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Colunista e comentador

Os árbitros portugueses e quem os tem na mão

24 mai, 15:25
Al Janoub, Al Wakrah, Qatar. Um dos recintos para o Mundial 2022 de futebol tem sistema de ar condicionado com saída debaixo dos assentos e a cobertura do recinto também permite regular a entrada de ar quente vindo do exterior.

Rui Santos diz que a ausência dos árbitros portugueses do Mundial no Qatar não tem a ver sobretudo com (in)competências; tem a ver com a imagem que o futebol luso construiu em matérias relacionadas com arbitragem e, também, com critérios pouco claros da FIFA

A ausência de árbitros portugueses no Mundial do Qatar está a ser atribuída à incompetência dos ‘homens do apito’, mas penso que é muito mais do que isso.

A ausência de árbitros de campo também havia sido registada em 2018, na Rússia (ARTUR SOARES DIAS e TIAGO MARTINS estiveram como VAR), e se olharmos às últimas presenças, Brasil 2014, com PEDRO PROENÇA, e África do Sul 2010, com OLEGÁRIO BENQUERENÇA, não se pode dizer que — com eles em campo nesses Mundiais — a qualidade da arbitragem nesse ciclo de 4 anos tenha sido maior.

Isto é importante.

Houve árbitros portugueses que se destacaram ao longo da história, como foram os casos de JOAQUIM CAMPOS, ANTÓNIO GARRIDO, CARLOS VALENTE, VÍTOR PEREIRA e PEDRO PROENÇA, outros houve que podiam ter chegado mais longe como por exemplo JORGE COROADO, contemporâneo de VÍTOR PEREIRA, que afirmava a sua autoridade de uma forma muito peculiar e que, por isso, nem sempre era bem visto pelos clubes e pelos nomeadores, como por exemplo também não o eram MARCO FERREIRA e PEDRO HENRIQUES, agora comentadores de arbitragem nas rádios e televisões portuguesas.

Achei sempre um mau princípio a cultura de proximidade dos presidentes dos Conselhos de Arbitragem e nomeadores com os clubes, mas essa prática era muito comum com PINTO DE SOUSA (super próximo de PINTO DA COSTA e VALENTIM LOUREIRO), não foi abandonada nos anos a seguir e, mais recentemente, quer com VÍTOR PEREIRA, quer agora com JOSÉ FONTELAS GOMES, os clubes estão demasiadamente próximos dos responsáveis da arbitragem, e isso teve origem no tempo em que as Associações de Futebol mandavam nisto tudo e geravam enormes bolsas de influência junto do sector da arbitragem.

Sempre achei que este sector de arbitragem deveria estar separado quer da Liga quer mesmo da FPF e que as conversas com os clubes deveriam apenas ter lugar no final e/ou no começo de cada época desportiva e que o objecto das conversas se devia resumir exclusivamente a questões de natureza técnica.

Os clubes, por causa de uma prática comum que ganhou raízes no nosso dirigismo desportivo, estão muito rotinados no processo de captura dos dirigentes de arbitragem e dos próprios árbitros, PINTO DE SOUSA esteve sempre muito perto de PINTO DA COSTA, VÍTOR PEREIRA muito perto de LUÍS FILIPE VIEIRA (através do sector das classificações) e, no seu consulado, SOUSA CINTRA — após o ciclo com JOÃO ROCHA - tentou entrar neste jogo de influências ao serviço do Sporting.

Portugal tem uma boa reputação ao nível de jogadores e treinadores, com CRISTIANO RONALDO e JOSÉ MOURINHO no topo da montanha, mas tem uma péssima reputação ao nível da sua credibilidade, e isso relaciona-se muito com a forma como os seus dirigentes dominantes tratam, na respectiva Liga, não apenas os árbitros e o sector da arbitragem mas também o próprio jogo e as suas envolventes.

A imagem da nossa Liga é má, porque não abunda o desportivismo, não abundam as boas práticas e, também por isso, ninguém se interessa pelo nosso produto.

Nesse aspecto, temos uma Liga menor, dominada por interesses que não têm nada a ver com a proteção do espectáculo e do próprio consumidor.

Por isso, enquanto a nosso dirigismo assentar na indiferença perante o anti-espectáculo (protestos permanentes sobre as decisões dos árbitros, tempo útil de jogo condicionado, muitas faltas e baixa ética desportiva), vamos continuar a exportar jogadores e treinadores, também porque JORGE MENDES soube posicionar-se e explorar os miasmas da indústria, mas de resto vamos continuar a exportar pouco, e esta entrada recente de TIAGO CRAVEIRO na UEFA, não apenas revelou o desgaste e o sentido de oportunidade de um dirigente muito acima da média, mas também a certeza de que, neste ambiente, é muito difícil ou impossível construir alguma coisa sólida.

Não tenhamos ilusões: a ausência de árbitros portugueses no Qatar é em mais de cinquenta ou sessenta por cento resultante da força da imagem que temos na FIFA e os outros quarenta ou cinquenta por cento têm a ver com critérios pouco transparentes da própria FIFA.

Acham que os nossos árbitros são tecnicamente piores do que os romenos e os polacos? Não têm é o poder discricionário e altamente subjectivo de PIERLUIGI COLINA e dos seus conselheiros, que fazem as suas escolhas mediante critérios que não assentam em avaliações objectivas.

O ainda escasso escrutínio que existe no futebol — o que existe formalmente é ineficaz — deveria concorrer para que as escolhas resultassem de classificações objectivas e públicas.

Nesse aspecto, BLATTER saiu, mas na FIFA há um longo caminho a percorrer em matéria de aquisição de transparência.

Por isso, eu dizia que a arbitragem portuguesa não era melhor quando OLEGÁRIO BENQUERENÇA foi nomeado para estar, em 2010,  no Mundial da África do Sul.

Falar-se de incompetência (que existe) esconde, no entanto, o essencial.

Tecnicamente, os níveis de competência dos árbitros portugueses não são muito distintos. Há árbitros que conseguem ter uma maior sensibilidade para perceber o jogo, e daí haver alguns que se destacam, mas o desempenho não tem apenas a ver com o conhecimento das leis do jogo e sua aplicação; tem a ver sobretudo com o ambiente que os rodeia e a capacidade de resistir às pressões e às influências que sofrem.

Em Portugal, este factor vem sendo predominante. 

Tivemos nesta como noutras épocas decisões das equipas de arbitragem, incluindo o VAR, que não tiveram a ver com (falta de) conhecimento técnico.

Tiveram a ver com ambiente e pressões.

Os árbitros e a arbitragem em Portugal têm de começar a ser mais operativos nas denúncias e em tudo aquilo que perturba a sua actividade (para) profissional.

Os árbitros e a arbitragem em Portugal são muito espertos e disponíveis para algumas coisas mas demasiado conservadores noutras.

Digam o que se passa, tenham coragem de dizer quem os pressiona, positiva e negativamente.

Em próximo artigo, falarei de quem detém o poder sobre a arbitragem.

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