Como é que atacar um quadro de Van Gogh pode ajudar a combater as alterações climáticas (e outras perguntas que temos sobre a Just Stop Oil)

30 out, 18:00

Nos últimos tempos, as ações de protesto dos ativistas climáticas passaram das ruas para dentro das galerias de arte. O que é a Just Stop Oil? O que querem? Quem os financia? E será que resulta?

“Como é que sentem quando veem algo tão bonito e valioso a ser, aparentemente, destruído à frente dos vossos olhos?” perguntou um dos manifestantes que na quinta-feira se tentou colar ao quadro "Rapariga com brinco de pérola", de Vermeer, num museu em Haia, nos Países Baixos. “Vocês sentem-se indignados? Muito bem, e onde está esse sentimento quando veem o planeta a ser destruído?”

Esta é a pergunta que os ativistas da Just Stop Oil têm colocado de cada vez que invadem um museu e "tentam" destruir uma obra de arte. Na verdade não tentam, porque sabem que as obras de arte estão protegidas e, até agora, nenhuma obra foi realmente danificada. Mas a performance é suficientemente convicente para criar confusão e, assim, chamar a atenção do público e pôr estas ações nas notícias. Ultimamente isso tem acontecido cada vez com mais frequência. Vermeer juntou-se a Da Vinci, Van Gogh, Monet e vários outros artistas que viram as suas obras atacadas por ativistas climáticos. Porque o fazem?

O que é a Just Stop Oil e quais os seus objetivos?

Criada em fevereiro deste ano, a Just Stop Oil é uma coligação de grupos ativistas que trabalham juntos para tentar que o governo britânico se comprometa a desistir de todas as novas licenças e autorizações para a exploração, desenvolvimento e produção de combustíveis fósseis no Reino Unido. Segundo explica a organização, este seria "o primeiro passo para garantir a nossa sobrevivência". "Já temos mais petróleo e gás do que podemos queimar", dizem. O grupo quer interromper a dependência de combustíveis, "avançando com as energias renováveis e reduzindo a procura de energia", através de uma mudança nos hábitos dos consumidores. 

"A evidência científica é inequívoca: as alterações climáticas são uma ameaça ao bem-estar humano e à saúde do planeta. Qualquer atraso na ação global concertada fará com que percamos a curta janela de oportunidade para garantir um futuro habitável", declaram.

Um pouco à semelhança do Extinction Rebellion, grupo ativista criado em 2018 também no Reino Unido, o movimento Just Stop Oil pretende chamar a atenção para o problema dos combustíveis fósseis através de ações públicas, não violentas, tais como greves, boicotes, manifestações e "perturbações" - ações que podem acontecer, por exemplo, em bombas de abastecimento, interrompendo vias de circulação, trepando a edifícios ou monumentos ou invadindo eventos (como aconteceu na cerimónia dos prémios de cinema Bafta).

Acção do grupo Extinction Rebellion em Paris, abril de 2022 (AP)

A organização está desde o dia 1 de outubro em resistência civil, depois de o governo ter anunciado 100 novas licenças para a exploração de petróleo e gás no Mar do Norte, apesar das críticas de ambientalistas e cientistas que dizem que a medida prejudica o compromisso do país com o combate às mudanças climáticas. "Estão a tentar aprovar mais de cem novas licenças para exploração de combustíveis fósseis, o que nos irá matar. Não podemos sustentar uma nova licença de combustível fóssil, muito menos mais de cem. Então, todos os dias iremos realizar atos de resistência civil contra o nosso governos" até que o governo suspenda as novas licenças, avisaram.

O grupo tem organizado ações todos os dias em todo o Reino Unido, e assim pretende continuar até ao dia 10 de novembro. Muitas das ações acontecem em Londres, mas algumas podem ocorrer também foram do Reino Unido, até porque o projeto está associado a grupos manifestantes de outros países, entre eles: Declare Emergency, dos Estados Unidos; Save Old Growth, no Canadá; Letzte Generation, da Alemanha; Återställ Våtmarker, na Suécia; Renovate Switzerland, da Suíça; Stopp Oljeletinga!, na Noruega; Ultima Generazione, da Itália; Derniére Rénovation, na França; e Fireproof, da Austrália.

Quem financia estas atividades?

A Just Stop Oil recebe doações diretas mas é financiada principalmente pelo Climate Emergency Fund, fundado em 2019, com sede na Califórnia, nos EUA. Este fundo internacional reúne doações de grandes financiadores mas também de pequenos dadores anónimos, garantindo total transparência na sua utilização. Trata-se, segundo explica o site, de uma forma "segura, legal e dedutível nos impostos" de ajudar os grupos de ativismo climático. "Financiamos atividades como recrutamento, formação, divulgação, educação e capacitação, todas 100% legais", asseguram os gestores do fundo.

"Damos prioridade a grupos que utilizam a disrupção como estratégia principal. Preferimos financiar grupos mais novos que tenham uma visão ambiciosa, dando apoio para cobrir os custos iniciais, permitindo assim que os grupos cresçam", explicam.

