amigos, mas é muito calculista, muitas vezes desconfiado, e tem muita dificuldade em aceitar o "não". Na minha perspetiva, não se enquadra no perfil de treinador. E penso que também não deverá estar nos seus propósitos futuros.

Acha que foi essa dificuldade em ouvir o "não" que precipitou a situação?

É por isso que fico triste. Talvez seja a única pessoa que teve o Cristiano como atleta e teve o Jorge Jesus como atleta. O Jorge Jesus foi meu atleta numa altura em que o médico era mais novo do que o jogador.

No Vitória Futebol Clube, em Setúbal.

Exatamente, em Setúbal. Eu conheço a vertente de atleta dos dois. Acho que são duas pessoas com características de personalidade muito diferentes, embora tenham um ponto em comum: são ambos ambiciosos e competentes nas suas tarefas e responsabilidades. Mas são dois egos muito importantes. Tenho a certeza absoluta que, neste momento, os dois estão arrependidos de algumas atitudes menos corretas que possam ter tido.

Infelizmente, quem ficou a perder foi o futebol português. Talvez pudesse contar com o Cristiano por mais um mês ou mais um ano, mesmo que fosse apenas como referência para esta nova geração tão promissora do futebol português. É sempre importante ter referências.

Henrique Jones ao lado de Cristiano Ronaldo, após a substituição do camisola sete, no Portugal-Hungria, na qualificação para o Mundial 2010. (Getty Images)

Acredita que o balneário vai sentir falta da sua referência maior?

Temos um excelente treinador e, se houvesse também uma referência dentro do balneário, ainda que nos bastidores e apenas necessária em determinadas alturas, acho que poderia ser uma boa referência durante mais algum tempo.

É uma situação triste. Acho que foi uma atitude muito impensada do Cristiano. Devia ter havido uma atuação um pouco mais protetora, de um lado e do outro, e talvez não tenha havido. De qualquer maneira, ninguém pode apagar estes mais de 20 anos de alta competição. Na minha opinião, pode não ter sido o melhor futebolista de sempre, mas foi o maior atleta de futebol de sempre.

Esta ideia do passar de testemunho, como foi acontecendo entre Luís Figo e Cristiano Ronaldo desde 2003, é fulcral? Estava presente na estreia de Ronaldo pela seleção contra o Cazaquistão?

Lembro-me perfeitamente. O Cristiano estreou-se na seleção nacional em Chaves, em agosto de 2003, e substituiu o Luís Figo ao intervalo.

Figo era a nossa maior referência no futebol depois de Eusébio e foi ele que, de certa forma, 'batizou ou apadrinhou' a estreia de Ronaldo na seleção. Esse momento foi importante?

Acho que essa passagem de testemunho foi muito importante. Eu sou um bocadinho suspeito, porque acho que o Luís Figo, enquanto caráter e postura que apresentava no futebol, foi um atleta ímpar. Não tinha as qualidades de trabalho que o Cristiano tinha, mas, do ponto de vista do perfil e da liderança, foi um atleta extraordinário.

Depois entrou a irreverência do Cristiano e, a partir daí, foi, como se costuma dizer na gíria futebolística, ele e mais dez.

Henrique Jones consola Luís Figo depois de Portugal ser eliminado nas meias-finais do Mundial de 2006 com uma derrota por 1-0 frente à França. (Getty Images)

Quando Ronaldo chegou à seleção, em 2003, era um jovem ainda franzino. Depois ganhou muita massa muscular. Como é que essa transformação afetou o seu jogo? Perdeu velocidade, por exemplo?

Não, curiosamente. Foi bem acompanhado, quer no Sporting, quer no Manchester United. Viram que estava ali uma pérola que tinha de ganhar condições para ficar com características de pérola de coleção. Acho que trabalharam muito e bem a parte do reforço muscular, sobretudo os músculos mais utilizados no futebol, e, simultaneamente, continuaram a trabalhar a velocidade, sem exagerar no ganho de massa muscular.

O Cristiano conseguiu conciliar essas duas coisas: manter uma força muscular para a prática de futebol inacreditável e, ao mesmo tempo, uma velocidade que, no fundo, já era genética. Não precisou de ser muito trabalhada, porque já lá estava.

Quem foi o arquiteto desta 'pérola de coleção' física?

