Sem filtros e mais "autêntica". Como funciona a BeReal, a nova rede social "anti-Instagram" que está a atrair os mais jovens?

20 ago, 08:00
Ilustração redes sociais, telemóvel. Imagem: Adobe Stock

"A BeReal não te vai tornar famoso(a). Se quiseres tornar-te num(a) influencer, podes ficar no Tik Tok e no Instagram", lê-se na descrição da aplicação

"Está na hora de BeReal [Ser real]". É esta a notificação que Joana, Eva, Mariana e cerca de três milhões de pessoas em todo o mundo recebem uma vez por dia, sempre a horas diferentes, da nova rede social BeReal. Podem ser 09:00, 12:00, 20:00 ou até mais tarde - a notificação surge de forma inesperada. Ao clicarem na notificação, os utilizadores têm dois minutos para capturar duas fotografias em simultâneo: uma com a câmara frontal do telemóvel, em modo 'selfie', e outra com a câmara traseira, para mostrar o que está à sua frente.

O objetivo é partilhar com os amigos o que se está a fazer naquele preciso momento, sem filtros ou outras manipulações de imagem. É neste ponto que esta aplicação, criada em 2019 por uma startup francesa, se assume como uma rede social "anti-Instagram". "A BeReal não te vai tornar famoso(a). Se quiseres tornar-te num(a) influencer, podes ficar no Tik Tok e no Instagram", pode ler-se na descrição da aplicação na App Store ou na Google Play.

É precisamente esta preocupação com a autenticidade que está a conquistar os jovens em todo o mundo, não fossem eles o público-alvo desta rede social, como explica Graça Canto Moniz, especialista em redes sociais, que define esta aplicação como uma rede social "de nicho".

"É aquilo que na gestão se designa como Blue Ocean Strategy [Estratégia Oceano Azul], que é quando já temos um mercado com tanta oferta que as coisas novas que têm sucesso são coisas de nicho. E este é um ótimo exemplo disso mesmo", começa por dizer, em declarações à CNN Portugal.

A BeReal foi desenhada para ir ao encontro dos valores das gerações mais jovens, a chamada Geração Z e Millennials, que, por norma, são "utilizadores das redes sociais que tomam decisões mais conscientes", sem descurar nunca os valores que defendem. "A autenticidade é um desses valores", diz Graça Canto Moniz. "Por isso é que é tão importante para eles [os jovens] registarem, no seu dia-a-dia, momentos de autenticidade", acrescenta.

Com esta rede social, os jovens não sentem "tanta pressão" para publicar fotografias, ao contrário do que acontece noutras aplicações. "Para pôr uma foto no Instagram tenho de a editar, perguntar às minhas amigas o que acham", conta Eva Rua, de 21 anos, que instalou a BeReal há cerca de duas semanas. Nesta aplicação, como "é uma coisa do momento", onde não há hipóteses de utilizar ferramentas de edição de imagem, há muito menos pressão para publicar a fotografia 'perfeita', explica.

Joana Ribeiro, de 26 anos, também instalou esta rede social há apenas 15 dias, mas já nota uma diferença em relação às restantes: "É mais autêntica, porque não dá hipótese para as 'falsidades' que já se veem nas outras redes. Como não há filtros, e como se tira uma foto simultaneamente com as duas câmaras, tem o intuito de captar a realidade."

Uma rede social "autêntica"?

Apesar de se promover como uma rede social "autêntica", a verdade é que dá sempre para manipular as imagens que partilhamos - não com filtros, mas 'jogando' com as notificações. É certo que a notificação surge de forma inesperada, mas o utilizador pode escolher abrir nesse momento ou mais tarde. Os dois minutos para capturar as fotografias só contam a partir do momento em que se abre a notificação.

"Se recebeste a notificação quando acabaste de acordar e ainda estás toda despenteada, podes sempre arranjar-te antes e só depois tirar a foto", diz Joana Ribeiro, que reconhece que, embora o conceito da aplicação seja original, na prática, acaba por não ser assim tão diferente de outras redes.

Além de poderem 'jogar' com as notificações, os utilizadores também têm outra forma de manipular as fotografias que publicam - que é, aliás, subjacente a todas as redes sociais: o enquadramento. Os utilizadores só mostram aquilo que querem mostrar.

"Esta nova rede vende-se com o valor de autenticidade, que passa pela não artificialização, mas não deixa de haver alguma artificialização, porque qualquer fotografia só mostra o que queremos mostrar. É uma estratégia de marketing", diz Vítor Ferreira, sociólogo que se dedica, entre outras áreas, ao estudo da juventude.

O modelo de negócio e o exemplo da Clubhouse

Apesar de estar a ser um sucesso entre os mais jovens, a verdade é que esta aplicação, criada por uma startup francesa em 2019, "ainda está nos primórdios", como explica Graça Canto Moniz. "Da última vez que vi não tinha sequer três milhões de utilizadores. Se quisermos comparar, o Snapchat tem 347 milhões de utilizadores. É uma aplicação que ainda está a crescer. E não sei se vai ter muito sucesso", problematiza.