O fundo está sempre a aceitar inscrições de novos grupos que precisem de financimaneto. O valor de cada subsídio é determinado pelo financiamento necessário. A maioria dos apoios está entre os 30 mil e os 80 dólares. 

De acordo com o site, em 2022 este fundo já reuniu cerca de 4 milhões de dólares (sensivelmente o mesmo em euros) que permitiram ajudar 39 grupos climáticos. Desde 2019, o fundo já financiou 91 grupos em todo o mundo, que mobilizaram mais de um milhão de ativistas.

Ação do Extiction Rebellion num supermercado em Londres, em outubro de 2022 (DR)

Pequena curiosidade: entre os principais financiadores do ativismo climático encontram-se milionários americanos herdeiros de fortunas que foram feitas, precisamente, à custa da exploração do petróleo. É o caso de Aileen Getty, cujo avô criou a Getty Oil, que ajudou a fundar o Climate Emergency Fund e que até agora já doou mais de um milhão de dólares. Uma outra organização, a Equation Campaign, começou em 2020 com a garantia de receber 30 milhões de dólares, distribuídos ao longo de 10 anos, de dois membros da família Rockefeller, Rebecca Rockefeller Lambert e Peter Gill Case - herdeiros de John D. Rockefeller, que fundou a Standard Oil em 1870 e se tornou o primeiro milionário do país.

"Sou filha de uma família famosa que construiu a sua fortuna com combustíveis fósseis – mas agora sabemos que a extração e o uso de combustíveis fósseis estão a matar a vida no planeta. A nossa família vendeu essa empresa há quatro décadas e, em vez disso, jurei usar os meus recursos para tentar, por todos os meios, proteger a vida na Terra", explicou Aileen Getty num artigo de opinião publicado no The Guardian. "As pessoas costumam inventar várias teorias sobre a minha motivação para me envolver no movimento climático. A minha motivação é clara: estou a lutar por um planeta habitável para a minha família e para a vossa. Não estou a remoer no passado. Procuro construir um futuro melhor."

O protesto entrou nos museus

Como explicaram as duas ativistas do grupo Letzte Generation (Última Geração) que há dias se colaram a um quadro de Monet no Barberini Museum, em Potsdam, na Alemanha: "Estamos perante uma catástrofe climática, e vocês têm medo que uma sopa de tomate ou purê de batata estrague uma pintura. Nós temos medo porque a ciência nos diz que não poderemos alimentar as nossas famílias em 2050... Esta pintura não vai valer nada se tivermos que lutar por comida."

Os ativistas da organização Just Stop Oil já tinham iniciado os seus protestos diários há quase duas semanas quando, finalmente, conseguiram chegar às notícias um pouco por todo o mundo. Já tinha havido bloqueios de estradas, cartazes pendurados em monumentos ou sedes de grandes empresas, manifestações várias e muita tinta colorida atirada sobre paredes e passeios. Mas foi preciso, a 14 de outubro, atacar os "Girassóis" de Van Gogh para que as suas vozes fossem ouvidas.  

"Até agora, vimos 33 milhões de pessoas no Paquistão deslocadas por inundações apocalípticas, 36 milhões tiveram as suas vidas absolutamente arruinadas pela fome na África Oriental. No entanto, bastou duas jovens atirarem sopa numa pintura para que as pessoas falassem mais sobre a crise climática do que falaram durante muito tempo", explicou uma das ativistas, justificando porque é que os ativistas optam por este tipo de protesto.

Ativistas climáticas junto ao quadro de Vincent Van Gogh na National Gallery, em Lodres (Just Stop Oil via AP)

A ideia não é nova. Já em março de 1914, a sufragista Mary Richardson entrou na National Gallery, em Londres, e cortou a pintura "Vénus ao espelho", do espanhol Diego Velázquez, várias vezes com um cutelo. A estudante de arte e jornalista estava a protestar contra a prisão da líder sufragista britânica Emmeline Pankhurst. Mais tarde, explicou que tinha escolhido aquela obra em particular por causa do seu valor e "da maneira como os visitantes homens ficavam boquiabertos com ele". "Tentei destruir a imagem da mulher mais bonita da história mitológica como forma de protesto contra o governo por destruir a sra. Pankhurst, que é a personagem mais bonita da história moderna", disse. Mary Richardson foi condenada a seis meses de prisão, mas foi libertada após uma greve de fome. O museu esteve duas semanas fechado, o quadro foi restaurado e está em exibição até aos dias de hoje.

Ao contrário do que aconteceu com a "Vénuns ao espelho", nenhuma das obras de arte foi gravemente danificada por estas ações mais recentes – as manifestações, em grande parte simbólicas, não pretendem destruir a arte, mas sim chamar a atenção do público e dos meios de comunicação e, assim, aumentar a pressão pública sobre os governos para interromper o licenciamento e a produção de novos combustíveis fósseis.

