A torneira dos gasodutos

30 abr, 14:38

Têm recrudescido nos últimos dias as opiniões muito críticas pelo facto de alguns Países, e em particular a Alemanha, não recorrerem à arma de destruição massiva do gás. De facto, afirmam, são colossais as somas que “damos” à Federação Russa ao continuarmos a negociar com ela. Assim, não só permitimos que continue o seu esforço de guerra como, por outro lado, “damos” muito menos à Ucrânia para que esta enfrente o agressor.

Fechem a torneira do gás, e a guerra acaba num instante: é esta, em síntese, a tese. Penso, porém, que o “argumento” é muito frágil. Pode ajudar a mobilizar esforços e vontades em benefício da Ucrânia – e esta merece-o – mas não tem sustento que aguente uma análise menos primária.

Seria bom que se dissesse, logo a começar, que se fosse como se tem dito, a Rússia já tinha ganho a guerra há muito tempo. Com forças superiores e nós a pagar-lhe, que outro resultado poderia esperar-se? Depois, a Rússia não recebe nada de graça, aquelas somas milionárias são a contrapartida de mercado para que os Estados europeus que lhe compram gás possam, literalmente, funcionar ou manter em funcionamento setores importantes da sua economia e garantir expetativas de consumo legítimas dos seus cidadãos em relação a um bem essencial. 

Não será fácil acusar a Comissão Europeia, e a Presidente da Comissão, de qualquer tolerância ou complacência com a invasão russa da Ucrânia. Ora, com bastante bom senso, as negociações que têm decorrido apontam para que, a prazo, cesse qualquer aquisição de gás ou petróleo à Federação Russa, quebrando-se assim e de vez uma dependência que, agora, todos consideram tóxica. O carvão já foi, vai-se agora o petróleo, seguir-se-á o gás.

Por outro lado, desde o início do conflito, a força das contramedidas que foram adotadas contra a Rússia vem da vontade comum de (quase) todos os Estados europeus, assim como dos Estados Unidos e de outros aliados. Mas a força seria gravemente amputada (e económica e politicamente muito mais débil) se Berlim tivesse dito que não.

A Alemanha viabilizou pacotes atrás de pacotes de contramedidas financeiras e de outra natureza para ir cercando e enfraquecendo a Rússia? Não interessa, fez o seu dever. A Alemanha cancelou o projeto Nordstream 2, que lhe garantia gás rápido, barato e abundante? Irrelevante, fez o seu dever. A Alemanha anunciou o aumento do seu orçamento de defesa para níveis estratosféricos, tendo em vista reforçar as suas, e reflexamente as nossas, capacidades militares e defensivas? Não importa, fez o seu dever. A Alemanha já diminuiu significativamente as compras de gás à Rússia, mas pede mais tempo para poder encontrar alternativas ao gás que compra aos russos? Não pode, isso é egoísmo nacional de um País que é muito rico – e, como todos sabem, “os ricos que paguem a crise”. A Alemanha reverteu dramaticamente uma política constante desde a Segunda Guerra Mundial, e até o seu Parlamento já aprovou, por muito ampla maioria, que o Governo possa fornecer armamento pesado para a Ucrânia se defender? Veio tarde e a más horas. O Chanceler alemão declara, em entrevista à Bild, que a sua prioridade é evitar um conflito armado direto com a Rússia? É um tíbio, roça a cobardia pessoal e política.

Registe-se que, tivéssemos mostrado uma fraçãozinha cidadã deste rigor e excitação morais relativamente aos conflitos iniciados nos últimos dez anos (alguns, mais bárbaros do que este) e o Mundo seria hoje muito melhor do que aquele em que vivemos. Mesmo.

Pior, encontramo-nos até naquela situação em que, se já se falava pouco dos horrores que aconteciam noutras paragens (do Mali ao Iémen, passando pela Síria), agora até se evita mencionar ao de leve esses assuntos. Temos receio de violar um compromisso de engajamento quase religioso que assumimos relativamente à Ucrânia e à sua (péssima) sorte – como se esta fosse uma questão sentimental de partilha de amores.

