"A miúda não foi morta daqui, foi viva": o depoimento de Tita no julgamento da morte de Jéssica, três anos de idade

6 jul 2023, 18:39

Segundo a arguida, a criança só ficou uma vez na sua casa e mantém que esta caiu

Tita (Ana Pinto) Montes, uma das acusadas na morte de Jéssica, quis depor em tribunal depois de ouvir o juiz fazer um resumo do que a mãe da criança, Inês Sanches, revelou na quarta-feira. “Esta senhora está a mentir”, acusou, antes de ser advertida pelo juiz, que lhe lembrou que não tem de comentar o que foi dito por outra arguida.

“Jéssica esteve uma vez na minha casa, juro pela minha rica saúde”, garantiu Tita, visivelmente nervosa. E acrescentou: “Ela pediu-me para ficar com a filha porque ia sair. Isto foi num domingo, antes da morte. Eu estava a comer – só estava eu e a miúda – e disse-lhe 'Jéssica, põe-te quieta'. Ela deu um pulo da cadeira para cima do cadeirão e ouvi um estouro. Foi quando ela caiu. Não foi porque tivesse feito mal à miúda.”

Interrogada sobre quando é que Jéssica saiu de sua casa, Tita disse que foi no sábado e garantiu que “a menina estava bem”. Segundo a arguida, no dia em que Jéssica terá caído, ligou a Inês Sanches para lhe contar o sucedido: “Disse-lhe 'vem porque a miúda caiu e eu vou contigo ao hospital'. A Inês disse-me que não ia. Só ia no dia seguinte.”

“Eu entreguei a miúda viva. O que ela fez ou não, não sei”, garantiu Tita. A arguida vincou a ideia de que não tem responsabilidade na morte de Jéssica: “A miúda não foi morta daqui, foi viva. Se morreu, a mãe é que sabe."

Interrogada em relação ao timing em que ocorreu a morte e a abordagem da polícia, Tita pediu para falar com a advogada e não quis falar mais. A advogada referiu de seguida que a sua cliente está disposta a falar mas sem os outros arguidos na sala. Depois de deliberação, saíram todos.

Já na sessão da tarde, Tita manteve a disponibilidade para continuar a falar mas com uma condição: o marido e a filha tinham de sair da sala de audiências. A arguida refere que insistiu para que Inês Biscaia fosse com a menina ao hospital após a queda da menor: "A Inês foi lá a casa mas não levou a filha. A menina tinha a língua enrolada e a mãe disse que eram ataques epilépticos".

Depois do jantar, que foi "frango desfiado para todos", Tita conta que Jéssica ficou "sentada no cadeirão a ver televisão". Seguiu-se o banho e foi aí que a agora arguida notou que a criança tinha as costas negras.

Quanto às peladas na cabeça de Jéssica, Tita referiu que penteou a menina antes de a entregar à mãe e não viu nada, lembrando que "para a raça cigana as crianças são o melhor que a gente tem".

Admitiu que lavou a casa com lixívia e, depois disso, Tita disse que não "tinha mais nada a falar". A juíza insiste, mas a arguida passa a ser mais sucinta:

- A Inês deu-lhe dinheiro? -, questiona a juíza.
- Nunca, doutora -, responde Tita.
- Pediu medicamentos à mãe de Jéssica?
- Também não.
- O que fez a sua filha de mal à Jéssica?
- Nada.
- E o seu filho?
- Nada.
- E o seu marido?
Nada.

Perante a postura de Tita, juíza delibera: "Não andamos aqui a brincar aos incidentes no tribunal. Se a senhora não se importa, os arguidos vão voltar para a sala de aula". [a juíza engana-se - diz "aula" em vez de "audiências" - e arranca gargalhadas]

Os arguidos regressam à sala de audiências e a juíza resume os últimos minutos: "A senhora Ana Pinto [Tita] diz que o Justo, a Eduarda e a Esmeralda nada de mal fizeram e, como não estava constrangida com a vossa presença, mandámos-vos entrar". 

A partir deste momento, Tita resumiu-se ao silêncio até a sessão de julgamento chegar ao fim.

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