Ventura ligou-lhe na sexta por causa de uma manchete, no sábado pôs a convenção a gritar o nome dela

13 jan, 15:21
Rita Matias

Rita Matias é responsável pela Juventude Chega, além de ser um dos rostos mais populares do partido: diz que já foi ofendida no Parlamento mas que foi no Parlamento que ouviu também um dos comentários mais elogiosos que lhe fizeram, “foi feito por um deputado do PS”

“Podemos sentar-nos ali nas mesas de voto”, diz Rita Matias, “as votações ainda não começaram, podemos falar ali”. Mas não dá para falar, tem de distribuir beijos, cumprimentos, é o primeiro dia da convenção do Chega e é uma das mais procuradas. Incluindo por André Ventura.

Rita Matias não era para falar no primeiro dia da convenção, que decorre em Viana do Castelo entre sexta e domingo, mas André Ventura viu a manchete do Expresso - “30% dos jovens nascidos em Portugal vivem fora do país” -, ligou a Rita Matias e pediu-lhe que falasse sobre o tema logo na abertura da convenção, Rita Matias é coordenadora nacional da Juventude Chega. “Eu nem vim vestida para discursar mas o André diz que assim até estou jovem”, “assim" é de xaile aos ombros”, roupa escura, no discurso que fez culpou o PS pelo conteúdo daquela manchete - “30% dos jovens nascidos de Portugal saíram do país, é este o resultado de anos de governação socialista” -, prometeu “acabar com as casas de banho mistas” e garantiu que o Chega já é o principal partido entre os jovens.

“Podemos sentar-nos ali nas mesas de voto”, diz Rita Matias, sentamo-nos por fim mas ela continua a sorrir e a acenar a quem lhe acena e sorri primeiro, é das mais populares da convenção. E uma das preferidas de André Ventura, que no dia seguinte, no sábado de manhã, anunciou que Rita Matias é a mandatária nacional para as legislativas, a sala levantou-se e gritou “Rita, Rita”, André Ventura no palco fez o mesmo, “Rita, Rita”. 

Rita Matias tem 25 anos, é a única mulher entre os deputados do Chega, os demais 11 são homens entre os 40 e 72 anos. Nunca se sentiu fora de sítio, diz, “sinto-me confiante e sobretudo bastante apoiada, é um privilégio”, sublinha que “ser mulher e ser jovem” faz com que se destaque: “Costumo dizer que me sinto muito mais livre do que a maioria das pessoas que conheço porque faço parte daquilo que nunca ninguém quis fazer”.

Conta que o pior insulto que lhe fizeram na Assembleia da República veio de uma mulher, “cresce e aparece, disse-me, aconteceu em pleno Dia da Mulher”, um 8 de março, “sempre ouvi que as pessoas queriam que uma mulher tivesse voz, mas na Assembleia da República as mulheres só são convidadas para ser ouvidas se for para dizer aquilo que é politicamente correto, que interessa a uma agenda dominante ou que não fere suscetibilidades”. 

Considera que há uma grande hipocrisia sobre a maneira como se avalia os jovens que são ativos politicamente, “dizem que os jovens têm de ter um papel ativo mas quando o temos não nos reconhecem maturidade, competência ou perfil”. Foi no Chega que “encontrei a minha voz, tive a oportunidade de tratar de todos os temas que quis sem qualquer limitação”. 

Nas bancadas do Parlamento “não dá para desativar as notificações do que me é dito”, mas nas redes sociais dá e Rita Matias diz que começou por desativá-las no início do mandato como deputada, fê-lo para “ganhar fôlego e ânimo". “Tudo pode ser alvo de comentários, desde a forma física ao que dizemos, incluindo até aquilo que as pessoas acham que dizes mas não disseste”. Diz que ficou sem espaço privado, “é duro, sobretudo quando se é jovem, sentir a pressão de se ser de um partido de direita radical que desafia os espectros políticos e deixa tantas pessoas desconfortáveis”, mas conta que entretanto arranjou uma maneira de lidar com os comentários sobre ela, “criei uma carapaça, agora rio-me, até tenho grupos no WhatsApp com amigos onde enviamos os comentários mais engraçados”.

Há um comentário em particular de que se lembra, mas é um comentário elogioso, “ veio de um deputado do Partido Socialista, um dos dos mais sensatos”, não diz o nome, dá pistas, “ em tempos foi da ala mais radical do partido e hoje é da mais moderada”, revela o teor, “disse-me que eu era a voz do bom senso em algumas matérias, como a Educação e a questão das casas de banho mistas”.

Diz que perdeu amigos quando se juntou ao Chega, antes disso foi da Juventude Popular, a ala juvenil do CDS, durou menos de um ano. “Não me revia plenamente, percebia a importância das reuniões e dos temas que tratávamos, mas achava desfasados com a realidade, passava-se demasiado tempo a debater teoria política, faltava adesão aos desafios que os jovens vivem no dia-a-dia”. Acabou por se sentir atraída pelo Chega mas “não foi uma militância logo de primeira hora”: começou por estar atenta ao “fenómeno em torno de André Ventura”, aderiu ao partido durante a pandemia, nessa altura trabalhava como bolseira num centro de investigação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. 

“Quando me tornei militante não estava à espera de chegar tão de repente onde cheguei”, subiu na hierarquia quando apresentou uma moção sobre natalidade na segunda convenção do partido - “a moção acabou por ser muito bem recebida”, foi aí que começou a proximidade com André Ventura. “Os próprios congressistas levantaram-se várias vezes e expressaram algum consenso e concordância com o que eu disse”, Ventura convidou logo a seguir para entrar para a direção do partido. 

Ventura tem sido o seu principal mentor, “é o nome sempre mais evidente mas porque realmente o é”. “Passei muito tempo a observá-lo e a ouvir os seus discursos, ele chama-me frequentemente para corrigir ou para aconselhar a fazer diferente, há uma mentoria óbvia”. E há mais duas pessoas, Jorge Galveias, deputado, e Diogo Pacheco de Amorim, também deputado e tido como mentor de Ventura: “Às vezes não são os oradores mais reconhecidos pelo público, pelo cidadão comum, mas são aquele conforto de avô ali permanente na bancada”.

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