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Capitólio tropical

9 jan, 22:30

Oito dias após a tomada de posse e quase dois meses após as eleições presidenciais, o sonho utópico de bolsonaristas radicais aconteceu. Milhares de fanáticos, descontentes e alimentados pelas fake news nos grupos de Whatsapp e Telegram, invadiram as sedes dos três poderes: o Congresso Nacional, o Planalto Central e o Supremo Tribunal Federal, ao furar o bloqueio da polícia militar em Brasília. Este ato já considerado por muitos como de vandalismo, não só é semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos no dia 6 de janeiro de 2021, como nasce de um dos maiores desafios à comunicação nas últimas décadas: a influência nefasta das fake news na formação da opinião pública.

Jair Bolsonaro já era comparado com o ex-presidente americano – e ficava erroneamente orgulhoso com o título de “Trump dos trópicos”.  Para ele, era motivo de satisfação. Por esse motivo, os atos criminosos, desta vez no Brasil, eram previsíveis. Desde 2015, nossa bandeira e até a camisola da seleção brasileira foram “apropriadas” pela extrema-direita brasileira.

O cenário agravou-se de resto com o resultado das eleições presidenciais, no final de outubro de 2022, quando grupos bolsonaristas, num termo muito nosso, “pipocavam” as redes sociais, disseminando informações erradas, destinadas a causar a maior indignação possível, relatando factos declaradamente falsos e levando os mais descontentes a pedir um golpe militar e até o regresso da ditadura militar.

A influência destas informações na formação da opinião pública não pode ser menosprezada quando somos confrontados com imagens que mostram claramente a polícia militar escoltando os manifestantes até à praça dos três poderes. Quando Supremo Tribunal Federal, um alvo repetido do bolsonarismo foi finalmente vandalizado, a pergunta que se impõe é: como combater a desinformação preservando a liberdade de expressão?

E o que dizer do peso das redes sociais, a maior ferramenta de comunicação do movimento bolsonarista? Estas, quando somadas ao silêncio do ex-presidente, após o resultado das urnas, criaram um solo fértil para as mais mirabolantes conspirações e o adensar do ressentimento daqueles que não aceitaram a derrota nas urnas. Através destas, organizaram-se idas a Brasília com tudo pago de diversas partes do país. A velocidade com que é disseminada e a própria natureza “alternativa” dessa informação, torna o desafio pela verdade difícil de ultrapassar.

Curiosamente a solução mais rápida estaria nas mãos do próprio Jair Bolsonaro. No Twitter, ele condenou a violência, 6 horas depois, e afastou sua responsabilidade dos ataques e comparou o acontecido com protestos vindos da esquerda em 2013 e 2017. Declarações típicas do ex-presidente que, desde os resultados eleitorais, tem usado o silêncio – em contraste com a verborreia que caracterizou o seu mandato – como uma poderosa ferramenta de comunicação.

O silêncio de Jair Bolsonaro foi até agora uma afirmação do seu poder. Recordemos como a sua declaração de a conceder a derrota dominou as primeiras horas após a eleição. Nas últimas horas, ao dar espaço para que a histeria se desenrolasse, cada ato, cada gesto seu, dominaram os media e interpelaram os comentadores. O facto que o ex-presidente poderá ter sobrestimado.

Ontem, pela primeira vez desde há muito tempo, o Brasil uniu-se. Uma das consequências não intencionais dos atos de vandalismo dos bolsonaristas e um erro de gestão de comunicação. A justa indignação já não é mais questão de direita ou esquerda. A rápida indignação de Macron, Joe Biden e Marcelo Rebelo de Sousa com os atos de vandalismo, juntaram-se a dos governadores dos três maiores colégios eleitorais do país, que também condenaram os actos de vandalismo. Todos se apressaram para pedir o respeito à democracia, passando desta forma uma mensagem de apoio a um governo legitimamente eleito.

Foi um primeiro passo na derrota das fake news, da estratégia de desinformação e de silêncio adoptada por Bolsonaro.

Para seguirmos em frente, é crucial questionarmos como esses atos aconteceram. Como chegámos aqui? Quem os promoveu? Como entraram a Brasília?  Quem financiou os acampamentos e toda a estrutura?

São perguntas para as quais é necessária uma investigação séria e que envolva todas as instituições responsáveis. No seu discurso à Nação, Lula prometeu governar para todos os brasileiros numa tentativa de conciliação. Resta saber se, no futuro, as suas ações serão condizentes o seu discurso no dia 1º de janeiro. No entanto, para um ambiente mais pacífico e saudável, uma coisa é certa: os atos de vandalismo de ontem têm que ter consequências.

Manifestações fazem parte do património democrático, em qualquer lugar do mundo, mas, o vandalismo não.

Os órfãos de Jair Bolsonaro gritavam ontem “Hoje ou nunca mais” provavelmente estavam mais certos do que pensaram. Hoje são mais órfãos e como nunca uniram todos aqueles que amam a democracia e pretendem um Brasil melhor, sejam eles de esquerda, centro ou direita.

 

(*Nota: O artigo está em português do Brasil.)

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