Um padre denunciado por abuso sexual de menores continuou na Igreja, outro foi afastado por "possível crime de violação" contra mulher. O que explica esta diferença?

2 ago, 08:00

Três teólogos analisam a diferença de atuação da Igreja Católica Portuguesa em dois casos de abusos noticiados recentemente. E reconhecem que ambos - como todos os casos semelhantes - mancham a instituição. O teólogo Jorge Cunha diz mesmo que estamos a viver "um inverno da Igreja em Portugal"

Caso nº 1: na semana passada, a 27 de julho, foi noticiado que o Patriarcado de Lisboa terá ocultado às autoridades judiciais uma alegada denúncia dos anos 90 de abusos sexuais de menores por um sacerdote, mantendo-o no ativo com funções de capelania.

Caso nº 2: ontem, cinco dias depois, o Patriarcado anunciou o afastamento de um sacerdote diocesano na sequência de uma denúncia de um "possível crime de violação". Neste caso, ao contrário do anterior, “o padre foi afastado de "todas as suas funções até ao apuramento dos factos".

O que justifica esta diferença de tratamento?

O Patriarcado argumenta que este segundo caso "não se enquadra no âmbito da Comissão de Proteção de Menores", ao contrário do primeiro.

Numa carta aberta divulgada na sexta-feira, o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, esclareceu a atuação da Igreja no primeiro caso, na altura acolhido pelo seu antecessor, D. José Policarpo. Quando assumiu o cargo, Manuel Clemente conta que tentou marcar um encontro com a vítima e que esta optou por adiar essa reunião, até que, em 2019, fez um novo pedido que acabou por ser aceite e culminou numa conversa presencial, na qual a vítima fez saber que tinha como "preocupação não haver uma repetição do caso, sem desejar, de forma expressa, a sua divulgação”.

O patriarca diz não ter entendido - tal como não entende hoje -, "ter estado perante uma renovada denúncia da feita em 1999", acrescentando que, "se assim tivesse sido, a mesma teria sido remetida à Comissão Diocesana, criada por essa altura, e teriam sido cumpridos todos os procedimentos recomendados à data".

"Casos são muito distintos"

Contactados pela CNN Portugal, os teólogos Juan Ambrósio, Henrique Pinto e Jorge Cunha consideram que os casos são situações muito distintas e que obedeceram a regras diferentes tendo em conta a data dos factos.

Em relação ao primeiro, que ocorreu há mais de duas décadas, Juan Ambrósio, professor de teologia na Universidade Católica, afirma que o que se depreende do esclarecimento de D. Manuel Clemente é que a reunião com a vítima não tratou de uma nova denúncia, tendo sido sim "um diálogo acerca de um caso que já aconteceu".

"Com isto não quero dizer que o Patriarcado agiu bem, mas que não se tratou de um novo caso", ressalva.

Já Henrique Pinto admite que possam ter ficado "muitas questões por esclarecer" depois da carta aberta, mas salienta que o texto demonstra que "há de facto uma vontade por parte da Igreja de ajudar e cooperar sem qualquer tipo de entraves" nestas denúncias. O afastamento anunciado esta segunda-feira será exemplo disso. E ocorre depois de reações na comunicação social ao caso anterior.

"Se é sob pressão ou não, aquilo que me parece é que a igreja está a procurar ser transparente e colaborar com a justiça", diz Henrique Pinto. Se mantiver a tendência de "engavetar" denúncias, dará um "tiro no pé", acrescenta, uma vez que estes casos "são incrivelmente lesadores da confiança de uma instituição que tem dois mil anos de história".

"Um momento gravíssimo"

Os teólogos não têm dúvidas de que estas denúncias mancham a credibilidade da Igreja Católica, provocando o afastamento de fiéis e reforçando os argumentos de quem já "não olha com simpatia" para a instituição. "É evidente que a Igreja nunca poderá sair bem destes acontecimentos, eles ferem a sua identidade e a sua missão", afirma Juan Ambrósio.

"Estamos a viver um momento gravíssimo do ponto de vista da credibilidade da Igreja, é um inverno da Igreja em Portugal", afirma Jorge Cunha, professor de Teologia da Universidade Católica do Porto, ressalvando, contudo, que este "não é só um problema da Igreja - é um problema de toda a sociedade, que está a livrar-se de padrões que não eram aceitáveis no passado, mas que não estavam sujeitos à sanção pública e moral" como hoje.

