A favor: “O celibato é um dom e não é uma questão em debate". Contra: “Tivemos séculos de padres casados e não veio mal ao mundo". Como dois teólogos explicam a questão

3 ago, 07:00
Igreja Católica (AP Photo/Martin Meissner)

Dois teólogos católicos explicam porque são a favor e contra o celibato na Igreja Católica

Dois escândalos abalaram a Igreja Católica portuguesa na última semana voltam a colocar em questão o celibato dos sacerdotes, que continua a dividir opiniões, mesmo dentro da Igreja. A CNN Portugal recolheu ao telefone depoimentos de dois teólogos católicos, que apresentam argumentos contra e a favor do celibato na Igreja Católica, publicando-os por ordem alfabética.

"A fraqueza humana e o pecado da Igreja sempre existiram"

Depoimento de José Jacinto Farias, padre, teólogo e professor catedrático na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

A origem do celibato está no próprio Jesus Cristo. Costuma dizer-se que a origem do celibato está ligada a uma oração, a uma lei da Igreja, mas isso não corresponde à verdade. O que aconteceu é que, ao longo da história, coexistiu o celibato e também o sacramento do matrimónio para os ministros da Igreja, mas progressivamente foi tornado lei e universalizou-se o celibato para todos os sacerdotes.

O que me parece, e isso não tem sido posto em relevo, é que o celibato total elimina o matrimónio cristão e o matrimónio cristão elimina o celibato. O celibato consagrado deve ser fecundo, uma fecundidade espiritual e apostólica, e o matrimónio deve ser casto, ou seja, vivido nesta delicadeza do amor dos esposos. Agora, as dificuldades, a fraqueza humana, o pecado da Igreja sempre existiram.

O celibato e o matrimónio são realidades que têm origem na lei divina, na vontade de Deus.

O que nós temos de fazer é procurar que as nossas vidas se coadunem com aquilo que é a relação da vontade de Deus, que está presente nas Escrituras do Evangelho, nas Cartas Apostólicas. Agora, não se pode dizer que o celibato seja em função de uma maior disponibilidade para o serviço, essa não é a causa. Penso que o celibato tem a ver com uma vocação, com uma dádiva que deve ser cultivada com a vida espiritual. Mas não vejo que seja uma questão de disponibilidade. Conheço casais empenhados na vida apostólica e da Igreja que são pais e mães de família e que estão disponíveis para a vida da família e para a atividade apostólica, tanto ou mais do que alguns sacerdotes.

Numa linguagem técnica, diria que é uma questão teológica. Tem a ver com a leitura, a interpretação e o acolhimento. É um dom precioso que a Igreja recebeu e que faz parte da sua natureza, a Igreja é uma comunidade santa e costumamos ler o ministério da Igreja à luz daquilo que aconteceu à Nossa Senhora, que é virgem-mãe.

O celibato não é uma questão em debate, como a indissolubilidade do matrimónio não está em debate. É uma questão fundamental que tem a ver com a essência da Igreja Católica. É uma questão de fidelidade a si própria. Portanto, a Igreja não pode ir ao sabor das modas ou dos temas que são debatidos na praça pública, por mais urgentes e atuais que sejam. Não é uma questão em debate. Tem a ver com a essência do ministério da Igreja Católica.

Ligo muito à questão do celibato total dos sacerdotes e do matrimónio, estas duas realidades estão intimamente ligadas, até porque os padres nascem de famílias cristãs, de tal modo que valorizamos um, valorizamos o outro. Se desvalorizamos um, desvalorizamos o outro.
 

