O papel do analista: a realidade portuguesa e a do Wolverhampton

André Cruz , Porto Palácio Hotel, Porto
23 set, 00:20
Bruno Lage e o analista Diogo Camacho (Photo by Jack Thomas - WWFC/Wolves via Getty Images)

Tiago Fonseca, Tiago Pinto e Diogo Camacho, do Famalicão, Boavista e Wolves, debruçaram-se sobre as funções deste elemento da equipa técnica no World Scouting Congress

Filmar o jogo, selecionar e cortar vídeos dos momentos mais importantes, filtrar a mensagem e transmiti-la ao treinador principal. Em traços gerais, estas são as funções de um analista, o elemento da equipa técnica que é muitas vezes entendido como um «rato de gabinete».

Mas a tarefa deste membro do staff vai além disto, embora a realidade portuguesa ainda seja muito díspar daquela que se vive em Inglaterra, tal como se ouviu numa das mesas de debate da 5.ª edição do World Scouting Congress, que decorreu esta quinta-feira, numa unidade hoteleira do Porto.

«O trabalho principal do analista é consumir jogos, a nível nacional e internacional, até porque a equipa técnica tem muitas preocupações, como o processo e planeamento do treino, saber gerir a cabeça dos jogadores e o balneário. Fazemos também a ponte entre aquilo que é a nossa equipa e o adversário, mas a principal vantagem é o consumo de jogos», começou por explicar Tiago Fonseca, analista do Famalicão.

«Filtramos os jogos, percebemos os espaços que o adversário concede ou as suas intenções e, depois, através do adjunto, fazemos a ligação com o treinador ou nós próprios passamos a informação», acrescentou, assinalando que partilha a função com outro elemento.

Já Tiago Pinto, é o responsável pela análise no Boavista. «Cada vez mais se valoriza a parte da análise, que nos tira muitas horas de sono. Temos o objetivo de ajudar o líder a ter informações de forma sucinta para dar seguimento para os jogadores ou fazer o que quiser com a informação. O analista já não é só o rapaz que está ali com o equipamento do clube e que passa despercebido.»

Diogo Camacho, de apenas 23 anos, está desde a temporada passada no Wolverhampton, depois de três temporadas no Famalicão. O jovem analista detalhou de que forma está organizado o departamento de análise dos «lobos» e revelou que Bruno Lage é um treinador que valoriza este segmento.

«O mister Bruno tem dois analistas na equipa técnica: eu e o Jhony Conceição. Isso mostra a atenção que o Bruno dá à análise da equipa e do adversário. Foco-me mais na análise da própria equipa, embora ajude também na análise do adversário. Tem de ser assim com jogos de três em três dias e o Jhony faz o mesmo. Fazemos também a análise de todos os treinos, com a equipa técnica a participar nesse processo. Temos ainda a ajuda dos analistas da estrutura do clube. Temos cinco analistas a ajudar a equipa principal: um deles mais ligado à academia; outro de dados e estatística da equipa e adversários, bem como de outras equipas a nível europeu para perceber tendências; outro para bola parada e treino de guarda-redes; e dois focados no adversário. Tentamos filtrar e passar a mensagem de forma clara e com o essencial, tendo em conta a nossa equipa e para melhorar a performance da mesma», explicou.

Os três convidados, de resto, partilham a opinião de que o papel do analista tem sido reforçado nos últimos anos.

«Houve um bom exemplo no futebol português. Os analistas e a Liga juntaram-se e agora temos acesso a todos os jogos em ângulo aberto, numa plataforma», assinalou Tiago Fonseca.

«Já vemos muitos tablets no banco. Tenho uma pessoa ao meu lado a filmar o jogo e o banco recebe as imagens», acrescentou.

As escolhas do treinador e o controlo do rumo dos acontecimentos de um jogo

Os analistas concordaram também que o seu trabalho é influenciado pelo perfil do treinador, pois cada técnico tem determinadas preferências.

«O mais importante é dominarmos o jogo. Cada treinador tem o seu cunho, quer os departamentos à sua imagem, mas temos de perceber do jogo e passar a informação de forma clara», vincou Tiago Pinto.

O analista do Boavista destacou ainda que trabalhar com um ex-jogador – Petit - «acarreta responsabilidade». «Temos de pegar em vídeos e dados estatísticos e filtrar para não haver algo que gere dúvidas. O jogo está dependente de detalhes e um momento de dúvida pode ser suficiente para ganhar ou perder.»

Diogo Camacho diz que «há maneiras diferentes de olhar para o jogo». «Temos de nos adaptar ao treinador, uns querem vídeos de 20 minutos, outros de oito, com ou sem edição. Temos de ver o jogo com os olhos do nosso treinador.»

Apesar do estudo que é feito antes de todos os jogos, o elemento dos Wolves frisa que o fator «imprevisibilidade» é a «beleza do futebol» e os analistas não conseguem antecipar todos os acontecimentos durante os 90 minutos.

De resto, Diogo Camacho partilhou um episódio recente em que o seu trabalho foi condicionado.

«No final de agosto, jogámos contra o Bournemouth. Durante a semana preparámos a equipa para um certo treinador e depois ele foi demitido. Entrou um treinador interino e ficamos na dúvida: têm tempo para treinar algo diferente? Vai agarrar-se à ideia do treinador anterior? Tentamos perceber o que fez anteriormente e há quanto tempo estava no Bournemouth. Felizmente, foi ao encontro do nosso palpite, mas os jogadores tinham a informação de que poderiam encontrar algo diferente do que o que foi preparado», revelou.

Além da equipa técnica, também o jogador dá mais atenção a este departamento e «se preocupa com o que fez e pode melhorar», considera Tiago Pinto. «Percebe que não é só calçar a bota, ir lá para dentro, trabalhar e voltar para casa.»

Diogo Camacho estabelece as diferenças entre a realidade portuguesa e o panorama inglês. «Desde o primeiro escalão, sub-9, já existem analistas em Inglaterra. Também se nota a diferença entre um jogador que esteve na formação de um clube grande, a forma como olha para as imagens.»

Quanto a conselhos sobre possíveis interessados em enveredar pela área da análise, Tiago Fonseca, do Famalicão, entende que não só os aspirantes a analistas devem experimentar estas funções.

«É a área fundamental para iniciar o percurso no futebol, para perceber as intenções do treino, perceber as tendências de jogo lá fora. Claro que se pode enveredar logo por uma carreira de treinador, pois um ex-jogador, por exemplo, tem muito mais experiência do que eu. Mas é fundamental começar nesta área para perceber as pequenas coisas do jogo e ir evoluindo», realça o elemento do Famalicão.

Diogo Camacho sublinha que esta «é uma profissão muito interessante». «Trabalhamos muito sob pressão de tempo e resultados. Temos sempre uma data-limite para entregar o nosso trabalho. Ver tantos jogos permite-nos ter uma ideia do que é o jogo, as dinâmicas, o que os treinadores podem mudar no decorrer do jogo e estas são ferramentas importantes para usar mais tarde.»

Relacionados

Patrocinados