"Quanto mais a Igreja se 'encolhe' dentro dela própria e deixa de fazer o que deve, pior. Muitas vezes, coloca-se no terreno como uma espécie de super-poder, como se em representação de Deus fosse também ela intocável. A Igreja tem de fazer a aceitação da sua própria fragilidade", defende Henrique Pinto.

Para os teólogos ouvidos pela CNN Portugal, o afastamento anunciado esta segunda-feira é o procedimento correto. "Nestas coisas tem mesmo de haver tolerância zero", defende Juan Ambrósio, salientando a necessidade de pôr um fim a esta tendência de "proteger a instituição invisibilizando as vítimas".

"Neste caso, protegeu-se a vítima. O caso ainda vai ser investigado, mas suponho que devem existir sinais suficientemente fortes para se ter tomado esta posição. Havendo esses indícios, não há outra coisa a fazer senão afastar a pessoa do exercício das suas funções e entregar o caso às autoridades, tanto civis como canónicas", acrescenta.

Apoiar os agressores além das vítimas

Além do apoio que deve ser concedido à vítima, os teólogos consideram importante que não se deixe de lado quem alegadamente comete os crimes, tratando os agressores com o "respeito e compaixão" que caracterizam a Igreja Católica.

"Por vezes, a Igreja não faz isso, e quando atua em relação ao seu clero, atua muitas vezes de forma severa e intransigente. A Igreja não pode perder esse bom senso e essa compaixão pelos seus próprios membros, e espero que as pessoas que são afastadas das funções da Igreja possam também ter esse apoio, para que um dia mais tarde não acusem a Igreja de as terem esquecido, de simplesmente terem lavado as mãos e de os terem abandonado", defende Henrique Pinto.

Também o teólogo Juan Ambrósio defende que "tanto as vítimas como os agressores têm de ser acompanhados" durante o processo de apuramento dos factos: "Não se pode abandonar o agressor. Não estou a dizer que não deve responder pelas agressões, mas tem de ser devidamente acompanhado."

Além disso, os teólogos lembram que é importante salientar que "uma coisa são as pessoas dentro da Igreja que têm este comportamento e outra coisa é a Igreja no seu todo". "Não podemos dizer que todo o clero da Igreja seja abusador, isso seria tremendamente injusto. Haverá muita gente justa que faz o seu trabalho, que não tem nada que ver com isto, mas que, pelo facto de serem diáconos, sacerdotes, bispos ou cardeais, sofrem também com esta desconfiança", argumenta Juan Ambrósio.

A questão do celibato e a relação com os outros

Perante o avolumar das denúncias de que a Igreja Católica tem vindo a ser alvo, coloca-se a questão sobre o que pode a instituição fazer para evitar e prevenir estes casos que deixam marcas para toda a vida nas vítimas e mancham a própria Igreja. Para o teólogo Henrique Pinto, "a Igreja tem de fazer uma seleção muito mais criteriosa, muito mais trabalhada do ponto de vista do psicológico e social".

É, portanto, um trabalho que deve ser feito logo de início, desde a formação dos sacerdotes, que deve incluir, no entender do teólogo, um acompanhamento relativamente a questões quanto à sexualidade e à relação com os outros.

"Os anos de formação têm de ser anos de acompanhamento rigoroso. O facto de não se poder casar e de não poder ter qualquer relação sexual, etc., tudo isto não pode ser deixado simplesmente ao próprio, terá de ser trabalhado com alguém, com técnicas, reflexão, com estudo, de forma a que a pessoa decida por vontade própria", problematiza.

Quando surgem denúncias, "há quem defenda que se os sacerdotes se casassem isto se evitava", diz Henrique Pinto, argumentando depois de que "o casamento nunca foi nem nunca será a solução na vida de ninguém". "Temos casos em diversas igrejas, nomeadamente cristãs, anglicanas e outras, em que o clero se casa e isso não diminui de forma alguma dificuldades a este nível", sustenta.

Para o teólogo, estas questões têm que ver com "uma maturidade e uma capacidade interior que tem de ser trabalhada diariamente" com os sacerdotes.

Já para Juan Ambrósio, a Igreja tem o dever de estar "muito atenta a qualquer sinal que possa surgir de que estão a acontecer coisas que não deveriam estar a acontecer - algo que, "de um modo geral, tem acontecido", considera.

"Neste Pontificado, foi assumido como objetivo a Tolerância Zero, e está-se a levar essa vontade para a frente. Há indicações cada vez mais claras de que não se pode tolerar qualquer tipo de abuso e que o cuidado das pessoas é a missão primeira da Igreja", reitera.

País

Mais País

Patrocinados