Estas casas sustentáveis são feitas de bambu (e podem durar até 50 anos)

CNN , Rebecca Cairns
10 jan, 16:00

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Em busca de novas maneiras de construir casas sustentáveis, Earl Forlales decidiu olhar para o passado e não para o futuro.

Os seus avós, tal como várias gerações de filipinos, viviam num "Bahay Kubo", uma cabana tradicional, quadrangular e com um só piso, assente em estacas e feita em bambu, originária das Filipinas. Já antes dos tempos do colonialismo, há milhares de anos, os filipinos usavam bambu para construir casas”, diz ele.

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Forte e flexível, o bambu é uma das plantas com o crescimento mais rápido no planeta. Enquanto as madeiras mais moles e duras podem levar entre 40 e 150 anos a desenvolver-se, o bambu está pronto a ser colhido em apenas três anos. Após ser tratado e transformado, pode durar décadas. Ao perceber que o Bahay Kubo podia ser adaptado para criar uma casa contemporânea, Forlales começou a desenhar as suas próprias casas em bambu.

Depois de ganhar, em 2018, o desafio “Cidades para o nosso Futuro”, organizado pela Royal Institution of Chartered Surveyors do Reino Unido, o diplomado em engenharia dos materiais transformou a sua ideia numa empresa e foi cofundador da Cubo em 2019.

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A empresa deu início à produção de casas pré-fabricadas em novembro de 2020. As estruturas podem ser montadas em poucos dias e têm uma duração prevista até 50 anos, diz Forlales. Ele espera que os desenhos modulares da Cubo e a utilização de bambu possam "ajudar a acelerar a construção sustentável" ao mesmo tempo que fornecem soluções económicas de habitação para a atual crise do alojamento nas Filipinas.

As casas da Cubo variam entre os 30 e os 63 metros quadrados. As maiores albergam até seis pessoas.

Uma casa cúbica contemporânea

As casas de bambu da Cubo incorporam muitos aspetos das "Bahay Kubo" tradicionais, incluindo uma base elevada e lanternins, uma espécie de persiana que permite a ventilação natural e a entrada de luz.

Mas a Cubo atualizou as cabanas de bambu para o século XXI, incluindo iluminação moderna e janelas de policarbonato resistentes ao impacto. As Filipinas são propensas a terramotos e tufões, por isso, as casas foram concebidas a pensar nas catástrofes naturais. Ligações metálicas para tufões são usadas para unir paredes, telhado e pavimento, e as casas são ainda reforçadas com fundações em betão, que substituem as estacas tradicionais. Apesar de dar uma base sólida para as estruturas, o betão contribui para as alterações climáticas. Forlales diz que a empresa está a “explorar sistemas de fundações alternativos para tornar a sua oferta ainda mais sustentável”, mas isso está ainda na fase de pesquisa.

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O primeiro projeto da empresa foi posto à prova muito rapidamente. Em dezembro de 2020, poucos dias após as duas primeiras casas terem sido construídas, a região foi atingida por um tremor de terra de magnitude seis. As casas da Cubo sobreviveram ilesas.

Utilizando quase todo o espaço disponível, quartos elevados e mobília de encaixe estão presentes na maioria destas casas compactas.

A Cubo propõe quatro modelos diferentes, com capacidade até seis moradores. Cada casa é feita por encomenda e pode ser personalizada para incluir elementos como painéis solares no telhado, o que reduz ainda mais os custos de funcionamento e a pegada de carbono dos seus moradores.

Atualmente, a empresa produz seis casas por mês, mas Forlales diz que a procura é muito superior e ele espera aumentar a oferta.

"Os Filipinos receberam bem o produto porque é muito familiar," diz ele. "Eles perceberam que é a evolução intuitiva das nossas casas de bambu tradicionais."

Boom da construção em bambu

A indústria da construção tem sido fortemente criticada nos últimos anos pelo seu impacto ambiental. A utilização de materiais como o aço e o betão contribui significativamente para a emissão de gases com efeito de estufa, enquanto a extração de matérias primas como a pedra, a rocha e a gravilha degrada a paisagem e o solo. Estes fatores motivaram a procura por alternativas mais amigas do ambiente.

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A Cubo não é a única empresa que vê o potencial do bambu enquanto material de construção forte e sustentável. O gabinete vietnamita Vo Trong Nghia Architects usou bambu em muitos dos seus projetos, incluindo a Casa Comunitária Casamia, no Casamia Resort em Hoi An; enquanto o gabinete Zuo Studio em Shenzhen criou pavilhões de bambu para a Exposição Taichung Flora, em Taiwan.

Em Bali, na Indonésia, a empresa de arquitetura Ibuku especializa-se em ‘edifícios’ complexos e de grande dimensão em bambu. Desde 2007, a Ibuku já construiu mais de 60 estruturas em bambu, incluindo a Green Village, uma comunidade sustentável com 12 moradias de luxo e a Green School, que tem um campus não murado implantado na natureza.

Apesar de o bambu ser usado há milhares de anos para construir estruturas pequenas, "só atualmente existem soluções de tratamento naturais e seguras que nos permitem considerar a construção de edifícios com vários pisos," diz Elora Hardy, fundadora e diretora criativa da Ibuku. Enquanto a maioria dos seus projetos usa bambu tratado na sua forma natural, ela acrescenta que, com os avanços no bambu transformado, no futuro, pode haver “arranha-céus e mesmo cidades inteiras construídas em bambu”.

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A Ibuku especializa-se em moradias esculturais, estâncias hoteleiras, e escolas “ecológicas” feitas em bambu. O Arc é um edifício educativo na Green School, em Bali. 

O bambu transformado chegou à construção comercial no final do século XX, segundo Bhavna Sharma, professor assistente de arquitetura na Universidade do Sul da Califórnia e membro do grupo de trabalho que está a desenvolver as normas internacionais para os materiais de construção em bambu.

"As normas para os testes mecânicos de materiais em bambu transformado estão atualmente a ser desenvolvidas. No entanto, áreas como a combustibilidade exigem estudos aprofundados," diz Sharma.

Segundo Sharma, por ser um material forte, de crescimento rápido e renovável, o bambu pode complementar madeiras duras de cultivo sustentável, com o benefício adicional de as plantações de bambu ajudarem a recuperar terras e solos degradados.

Desde a estrutura exterior ao mobiliário interior, a Ibuku mostra que o bambu pode ter várias aplicações na arquitetura e no design. 
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Ajudar na crise da habitação

Sendo a sustentabilidade a principal vantagem do bambu, não é essa a única razão que leva a Cubo a usar este arbusto de crescimento rápido com um material de construção alternativo.

As Filipinas estão hoje a enfrentar uma grave escassez de habitação, estimando-se que 4,5 milhões de pessoas não tenham casa em 2021, com um défice de casas económicas.

A Cubo produz três casas na sua fábrica a cada duas semanas, e demora entre três a cinco dias a montar cada uma delas no local.

As casas da Cubo custam entre 649 800 pesos filipinos (11 mil euros) e 1,8 milhões de pesos filipinos (31 mil euros) o que se compara aproximadamente com casas de gama média construídas com materiais convencionais, diz Forlales. Porém, ele pretende reduzir os preços ao refinar a produção e aumentar a automação na fábrica. A empresa criou também um plano de pagamentos para ajudar a reduzir o custo inicial para os compradores.

Com o bambu a crescer naturalmente por toda a Ásia, cada país tem a “sua própria espécie de bambu que pode usar na construção," diz Forlales. Isso cria potencial para construir casas cúbicas para lá das Filipinas.

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"Por toda a Ásia, há milhões de quilómetros quadrados plantados com bambu. Por isso, é só uma questão de chegar a outros mercados onde se possa obter,” acrescentou ele.

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