Há um novo indicador de avaliação da pandemia. E o que nos diz? Vamos continuar com “20 mortos por dia no verão”

21 abr, 22:00
Vacinação contra a covid-19 (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Desenvolvido conjuntamente pelo Instituto Superior Técnico e a Ordem dos Médicos, tal como já tinha acontecido em 2021, este indicador permite o acesso de todas as pessoas aos dados atuais da pandemia em Portugal

Já está disponível o novo Indicador de Avaliação da Pandemia (IAP), uma ferramenta online de acesso público desenvolvida pelo Instituto Superior Técnico e pela Ordem dos Médicos. É olhando para ele que o matemático Henrique Oliveira faz as contas e explica que a letalidade associada à covid-19 está neste momento a aumentar, sobretudo nos idosos, e que o aligeirar das medidas, como o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras (salvo duas exceções), vai trazer "mais casos", levando à conclusão do especialista: vamos continuar a ter uma média de “20 mortos por dia no verão”.

O indicador já tinha sido introduzido em julho do ano passado, mas agora ganha um novo destaque: apresenta informação atualizada diariamente, numa altura em que a Direção-Geral da Saúde (DGS) deixou de emitir boletins diários e passou a divulgar a informação apenas em formato de gráfico e Excel.

Segundo Henrique Oliveira, matemático e docente no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, este indicador online “combina os pilares da gravidade e ao mesmo tempo da incidência e transmissão, tem cinco variáveis que consideramos importantes e que são afetadas pela vacinação, como é o caso da incidência, do Rt, dos óbitos específicos, do número de pessoas em enfermaria e do número de pessoas em UCI”.

Para o matemático, apesar de a pandemia estar “estável” e sem se prever uma fase de “alarmismos”, a dificuldade de acesso a dados concretos sobre a covid-19, sobretudo diários e de leitura fácil, é um “problema”.

“Não conhecermos a informação é sempre mau, a informação é um valor público, até para a responsabilidade individual”, diz Henrique Oliveira, em entrevista à CNN Portugal, frisando que “não é preciso [divulgar] os boletins diários, mas deve haver informação sistemática em tempo útil, até porque informação com atraso é um erro, não permite combater a evolução de uma pandemia”.

Não facultando informação ao público, nomeadamente com os dados das diferentes regiões, e havendo sempre dificuldade na análise dos dados da DGS, estamos sempre numa situação difícil para reagir”, atira o matemático.

E Henrique Oliveira volta a apontar o dedo às autoridades de saúde portuguesas, afirmando que “a qualidade dos dados da DGS é fraca e ficou ainda mais fraca, o que faz com que seja difícil saber onde o Rt cresce mais e constitui mais preocupação, não conseguimos ter mecanismos de previsão para as diferentes regiões do país e emitir alertas localizados”.

O que nos dizem os números?

Em primeiro lugar, que já estivemos pior. Em segundo, que a pandemia ainda não acabou. E, em terceiro lugar, que a letalidade continua com tendência crescente, mesmo que suave.

Não vamos ter números astronómicos, mas vamos viver assim até chegarem as vacinas da segunda geração”, explica o matemático. 

Olhando para os dados mais recentes - publicados dia 20, mas relativos ao dia 19 - “o Rt está acima de 1”, mas há um fator que o matemático destaca: “Como a DGS publica à sexta com dados da segunda anterior, o Rt é calculado com um atraso ainda maior”. E o que é que isso pode implicar? “As pessoas julgam que a pandemia está a decrescer, mas não. O Rt está acima de 1, sem alarmismo, mas a tendência é de crescimento”, diz.

No que diz respeito à mortalidade, Henrique Oliveira destaca que “o número de pessoas a morrer a sete dias ainda é de 20 e o parâmetro a 14 dias continua elevado”, porém, isso não impediu que o Governo deixasse cair o uso de máscara em espaços interiores, com exceção de transportes públicos, lares e unidades de saúde.

Henrique Oliveira falou com a CNN Portugal horas antes da decisão tomada em Conselho de Ministros, mas o matemático já perspetivava que o uso de máscaras deixasse de ser obrigatório, algo que, diz, apesar de beneficiar do facto de “a severidade da doença ser muito baixa”, irá fazer com que haja “mais casos” de infeção. “Mas não será muito grave”, apressa-se a dizer, embora reconheça que iremos continuar a ter uma média de “20 mortos por dia no verão”.

Nova fase da pandemia a caminho?

Para Henrique Oliveira, o ponto de viragem inicial começou em maio do ano passado e ainda está em andamento, sem certeza de quando ficará concluído. Até porque, frisa, “é a Organização Mundial da Saúde que declara o fim da pandemia”.

“Há um período de transição. Neste momento, estamos a passar de lidar com a doença como se fosse uma catástrofe nova, para lidar com ela como uma doença que veio para ficar, mas ainda não é uma endemia. A transição inicial começou em maio de 2021, que é quando começa a notar-se no nosso indicador uma diferença muito grande entre o que aconteceria com vacina e sem vacina. E, sem a vacina, a variante Ómicron teria sido uma catástrofe”.

Tendo por base os números atuais, o matemático considera que “não permitem prever uma viragem na pandemia, uma vez que, apesar de termos uma vacinação muito elevada, podemos averiguar algumas coisas, como a letalidade específica que está a aumentar, as pessoas acima dos 70 e 80 estão a morrer mais, e isso tem a ver com o facto de a vacina ter um período em que perde eficácia”. 

A letalidade está a aumentar, já esteve em 2% e está em 3%, tem subido um bocadinho. O vírus diminui, mas o número de pessoas que morre por ter contacto com o vírus está a aumentar muito devagarinho, ligeiramente, todos os dias", explica.

Sobre este ponto, Henrique Oliveira considera que “é muito importante que os governos entendam isto e façam pressão na indústria para a introdução de novas vacinas de nova geração, para serem adaptadas a novas variantes e para que durem mais tempo”. 

“Temos de pensar em vacinas de nova geração, administradas no final do outono, como se faz com a gripe sazonal”, defende o matemático.

No entanto, o matemático reconhece que a postura das pessoas face à pandemia mudou e é agora de menor alarmismo e, por vezes, preocupação. “A situação está relativamente estagnada, a guerra na Ucrânia tirou a covid do palco mediático, o que por um lado foi bom, as pessoas deixaram de estar obcecadas com um trauma grande, mas a covid acontece devagar e de forma quase silenciosa e a nível de mortes, o impacto da covid vai ser maior do que o de qualquer guerra”.

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