Acho que ele foi o principal responsável por tudo isto, porque era incansável no trabalho. E era um indivíduo que ouvia as recomendações, pensava nelas e sempre conseguiu distinguir quem tinha intenções positivas na sua ascensão e quem não tinha. Conseguia filtrar a mensagem. Foi assim que foi crescendo ao longo do tempo até chegar ao patamar a que chegou.

Cristiano Ronaldo no estágio da seleção nacional antes do Euro 2004. (Getty Images)

Do ponto de vista fisionómico, não é fácil aumentar a massa muscular e manter os índices de velocidade. Os casos de Gareth Bale, depois da saída do Tottenham para o Real Madrid, ou Adama Traoré parecem mostrar que a massa muscular pode ser contraprodutiva. Como se consegue esse equilíbrio?

Aí é que está o equilíbrio de que falei. Hoje em dia, não podemos trabalhar de forma cada vez mais intensa a força e a massa muscular e esquecer que um atleta precisa de características de velocidade. Temos de trabalhar as fibras musculares em termos de força, mas também em termos de seleção de fibras rápidas. Acho que isso foi muito bem desenhado no caso de Cristiano.

Ao longo da sua carreira, acompanhou muitos atletas, Cristiano Ronaldo é diferente?

Penso que o Cristiano está noutro nível. Lidei com muitos atletas, mas talvez seja aquele que mais prezou o trabalho e a preparação para o seu desempenho. O foco que sempre teve nas suas qualidades físicas e nos cuidados necessários para atingir o nível que atingiu só é possível em atletas de grande estatuto psicológico e físico, no futebol e noutras modalidades.

O Cristiano trabalhou para esta longevidade. Podemos considerar que, do ponto de vista físico, quase roçou o sobre-humano, mas, como disse, tudo tem um limite, tudo tem um fim.

Como se percebe que o fim está próximo?

Quando começamos a ver que o corpo já não responde às necessidades em termos de velocidade, de constância no jogo e de prestação, é nessa altura que o atleta começa a pensar que se calhar chegou o momento de abandonar. Deve ter-lhe custado imenso. Agora, o Cristiano tem de ser muito apoiado, porque de certeza que vai lidar muito mal com o abandono daquilo a que está habituado.

O reforço muscular também ajudou a prevenir lesões mais graves? 

Até nisso ele tinha muito cuidado com a prevenção das lesões. Penso que sempre foi um atleta que primou pela prevenção. A única lesão grave que teve foi uma lesão no tornozelo, que levou a uma cirurgia na qual estive presente, mas da qual recuperou fantasticamente.

O seu maior problema, do ponto de vista da gravidade, foi sempre o tornozelo. Obviamente, teve problemas ao nível dos tendões rotulianos, que foi superando. Felizmente, lesões ligamentares graves ou fraturas não foram situações que, ao longo da sua carreira, pusessem em causa o seu desempenho.

Vídeo acima: conferência de imprensa em que Henrique Jones analisa condição física do capitão de Cristiano Ronaldo no Mundial 2014.
 
Henrique Jones e Cristiano Ronaldo no banco do Estádio da Luz durante um Portugal-Hungria da fase de qualificação para o Mundial 2010. (Getty Images)

Há alguns anos que circula um rumor ou teoria de que Ronaldo terá um lesão no joelho direito e que é por isso que deixou de ser capaz de bater livres como fazia antigamente. Isto tem alguma lógica ou fundo de verdade?

Não sei qual é a situação atual do joelho dele. Durante os primeiros 11 anos em que estive com ele, dos 18 aos 28 anos, teve lesões que, na altura, não eram limitativas nem tinham mau prognóstico para o futuro. Agora, não me parece que seja essa a razão por que deixou de marcar livres. Não sei.

Não posso ajudar nessa questão, porque desconheço quer a sintomatologia que o atleta tem atualmente, quer a confiança que tem neste momento para marcar livres. Não posso responder.

Esteve 14 anos na seleção nacional. Como avalia a forma como a Federação Portuguesa de Futebol lidou com toda esta situação em torno do adeus de Cristiano Ronaldo?

Acho que, quando uma situação tem o desfecho que teve, quem esteve no processo de tomada de decisão de certeza que não esteve bem. Não posso adiantar mais nada do que isto.

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