Lula ou Bolsonaro? Partidos portugueses divididos entre o fim da "experiência trumpista" e o equivalente a um "regresso de Sócrates em Portugal"

29 set, 22:00

Quando se aproximam as eleições presidenciais no Brasil, a CNN Portugal quis saber o que dizem os diferentes partidos com assento parlamentar sobre este ato eleitoral, que pode constituir uma "viragem" na política brasileira

Da esquerda à direita, os partidos portugueses com assento parlamentar parecem tão divididos quanto os brasileiros em relação aos candidatos à presidência do Brasil. Bloco de Esquerda e PCP desejam uma vitória de Lula da Silva, enquanto o Chega considera que uma vitória do antigo sindicalista "seria como o regresso de Sócrates ao poder em Portugal".

Apesar das diferentes posições, todos os partidos convergem numa questão: as relações entre Portugal e Brasil são para manter, independentemente de quem vença as eleições. Mas vamos por partes.

Contactado pela CNN Portugal, Luíz Fazenda, do Bloco de Esquerda, diz que o partido tem "uma grande expectativa" de que as eleições deste domingo coloquem um ponto final na "experiência trumpista" no Brasil, referindo-se assim aos últimos quatro anos de governo de Bolsonaro

"A expectativa que temos sobre as eleições no Brasil é de que haja uma vitória do Lula da Silva. É uma garantia para a continuidade da democracia e do sistema constitucional brasileiro", defende, acrescentando que o mandato de Bolsonaro não só foi "errático do ponto de vista político", como também ficou marcado por um "retrocesso da democracia política e dos valores ambientais".

Também o PCP acredita na vitória de Lula da Silva, considerando-a o ponto de partida para que o Brasil "possa prosseguir um caminho de defesa dos direitos, da democracia, do progresso social e de defesa da paz, da soberania e da cooperação no plano internacional".

"As próximas eleições no Brasil constituem uma oportunidade para que o povo brasileiro derrote a política antipopular e reacionária e os projetos antidemocráticos do presidente Bolsonaro e do seu governo – implementada após as operações golpistas que impuseram a destituição da presidente Dilma Rousseff, em 2016, e impediram a participação de Lula da Silva nas eleições presidenciais, em 2018", pode ler-se, numa resposta escrita enviada à CNN Portugal.

O Chega, por sua vez, considera que "uma eventual vitória de Lula da Silva, envolvido em vários escândalos de corrupção, seria como o regresso de Sócrates ao poder em Portugal". Recorde-se que, em 2021, o Supremo Tribunal Federal brasileiro anulou as condenações de Lula da Silva.

"Temos preocupações comuns com Bolsonaro, embora a realidade política portuguesa seja bastante diferente da brasileira. Consideramos ainda que as eleições de cada país, as escolhas dos seus eleitores e os respetivos resultados devem ser respeitados por todos", refere o líder do Chega, André Ventura.

O presidente do Chega diz ainda não alinhar no que classificou como a "narrativa da extrema-esquerda" de que "quando é escolhido o candidato que apoia, é a democracia a funcionar, mas quando a escolha dos eleitores não vai ao encontro das ideias que defendem, já há um problema com a democracia e vem aí o fascismo".

Os restantes partidos não nomearam um candidato favorito às eleições presidenciais do Brasil, mas quiseram deixar bem claro que é necessária uma "viragem" no Palácio do Planalto, tal como o fez o PAN:

"O Brasil precisa romper com aquilo que o presidente Bolsonaro representa. É preciso uma viragem para fazer face aos problemas que o país enfrenta, quer a nível social, quer ambiental. O prejuízo que Bolsonaro deixa ao país, em matéria ambiental e social, é demasiado grave, tal como o fenómeno da corrupção que vem ganhando expressão", defende o partido liderado por Inês de Sousa Real.

Para o PAN, o que Brasil precisa realmente seria mesmo "uma presidente que respeitasse os valores naturais da Amazónia, que não se subordinasse ao agronegócio e que lutasse pelos direitos". "Lamentamos não ver uma candidatura ecologista, como seria a de Marina Silva, mas esperamos que a sua eleição para a Câmara dos Deputados marque também uma viragem nas políticas ambientais e sociais no Brasil", acrescenta.

O Livre também deixa uma crítica ao governo de Bolsonaro, descrevendo-o como "um presidente apoiado pela extrema-direita e pelos setores mais conservadores do país, tendo dado provas da mais completa incompetência nas mais diversas áreas", desde logo na "gestão desastrosa da pandemia" e o facto de "ter posto a saque a Amazónia" e consequente "desrespeito pelos povos indígenas e a violação de direitos humanos".

Teresa Mota, co-porta-voz do LIVRE, garante que o partido "apoiará todas as candidaturas democráticas e todos os esforços para ultrapassar os tradicionais sectarismos à esquerda, que mais não fazem do que atrasar o caminho para um mundo socialmente mais justo, menos desigual e de respeito pelos valores ambientais".

O Partido Socialista (PS), por sua vez, diz estar a acompanhar "com particular interesse e amizade a realidade política do Brasil". Jamila Madeira, secretária nacional do partido para as Relações Internacionais, sublinha que o PS tem "na sua família internacional socialista e da Aliança progressista vários partidos brasileiros (PSB, PT e PDT) com quem mantém relações cordiais e de colaboração", pelo que "estes tendem a ser os seus principais interlocutores para prosseguir uma agenda de defesa da democracia e do socialismo democrático e progressista no Brasil".

"A maior preocupação no quadro destas eleições é que estas decorram num ambiente de estabilidade, democracia e transparência e que o povo brasileiro possa exercer em liberdade plena as suas escolhas", diz a deputada socialista.

Relações com Portugal não devem ficar "comprometidas"

Independentemente de estarem mais à esquerda ou mais à direita, e de qual for o resultado das presidenciais, os partidos portugueses desejam manter a estreita cooperação e relações fortes entre Portugal e Brasil.

"Seja qual for o resultado, as relações de cooperação mútua e amizade entre os dois Estados não pode, de forma alguma, ficar comprometida", sublinha Jamila Madeira.

O mesmo defende André Ventura: "Naturalmente que cada partido português poderá ter as suas opções relativamente às eleições brasileiras, ou de qualquer outro país. Mas os resultados não devem alterar as relações entre os países, desde que as eleições sejam democráticas e decorram dentro da legalidade."

Já o Bloco de Esquerda lembra que Lula da Silva "sempre teve excelentes relações com Portugal quando foi presidente" e até mesmo antes e depois de o ser. Luís Fazenda recorda o "célebre Acordo Lula", assinado em 2003, e que permitiu legalizar milhares de imigrantes brasileiros em Portugal como exemplo disso mesmo.

"Do ponto de vista político, [Lula] sempre teve uma enorme abertura para Portugal e para os governos portugueses, independentemente da sua cor política", acrescenta.

Num ponto de vista mais alargado, o Livre diz esperar que o Brasil consiga ocupar, "no mais breve trecho possível", uma "posição de liderança moral" na esfera internacional, "estreitando laços com a União Europeia e com os restantes países da América do Sul, e criando assim alternativas geopolíticas ao retorno das tensões típicas da guerra fria".

A CNN Portugal contactou por várias vezes o PSD para obter uma posição do partido sobre este tema, mas não obteve resposta. A Iniciativa Liberal disse não querer tomar uma posição pública sobre as eleições no Brasil.

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