Boris Johnson deixa um caos económico para o seu sucessor resolver (análise)

CNN , Análise de Mark Thompson
9 jul, 21:00
Boris Johnson (AP Photo)

Boris Johnson acabou por ser forçado a demitir-se do cargo de primeiro-ministro do Reino Unido, na quinta-feira, após dezenas de membros do seu partido terem abandonado o Governo depois de inúmeros escândalos relacionados com ética.

Mas a sua popularidade fora do Parlamento também foi gravemente abalada pela crescente inflação e estagnação da economia britânica, uma crise no custo de vida que ameaça empobrecer milhões de pessoas e o risco de uma inconveniente guerra comercial com a União Europeia.

As ações do Reino Unido subiram em resposta às notícias de que Johnson se preparava para sair e a libra ganhou 0,75%, para negociar nos 1,20 dólares — recuperando ligeiramente dos mínimos de dois anos atingidos no início desta semana.

"No entanto, não se iludam, a [libra] permanece bastante fraca devido ao estado terrível da economia do Reino Unido, que está a ter um fraco desempenho em relação aos seus pares, [e] é provável que entre em recessão enquanto o Banco de Inglaterra se recusa a subir as taxas de juro de forma agressiva para lidar com a escalada da inflação", escreveu Walid Koudmani, analista de mercados da corretora XTB, numa nota aos clientes.

Quem emergir dos escombros da administração Johnson como novo líder do Partido Conservador, e do país, enfrenta uma série de extraordinários desafios económicos e financeiros.

O Reino Unido tem a inflação mais alta do G7

Todas as grandes economias sofreram com os efeitos persistentes da pandemia nas cadeias de abastecimento e com o choque dos custos energéticos e alimentares causados pela invasão russa da Ucrânia em fevereiro.

Mas o Reino Unido foi mais afetado do que a maioria dos seus pares. A inflação atingiu um máximo de 40 anos em maio, o valor mais alto entre as principais economias do G7 — e deverá subir acima dos 11% ainda este ano.

As repercussões do Brexit – o grande feito de Johnson no Governo - agravaram a escassez de mão-de-obra e aumentaram os custos operacionais para as empresas. O aumento do custo das importações também foi impulsionado por uma queda acentuada do valor da libra, este ano.

O aumento dos preços dos alimentos e dos combustíveis motivou a pior crise de custo de vida em décadas, forçando as famílias de baixos rendimentos a escolher entre "aquecimento e alimentação", um grito de protesto dos ativistas antipobreza, que exigem mais apoio governamental.

O Governo de Johnson prometeu 400 libras (502 dólares) em subsídios por família para ajudar os milhões de pessoas que lutam para pagar as suas contas de energia. Também cedeu à pressão no mês passado e revelou um imposto de 5 mil milhões de libras (6,3 mil milhões de dólares) sobre os lucros das empresas petrolíferas e de gás.

Mas esses esforços estão a ser em vão. Os rendimentos disponíveis estão a caminho da segunda maior queda desde que os registos começaram em 1964, segundo o Banco de Inglaterra, devido ao aumento do custo da energia e dos alimentos. E essas contas estão prestes a ficar muito piores.

As faturas médias anuais de energia das famílias podem subir cerca de 50% para 3000 libras (3600 euros) neste inverno, quando um limite para o preço máximo que os fornecedores podem cobrar aos clientes for revisto, no outono. O regulador já elevou o limite em 54% em abril.

As famílias britânicas têm estado particularmente expostas devido ao declínio persistente do nível de vida. Os salários típicos não são hoje mais elevados do que antes da crise financeira de 2008, informou, nesta segunda-feira, a Fundação para a Resolução.

"O fraco histórico recente da Grã-Bretanha no nível de vida – nomeadamente o colapso total do crescimento do rendimento das famílias pobres nos últimos 20 anos – deve ser revertido na próxima década", disse Adam Corlett, economista-chefe da fundação.

E começa a aproximar-se do crescimento mais baixo...

Sem um crescimento mais forte, a queda dos salários não será invertida. E há poucas perspetivas de isso ocorrer em breve. Em todo o mundo, recuperações outrora robustas estão em dificuldades. Mas o Reino Unido está numa situação particularmente má, com uma recessão a aproximar-se.

A quinta economia do mundo estagnou em fevereiro e começou a diminuir em março. A queda acelerou em abril, altura em que se estima que o PIB tenha caído 0,3%, nos três principais setores da economia – serviços, manufatura e construção — a retrocederem, segundo o Instituto Nacional de Estatística. As vendas a retalho caíram em maio pelo segundo mês consecutivo.

Há mais más notícias pela frente. Num relatório sobre estabilidade financeira publicado no início desta semana, o Banco de Inglaterra disse que as perspetivas para a economia do Reino Unido "deterioraram-se materialmente".

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, com sede em Paris, previu no mês passado que a economia do Reino Unido se encaminhava para a estagnação, com um crescimento zero do PIB previsto para 2023. Seria o pior desempenho do G7 no próximo ano.

... enquanto o Brexit não fez o que prometeu

Johnson sucedeu onde a sua antecessora, Theresa May, falhou ao "concretizar o Brexit". Mas a rutura com a União Europeia não deu o impulso ao comércio que ele e outros defensores do Brexit prometeram.

O Reino Unido perdeu grande parte da recuperação do comércio global desde a pandemia, o próprio supervisor fiscal do Governo, o OBR – o Gabinete de Responsabilidade Orçamental – concluiu em março.

Para muitas empresas, o acordo de comércio livre de tarifas que Johnson assinou com os líderes da UE, há menos de dois anos, provocou um enorme aumento da burocracia aduaneira, dificultando a venda no seu maior mercado de exportação e aumentando o custo das importações. E os acordos assinados com outros países mal compensam.

"Embora as trocas comerciais adicionais com outros países possam compensar parte do declínio das trocas comerciais com a UE, nenhum dos acordos celebrados até à data é de uma escala suficiente para ter um impacto significativo na nossa previsão", afirmou o OBR.

Os dados oficiais publicados na semana passada mostraram que o défice da balança de pagamentos do Reino Unido subiu para 8,3% do PIB no primeiro trimestre de 2022, o que significa que o país está a ter de depender cada vez mais do investimento estrangeiro para compensar o facto de o país estar a importar muito mais do que exporta.

Neste cenário, a libra sofreu um grande golpe este ano, ao que não ajudou a ameaça de Johnson de rasgar parte do tratado do Brexit que assinou. Isso envenenou as relações com os líderes da UE e trouxe de volta a conversa sobre represálias que poderiam escalar para uma guerra comercial que provavelmente prejudicaria acima de todos o Reino Unido.

"A julgar pelo alinhamento antecipado de potenciais sucessores de Johnson, o equilíbrio dos resultados potenciais inclinar-se-ia para relações menos tensas com a UE", observou Kallum Pickering em Berenberg.

"Até os mais fervorosos candidatos pró-Brexit... são menos populistas do que Johnson. Isto sugere que, embora não seja claro se as relações entre o Reino Unido e a UE viriam a melhorar um pouco ou bastante, a situação global viria a ser muito mais calma."

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados