Ativistas que atiraram sopa contra os "Girassóis" de Van Gogh queriam só chamar a atenção das pessoas. E conseguiram

CNN Portugal , MJC
18 out, 22:00
Ativistas climáticas Phoebe Plummer e Anna Holland junto ao quadro de Vincent Van Gogh na National Gallery, em Lodres (Just Stop Oil via AP)

Phoebe Plummer, de 21 anos, e Anna Holland, de 20, garantem que sabiam que o quadro estava protegido e não iria ficar estragado. "Nunca faríamos isto se não tivéssemos a certeza que a pintura estava atrás de um vidro." E deixam a pergunta: "Estão mais preocupados com a proteção de uma obra de arte ou com a proteção do nosso planeta e das pessoas?"

As jovens ativistas que, na passada sexta-feira, atiraram o conteúdo de duas latas de sopa de tomate sobre um quadro de Van Gogh, explicam que não tinham qualquer intenção de danificar a tela e que o ato foi apenas uma forma de chamar a atenção para a urgência de combater as alterações climáticas. Em concreto, querem que o governo britânico suspenda todas as novas infraestruturas de gás e petróleo.

"Não causámos qualquer dano à pintura. Apenas a moldura ficou um pouco danificada. Nunca faríamos isto se não tivéssemos a certeza que a pintura estava protegida, atrás de um vidro, e que não ficaria estragada", explicou num vídeo partilhado nas redes sociais uma das ativistas, Phoebe Plummer, aquela que, logo após atirar a sopa de tomate, gritou para os visitantes do museu: "O que é que vale mais: a arte ou a vida? Estão mais preocupados com a proteção de uma obra de arte ou com a proteção do nosso planeta e das pessoas?"

A National Gallery, em Londres, garantiu, logo a seguir, que o incidente causou apenas pequenos danos ao quadro e que a pintura saiu ilesa. Mais tarde, foi novamente colocada em exposição. 

"Reconheço que parece um ato um pouco ridículo. Concordo, é mesmo ridículo", admitiu a jovem. "Mas ninguém está a fazer as perguntas que devíamos fazer. O que nós estamos a fazer é a iniciar uma conversa para podermos fazer as perguntas que interessam. Perguntas como: é ok que Liz Truss autorize mais de 100 novas licenças para exploração de combustíveis fósseis?; é ok que os combustíveis fósseis sejam muito mais subsidiados do que as energias renováveis?; é ok que enfrentemos uma crise e que as pessoas sejam forçadas a escolher entre comer e aquecer-se? Esta é a conversa que deveríamos estar a ter agora, porque não temos tempo a perder. Por isso, usamos estas ações para chamar a atenção das pessoas e falarmos disto agora."

No dia 14 de outubro, Phoebe Plummer, de 21 anos, e Anna Holland, de 20, foram detidas por terem atirando a sopa de tomate contra o quadro "Girassóis" (1888), de Van Gogh, em exibição na National Gallery, como forma de protestar contra a falta de atuação dos poderes políticos no combate à crise climática. Inicialmente, elas pensaram em atirar a sopa numa obra de Andy Warhol, o que seria bastante irónico, mas depois mudaram de ideias. O quadro com os girassóis foi escolhido por ser "uma peça de grande valor cultural" e, como tal, poder chamar a atenção de muitas pessoas, explicaram as jovens em entrevista ao site de informação sobre artes, Frieze. "Até agora, vimos 33 milhões de pessoas no Paquistão deslocadas por inundações apocalípticas, 36 milhões tiveram as suas vidas absolutamente arruinadas pela fome na África Oriental. No entanto, bastou duas jovens atirarem sopa numa pintura para que as pessoas falassem mais sobre a crise climática do que falaram durante muito tempo", disse Anna Holand.

A verdade é que as duas raparigas foram notícia em todo mundo e as suas imagens foram bastantes partilhadas nas redes sociais, originando reações de apoio ou de repúdio. Phoebe Plummer acrescentou que "usar uma obra de arte tão bonita foi essencial porque, quando as pessoas viram [o que fizemos], tiveram aquela reação instintiva de: 'Quero proteger esta obra que é linda e valiosa'".

Além disso, explicou Holland, "o próprio Van Gogh era um artista sem um tostão". "Ele viveu e morreu endividado. Se ele estivesse vivo hoje, com este governo, seria uma dessas pessoas que, neste inverno, serão forçadas a escolher entre comer ou aquecer a sua casa."

"Van Gogh disse: 'O que seria da vida se não tivéssemos coragem de arriscar'. Eu gostaria de pensar que Van Gogh seria uma das pessoas que sabem que precisamos de intensificar a desobediência civil e a ação direta não violenta. E a pintura estava atrás de um vidro, a pintura estava protegida, enquanto neste momento milhões de pessoas no hemisfério Sul não estão protegidas, as gerações futuras não estão protegidas. Como jovens, o nosso próprio futuro não está protegido", sublinhou Plummer.

A organização Just Stop Oil está atualmente em resistência civil contra o governo britânico devido ao facto de este ter aberto uma nova ronda de licenciamento para a exploração de petróleo e gás no Mar do Norte, apesar das críticas de ambientalistas e cientistas que dizem que a medida prejudica o compromisso do país com o combate às mudanças climáticas. Os elementos do grupo encontram-se todos os dias à porta do nº 10 de Downing Street, a residência da primeira-ministra, e daí partem para uma nova ação. "Estão a tentar aprovar mais de cem novas licenças para exploração de combustíveis fósseis, o que nos irá matar. Não podemos sustentar uma nova licença de combustível fóssil, muito menos mais de cem. Então, todos os dias iremos realizar atos de resistência civil contra o nosso governo, em todos os lugares de Londres, todos os dias" até que o governo suspenda as novas licenças.

As duas ativistas junto ao quadro de Van Gogh
 Phoebe Plummer no momento em que foi detida

No sábado, Holland e Plummer compareceram no tribunal e declararam-se inocentes da acusação de vandalizar a obra de arte. Com elas, estava outra ativista da Just Stop Oil, que foi presa depois de pintar com spray uma placa da New Scotland Yard, a sede da Polícia Metropolitana de Londres. O juiz distrital Tan Irkam libertou-as sob fiança, com a condição de não voltarem a ter em sua posse tintas ou adesivos em locais públicos.

Outras ações têm sido realizadas na cidade de Londres, mas a verdade é que nenhuma teve tanto impacto mediático como a que envolveu o quadro de Van Gogh, o que acaba por dar razão às ativistas.

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