opinião
Economista, investigador e professor universitário

1,5% de crescimento em 2023? Um valor que deve ser interpretado com cautela

19 dez 2022, 09:01

Na passada sexta-feira, o Banco de Portugal (BdP) publicou o seu Boletim Económico onde consta uma projecção de 1,5% para o crescimento da economia portuguesa em 2023. Este valor surpreendeu na medida em que supera, por larga margem, os 0,7% e 1,0% apresentados recentemente pela Comissão Europeia e pela OCDE nas publicações European Economic Forecast e Economic Outlook, respectivamente.

Uma comparação entre os diferentes cenários macroeconómicos estimados, permite concluir que a instituição liderada por Mário Centeno antecipa uma desaceleração menos acentuada do ritmo de crescimento das nossas exportações; algo que dependerá, de forma decisiva, do comportamento das economias que nos compram os bens e os serviços que produzimos.

A este propósito, vale a pena relembrar que a conjuntura actual é pautada por uma elevada imprevisibilidade. A palavra “incerteza” surge mesmo vinte e nove vezes no próprio Boletim Económico do BdP, onde consta um cenário macroeconómico alternativo que muitos preferiram ignorar. Nesse cenário mais adverso admite-se a possibilidade de haver “interrupções no fornecimento de energia à Europa”, “uma nova subida dos preços destas matérias-primas, a par de uma redução da confiança dos agentes”, bem como “aumentos mais pronunciados dos custos salariais e das margens das empresas (…) implicando uma maior persistência das pressões inflaccionistas”. Se estes riscos se materializarem então, de acordo com a publicação em causa, a economia portuguesa contrairá 0,4%.

Embora o BdP acredite que o cenário mais provável seja o de um crescimento de 1,5% em 2023, creio que é óbvio que esse valor deve ser interpretado com cautela. Não estamos por isso no tempo de andar a lançar foguetes para comemorar projecções económicas. Os decisores políticos devem procurar fazer tudo o que estiver ao seu alcance para tornar a nossa economia mais competitiva tornando-a mais resistente a eventuais choques externos.

 

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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