E, lá voltamos ao gás. De Excel na mão, olhamos para valores, fazemos contas de somar e subtrair e, logo a seguir, disparamos: corte-se.

Há várias entorses neste raciocínio carregado de números gigantescos, desdobrados até ao cêntimo. Por exemplo, tem presunções não demonstradas e, por outro lado, afasta outros elementos determinantes para a fundamentação do raciocínio. Estabelece a presunção implícita, desde logo, de que 1 euro de gás comprado é 1 euro em armamento ou capacidades para ferir a Ucrânia. É, então, como se os russos tivessem de deixar de comer ou beber para se produzirem mais mísseis hipersónicos ou outras coisas aleivosas. 

Parece que é isso que se deseja. Que a culpa de Vladimir Putin seja uma culpa coletiva da Rússia, pois que esta identificação tem vindo a sobressair cada vez mais. Ora, assim sendo, é missão moral fazermos com que todos os russos, quaisquer que sejam, sofram ainda mais do que os ucranianos. Transferimos para os “russos” a nossa raiva, aliás, também por uma outra razão não declarada.

Sabemos ou pressentimos, no que se refere ao sofrimento “individual” de Vladimir Putin ou castigo que lhe queremos aplicar, que poderá não sofrer rigorosamente nada (a não ser o sofrimento por assistir, por sua responsabilidade e em vida, à derrocada da Rússia). Talvez por isso, confrontados com a nossa “impotência”, e outra vez num impulso excitadamente “moral”, desejamos que, não sofrendo ele, haverão de sofrer os da raça dele, de preferência mais do que aquilo que desgraçadamente estão a sofrer os ucranianos.

Se não fosse, como é que a grande maioria assistia silenciosamente, e até com aplauso, ao cancelamento de tudo o que seja russo, da música à literatura, passando pela cultura em geral, mas não esquecendo os desportistas? A vitória de um tenista russo em Wimbledon, disse alguém, seria uma enorme operação de propaganda em favor da Rússia. Fosse a Rússia a fazer este tipo de coisas, e aqui estaríamos a rasgar as vestes ou, quiçá, a proclamar bem alto sermos vítimas de um “ataque direto” e de medidas bárbaras contra inocentes. Sendo nós? Achamos bem.

Não se apresente, por favor, o argumento de que a Federação Russa é que invadiu a Ucrânia, por isso tendo que arcar com as consequências – o argumento é absurdo e diz muito sobre muitas coisas. Uma coisa é fazermos tudo o que estiver ao nosso alcance para restabelecer a soberania e a integridade territorial da Ucrânia. Vamos a isso! 

Outra coisa, imoral e violadora de direitos humanos, é aplicarmos o ferrete do agressor a quem quer que seja que se atreva a ter origem russa – forma de responsabilidade coletiva que nos faria regredir vários séculos. Bom, como dizia outro, pode admitir-se que um desportista participe num evento internacional se, antes, declarar que condena a agressão do seu País à Ucrânia. Ou seja, se pedir perdão e talvez um pouco de autocrítica. Este tipo de atitude recorda, fortemente, episódios tristes da História da Humanidade, e nenhum que tenha acontecido em democracias.

Há, depois, várias outras falácias no raciocínio contabilístico por de trás do grito “cortem o gás!”. Uma, é que, ao contrário do afirmado, é injusta e não verdadeira a afirmação sobre a escassez do apoio à Ucrânia. Não vou sequer falar, como é claro, na “despesa” que representa um fluxo de refugiados tão enorme. Não vou falar, porque seria rebaixar o argumento ao simplismo que agora critico. Mas posso falar e dizer que, além da sua capacidade notável para enfrentarem o invasor, os ucranianos têm contado com um apoio militar sem paralelo desde a Segunda Guerra Mundial (talvez só possa comparar-se-lhe, ressalvadas as devidas proporções, o apoio dado pelos Estados Unidos a Israel) que, aliás, é de valor muito superior àquilo que é formalmente declarado.