"O estar disponível para todos não pode levar a decretar o celibato como uma obrigação"

Depoimento de José Nunes, sacerdote dominicano, teólogo e professor associado da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa 
Como lei da igreja, como lei eclesiástica, o celibato só aparece no século XII, no primeiro e segundo Concílios de Latrão. Só em 1123 e 1139 é que aparecem as primeiras leis obrigatórias para o celibato do Ministério Ordenado, para os padres e bispos. Só isto já nos dá uma chave de entrada e compreensão neste assunto muito importante, pois significa que até ao século XII não era obrigatório ser-se célibe para se ser padre, mas também não significa que antes do século XII não houvesse já pessoas que se dedicassem ao serviço da Igreja e que escolhessem ser celibatárias. Tanto quanto sabemos, o próprio Jesus foi celibatário. 

Quais são as razões que se podem dar para que haja opção pelo celibato?

Uma pessoa celibatária está um pouco mais disponível para um serviço mais intenso e "a tempo inteiro", digamos assim, da Igreja e, portanto, isso pode ter o seu sentido. Mas também o voto de castidade pelo celibato pode ser no sentido em que dizem que decidiram ser celibatários para viver um amor mais universal e não tão focalizado numa pessoa, em nome dessa dedicação a tudo e todos, desse amor a tudo e a todos. 

Há certamente razões que são muito compreensíveis e aceitáveis. Já outro tipo de razões, que historicamente terão sido dadas, hoje já ninguém aceitaria de bom grado, como dizer que o celibato é importante e obrigatório para o Ministério Ordenado porque com o celibato evitam-se relações sexuais, relações corporais e tudo o que é do domínio do corpo, tudo o que é do domínio da matéria é do domínio do mal, do pecado, cria mancha e a pessoa pura, digamos assim, não se pode dar a relações sexuais.

Essa ideia hoje não a podemos aceitar, evidentemente. Sabemos que vem de um neoplatonismo, de uma filosofia dualista que considera que há um princípio do bem e do mal, o do bem é espiritual e o do mal é material. O celibato pode ter as suas razões e uma pessoa pode querer optar por isso - aliás, muitas pessoas escolhem ser célibes sem ser da Igreja, como ateus ou de outras religiões.

O estar mais disponível para todos e aberto ao acolhimento não nos pode levar, do meu ponto de vista, a decretar o celibato como uma obrigação. Nesse aspeto, temos muitos séculos de história na Igreja que provam isso, em que padres e bispos eram casados e não vinha mal nenhum ao mundo por isso. Temos o caso das nossas igrejas irmãs protestantes, que têm pastores casados, até têm pastoras, mulheres que são ministros ordenados, e que constituíram família, e daí não veio nenhum mal ao mundo. E até há pessoas que dizem, talvez com alguma razão, que o conhecimento da vida familiar habilita mais as pessoas, os padres, para o conhecimento da vida familiar dos outros, da família em geral e da vida social. Isto são razões que podem levar uma pessoa a desejar ser padre e casar ao mesmo tempo. Não vejo porque é que isso não possa acontecer, como de resto já aconteceu na história da Igreja.

Mas tudo isto leva a outra questão que me parece fundamental: nós, hoje no mundo, em cada vez mais lugares, temos um problema muito grande que é não haver padres suficientes para as comunidades cristãs.

Ora, durante séculos, os padres e os bispos eram escolhidos pelas comunidades para o serviço dessa comunidade e eu sou muito a favor disso. O que acho muito relevante é que as comunidades tenham uma palavra importante acerca da escolha do seu ministro ordenado. Acham que é alguém com maturidade de fé cristã, com maturidade humana e que é casado? Pronto, é casado, não tem problema algum. Acham que é uma senhora que tem as qualidades que a comunidade defende como importantes? Muito bem, é uma mulher. Não sou partidário nem do presbiterado do Ministério Ordenado só para homens, nem sou partidário do Ministério Ordenado só para celibatários. 

O que acho é que tem de haver uma vontade mais expressa, mais explícita e mais ouvida das comunidades que essas pessoas vão servir - e depois logo se vê se é alguém casado, se são homens ou mulheres, depois têm é de ter uma aprovação e uma formação, têm de ser avaliadas e autorizadas. Tudo isso é decorrente dessa primeira escolha, do reconhecimento da comunidade.

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