Nos últimos tempos, multiplicaram-se as ações em museus. Em maio, um homem disfarçado de velha numa cadeira de rodas atirou um bolo no quadro de "Mona Lisa" e, enquanto era escoltado para fora do Museu do Louvre, em Paris, gritava para as pessoas "pensarem na Terra". Em julho, manifestantes climáticos italianos colaram as mãos no vidro que cobre a "Primavera", de Sandro Botticelli, na Galeria Uffizi de Florença. Nos últimos meses, membros do Just Stop Oil prenderam-se às molduras de obras famosas em Londres, Manchester e Glasgow, e pintaram com spray a frase "No New Oil" numa cópia de "A Última Ceia" de Da Vinci. E até conseguiram atirar um bolo à cara da figura de cera do rei Carlos III no museu Madame Tussaud. Vale tudo para chamar a atenção. A questão que se coloca é se este tipo de protestos de facto resulta ou não.

No entanto, uma coisa para já ficou clara: "O ataque a uma obra da Coleção Hasso Plattner, bem como os ataques anteriores a obras de arte, na National Gallery, em Londres, e noutros locais, mostraram que os elevados padrões internacionais de segurança para a proteção de obras de arte em caso de ataques de ativistas não são suficientes e precisam ser adaptados", disse a diretora do museu alemão, Ortrud Westheider, em comunicado. 

E isto resulta?

Este é o dilema dos ativistas do século XXI: têm de escolher entre ações moderadas que são amplamente ignoradas e ações mais extremas que conseguem chamar a atenção, mas podem ser contraproducentes para os seus objetivos, pois além de trazerem o foco para o protesto, mais do que para o problema que o gerou, tornam-nos um alvo fácil de críticas. Muitas pessoas não simpatizam com seus atos irreverente ou violentos ou consideram-nos apenas miúdos mimados e mal educados - e repare-se como Phoebe Plummer, uma das raparigas que atirou a sopa de tomate sobre os "Girassóis" foi atacada por ter estudado num colégio privado ou por o seu sotaque denunciar a pertença a uma elite abastada. Tal como aconteceu com a jovem sueca Greta Thunberg, que foi atacada por ser demasiado nova, por sofrer de síndrome de Asperger ou por não ir à escola, e que teve de suportar ser gozada por humoristas e caricaturada em memes pela maneira como falava ou pelas sua expressão facial. Como se isso retirasse razão à sua luta.

Os ativistas dos tempos modernos têm de estar preparados para este tipo de ataques "ad hominem" e não se preocupar com o que deles se diz: a impopularidade pessoal é simplesmente o preço a pagar por colocar o tema a ser falado nas redes sociais e na comunicação social. Depois do ataque ao quadro de Van Gogh, um dos porta-vozes da Just Stop Oil foi citado a dizer: "Nós não queremos fazer amigos, queremos fazer mudanças. E infelizmente é assim que as mudanças acontecem."

Acontecem mesmo?

Uma análise dos protestos mundiais entre 2006 e 2020 concluiu que estas ações “podem ter um impacto significativo na reformulação de debates e trazer questões para a agenda política global”. Se não fossem as greves climáticas, as manifestações e os protestos, mais ou menos criativos, a crise climática estaria quase ausente da informação e do debate público. As próprias expressões "crise climática" e "urgência climática" tornaram-se comuns devido a estes ativistas. E ainda que estas ações em concreto não consigam os seus objetivos - dificilmente irão influenciar as decisões políticas a curto prazo - podem servir para recrutar novos ativistas e fazer aumentar o movimento. 

Ação do grupo Just Stop Oil à porta das lojas Harrods, em Londres, em outubro de 2022 (GettyImages)

"Os protestos dramáticos não vão desaparecer. Os protagonistas continuarão a ser objeto de atenção (principalmente) negativa da comunicação social, o que levará a uma ampla desaprovação pública. Mas quando olhamos para o apoio público às exigências dos manifestantes, não há nenhuma evidência convincente de que os protestos não violentos sejam contraproducentes. As pessoas podem "atirar sobre o mensageiro", mas - pelo menos, às vezes - ouvem a mensagem", afirma Collin Davis, especialista em Psicologia Cognitiva que tem estudado este fenómeno. Os protestos são, de facto, eficientes neste ponto, dizem os especialistas.

Mas nem todos acreditam que isso será suficiente para produzir mudanças mais profundas no mundo. "Os ativistas também devem pressionar os governos, participar em negociações de bastidores com líderes políticos e construir alianças com atores poderosos para alcançar os seus objetivos. Ao alienar as pessoas em vez de apelar a elas, a Just Stop Oil está a perder a hipótese de negociar com líderes políticos", diz Zion Lights, ativista britânica e especialista em comunicação, que tem acompanhado o movimento. "Em última análise, as políticas governamentais concretas são a única maneira de avaliar o sucesso destas ações, e não o número de 'likes' num vídeo viral." E conclui: "Eu quero que os combustíveis fósseis desapareçam, tanto quanto os outros ambientalistas, mas o movimento da crise climática – que regularmente reclama que o mundo não os está a ouvir – tem de parar de acreditar que a atenção levará ao sucesso. Precisam de encontrar estratégias para falar com as pessoas em vez de irritá-las. E se realmente querem ter sucesso, têm de seguir os seus próprios conselhos e seguir a ciência sobre como os movimentos sociais funcionam."
 

Clima

Mais Clima

Patrocinados