Pense-se no serviço de informações mais poderoso do Mundo a orientar, ao segundo, o esforço militar ucraniano. Pense-se no apoio logístico, na identificação dos alvos, no apoio tático, no treino, nas diferentes formas de capacitação, etc.

Os Estados Unidos não podem ser acusados de especial timidez em quase nada. Se o Presidente Biden teve de declarar, ao pedir ao Congresso um reforço de 33 mil milhões de dólares para apoiar a Ucrânia, que aquele dinheiro não se destinava a financiar uma guerra direta contra a Rússia, mas a apoiar a legítima defesa da Ucrânia, por alguma razão terá sido. E essa deve ter sido a compreensão que que, muito mais do que uma disputa sobre compras de gás, este é um conflito de muitas frentes. É, também, pela natureza (mais do que) nuclear da Rússia, um conflito diferente.

Há também outro aspeto que se evita nesta discussão. Esse é o do impacto interno de quaisquer decisões internacionais.

É verdade, podemos escolher ficar pela rama. Cortar isto custa tanto, os cidadãos deles (nunca os nossos) que renunciem a isto ou aquilo: cortem no aquecimento, cortem no ar condicionado, vão às poupanças, têm muito. A Alemanha é rica, que meta dinheiro a fundo. Pode haver uma crise económica, muitos desempregados? Não há problema, a Alemanha é rica e outros já passaram por muito pior e aguentaram. Fala-se, quase sempre, da Alemanha, e não dos outros Estados que consideram não estar ainda em condições de interromperem as compras de gás à Rússia – o que não deixa de ser curioso.

Tudo como se propuséssemos uma “troika” invertida.

Ora, a guerra na Ucrânia é, atualmente, um facto central nas relações internacionais e até nas nossas vidas.  Evidentemente. Mas, além disso, as sociedades continuam a viver, e os decisores (nas democracias, pelo menos) estão obrigados a sopesar no dia a dia outras questões, que genericamente reduzimos à prossecução do bem comum. Se o não fizerem, estarão a violar o mandato que o povo lhes cometeu, e pagarão um justo preço por isso.

Trata-se de muito mais do que de eleições – embora estas importem, como sempre importam nas democracias. Trata-se de evitar disrupções sociais e económicas violentas, de dar a conhecer aos cidadãos que serão necessários alguns sacrifícios, porque apoiar quem se defende de um agressor não é uma brincadeira cara nem se resolve só a fechar pipelines. Mas trata-se, também, de lhes garantir que, na realização desse fim, eles não passarão para segundo plano nem serão tidos como meros números (mais tantos desempregados com o corte das aquisições de gás, tantas empresas menos, vai-se à bolsa e paga-se, e é andar) – porque as sociedades democráticas não são empresas. Neste sentido, o divórcio completo com a Rússia de Vladimir Putin é uma inevitabilidade – e, é triste dizê-lo, o povo russo (são pessoas de carne e osso) vai sofrer durante décadas. Mas o faseamento do divórcio deve ser decidido com a gestão do possível de cada um dos intervenientes (agora, estou a pensar mais na União Europeia).

Ninguém duvida, por certo, do impacto que certos factos internacionais podem ter na vida interna das sociedades, sobretudo, como no caso que nos ocupa, quando acontece aparelhado com uma crise global causada pela pandemia da COVID-19. Ninguém duvida da importância, do dever fundamental, de fazermos o que estiver ao nosso alcance para apoiar a vítima contra o agressor. 

Mas, também, ninguém duvide, os cidadãos irão bater a portas menos recomendáveis se sentirem que estão a ser menosprezados, irão procurar quem lhes prometa e os conforte. Estas coisas andam de mão dada. Acreditar-se que, entre o “interno” e o “internacional”, é como com os gasodutos, fecham-se e abrem-se conforme se quer, é um dos caminhos mais diretos para o populismo e para processos ínvios fora deste sistema por que tantos lutaram e deram a vida. Não, obrigado.

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