Cardeal-patriarca de Lisboa reuniu-se com o Papa para falar sobre "acontecimentos das últimas semanas" na Igreja em Portugal

5 ago, 10:57

D. Manuel Clemente pediu audiência privada com o Papa Francisco. Cardeal-patriarca terá debatido casos de abusos sexuais no seio da Igreja que vieram a público recentemente

O cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, reuniu-se na manhã desta sexta-feira com o Papa Francisco no Vaticano, para debater "os acontecimentos das últimas semanas que marcaram a vida da Igreja em Portugal".

A informação é avançada num comunicado do Patriarcado de Lisboa, que refere que D. Manuel Clemente "foi recebido, esta manhã, pelo Papa Francisco, em audiência privada, no Vaticano".

O encontro foi pedido pelo cardeal-patriarca de Lisboa, acrescenta a declaração, e " realizou-se num clima de comunhão fraterna e num diálogo transparente sobre os acontecimentos das últimas semanas que marcaram a vida da Igreja em Portugal". 

O próprio cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, veio em carta aberta defender-se da acusação de ter ocultado uma denúncia de abuso sexual de menores por um padre, que foi recebida no Patriarcado de Lisboa nos anos 90 do século passado. Na altura, D. José Policarpo, então cardeal-patriarca, manteve o sacerdote em funções que o colocavam em contacto com crianças e jovens. E, 20 anos depois, D. Manuel Clemente também soube do caso e não o comunicou às autoridades. O cardeal-patriarca garantiu que não entendeu "ter estado perante uma renovada denúncia", apesar de se ter encontrado com a alegada vítima. 

Vários casos de abusos reportados

Nas últimas semanas, têm vindo a público vários casos de abusos sexuais na Igreja: ainda na passada segunda-feira, o Patriarcado de Lisboa revelou que afastou um sacerdote por ser suspeito de um "crime de violação" e que o caso não se encontrava no âmbito da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica em Portugal. 

A vítima terá também denunciado o caso ao Patriarcado de Lisboa e, em exclusivo à TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), disse que o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, lhe terá pedido que não revelasse o caso aos jornalistas: "O senhor cardeal, D. Manuel Clemente, só me disse uma coisa: não vá com isto para a televisão", conta.

Apesar disso, a mulher, que é da zona de Cascais, contou em entrevista que foi abusada sexualmente a 23 de junho deste ano, dentro das instalações da Igreja da Ressurreição, por parte do padre João Cândido da Silva, até agora o capelão do Hospital de Alcoitão, em Cascais.

Na edição desta sexta-feira, o Expresso avança também que um padre denunciou na década de 1990 um total de 12 sacerdotes por suspeitas de pedofilia na Igreja Católica, sendo que metade dos visados ainda exercem funções em cargos religiosos nos dias de hoje.

Segundo a reportagem, o padre que avançou com as denúncias é uma “pessoa importante no seio da Igreja”, sendo que acompanha casos do género desde 1980. Ainda segundo a investigação, o denunciante tem vários documentos com informações recolhidas ao longo dos anos, havendo dois dossiers em que estão relatados casos de pedofilia no fim do século XX.

O padre, cuja identidade não é revelada, terá reunido vários testemunhos de vítimas que dizem ter sido assediadas ou abusadas em várias paróquias, carros ou até numa casa no Algarve. Num dos casos, a vítima, então com 15 anos, acabou por se suicidar após ter revelado aos pais os crimes de que terá sido vítima.

Também no seio dos escuteiros há relatos de abusos. As queixas partiram de três rapazes e foram aumentando, ultrapassando a dezena, até 2012 e 2013. Os abusos nos escuteiros da região Oeste tiveram lugar alegadamente numa casa paroquial, mas também no carro do padre e numa casa no Algarve.

Recorede-se ainda que o Ministério Público já abriu 10 inquéritos a partir das 17 denúncias anónimas reportadas pela Comissão Independente que tem recebido queixas de menores abusados no seio da Igreja, divulgou na semana passada a Procuradoria-Geral da República. 

Marcelo Rebelo de Sousa pede investigação "até ao fim"

O Presidente da República defendeu, na noite de quinta-feira, que não há nada mais importante do que o apuramento da verdade, apontando a necessidade de se levarem até ao fim as investigações relacionadas com abusos sexuais sobre menores por padres. 

“É preciso levar a investigação até ao fim, demore o tempo que demorar, independentemente do número de casos que houver e daí retirarem as ilações. Acho que a comunidade portuguesa e as várias instituições, no caso também da Igreja Católica, devem retirar as conclusões desse procedimento do passado”, apontou Marcelo Rebelo de Sousa, no final da cerimónia de inauguração da 630.ª edição da Feira de São Mateus.

“O que mata as instituições é o medo de apurar a verdade e vão apodrecendo. A capacidade de descobrir, denunciar, punir é uma capacidade de instituições vivas e de um Estado de direito vivo”, referiu o Presidente. 

Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou ainda que, como acontece sempre em atividades que se considera que possam vir a ser criminosas, ou foram criminosas, devem ser investigadas.

“Devem ser investigadas pela Comissão, chegando à Comissão, devem ser investigadas pelo Ministério Público, isto é, pelas autoridades judiciais para procederem em conformidade. É assim num Estado de direito, é assim que deve ser”, concluiu.

O Presidente recebe na tarde desta sexta-feira, em audiência em Belém, a Comissão Independente criada para investigar abusos sexuais na Igreja Católica Portuguesa.

Relacionados

País

Mais País

Patrocinados