Isto porque, num contexto económico tão incerto quanto este que agora enfrentamos, "os investidores querem tomar decisões menos arriscadas e vão aplicar o seu dinheiro noutras coisas", pelo que "vai haver falta de capital para estes negócios", prevê a especialista.

"Não sei se [esta rede social] vai ser um novo Snapchat, estou um bocadinho cética em relação a isso", admite.

Além disso, e tal como acontece com as restantes redes sociais, a BeReal vai ter um outro problema em mãos, que é a rentabilização da aplicação para justificar o capital investido. Ao contrário do Facebook, que "vive de anúncios", e de outras aplicações, a BeReal não tem publicidade, pelo que ainda não é certo qual será o seu modelo de negócio.

Uma aplicação cujo modelo de negócio também levantou algumas dúvidas - e que também registou uma grande popularidade recentemente - foi a Clubhouse, uma rede social que só permite comunicar por voz. A aplicação foi lançada em abril de 2020, e aproveitou os confinamentos da pandemia para se afirmar como uma rede social que aproximava as pessoas.

Andrew Chen, da empresa de capital de risco Andreessen Horowitz, justificou o investimento da empresa na Clubhouse por esta "reinventar a categoria [das redes sociais] de todas as formas certas, desde a sua experiência de consumo de conteúdo à forma como as pessoas se relacionam, ao mesmo tempo que dá poder aos seus criadores". 

Mas o sucesso desta aplicação foi 'sol de pouca dura'. A Clubhouse atingiu o "pico" de utilizadores em março de 2021, menos de um ano após o seu lançamento, quando registava 10 milhões de utilizadores ativos. Esse número baixou para 3,5 milhões poucos meses depois, em setembro de 2021.

O levantamento das restrições anti-covid parece ser o argumento mais utilizado para justificar a perda de interesse na aplicação, mas o modelo de negócio também pode ter impulsionado este desfecho. Isto porque a Clubhouse depende exclusivamente do capital de investidores - recebeu 110 milhões de dólares desde o seu lançamento - não contando, por isso, com receitas oriundas de publicidade ou outras formas de monetização.

"Nunca se sabe qual o desfecho destas aplicações. Quando há publicidade, é claro perceber como é que vão ser monetizadas, como é que vão dar retorno aos investidores que lá estão a pôr dinheiro. Nestes casos, sem publicidade, não dá para perceber", resume Graça Canto Moniz.

Porquê mais uma rede social?

Tal como Eva e Joana, Mariana Ribeiro também instalou a rede social BeReal há pouco tempo, cerca de 15 dias. Foi em conversa com uma amiga neerlandesa que conheceu a aplicação - nos Países Baixos já há muito que esta rede social faz sucesso entre os mais jovens, diz. Uma vez que já partilhava momentos do seu do dia a dia com a amiga, acabou por experimentar fazer o mesmo através desta aplicação.

Mas esta foi uma exceção nos seus hábitos de consumo de redes sociais, conta a jovem de 24 anos, que apenas utiliza o Instagram, além da BeReal. Recentemente, Mariana sentiu necessidade de fazer "um detox de redes sociais", e resolveu eliminar muitas pessoas que seguia e até seguidores do seu perfil. 

"Chegou a um ponto em que acabei por levar com a toxicidade da rede social e pensei 'isto não pode ser assim, não me posso deixar influenciar por coisas que não sei sequer se são verdadeiras ou não'", conta.

A BeReal já conquistou cerca de três milhões de utilizadores, ainda assim muito poucos quando comparados com os 347 milhões do Snapchat. Foto: Jakub Porzycki/NurPhoto via Getty Images

Apesar de não sentir o mesmo que Mariana, Eva Rua refere que alguns dos seus amigos optaram por não instalar a BeReal porque "não querem mais redes sociais", afirmando que as que têm já lhes consomem "muito tempo" no quotidiano.

Neste dilema entre querer ter presença digital e querer aproveitar momentos do dia a dia sem ser através de um ecrã, fica a questão: porque é que sentimos necessidade de ter várias redes sociais?

O sociólogo Vítor Ferreira explica que as redes sociais são uma espécie de "palco" onde as pessoas se podem expressar, e têm uma importância ainda maior para os mais jovens, uma vez que estão a descobrir e a construir a sua identidade, pelo que sentem necessidade de se apresentar tal como querem ser percecionados.

"As redes sociais para os mais jovens são sobretudo espaços de sociabilidade, de apresentação de si, de expressão - mas de expressão performática", explica. Isto porque o "eu" que mostramos ao outro é sempre apresentado "em contexto", daí a analogia a um palco de espetáculos, onde "só mostramos o que queremos mostrar".

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