«Ronaldo vinha à Academia e perguntava quais eram as novas fintas»

André Cruz , Porto Palácio Hotel, Porto
22 set, 23:34
Daniel Carriço e Cristiano Ronaldo num treino da seleção portuguesa (Photo by Pedro Fiúza/NurPhoto via Getty Images)

Daniel Carriço partilhou história do avançado do Man. United num debate sobre «o futebol de rua» com Derlei, Gilberto Silva e Petit

Os miúdos ainda jogam na rua? Esta foi uma das perguntas ouvidas no debate 'Do futebol de rua à seleção nacional', que decorreu na 5.ª edição do World Scouting Congress, evento realizado numa unidade hoteleira do Porto, que reuniu várias personagens do panorama do futebol durante esta quinta-feira.

Gilberto Silva, Derlei, Petit e Daniel Carriço partilharam os primeiros passos que deram como jogadores e todos lembraram os tempos em que jogavam à porta de casa com amigos. 

«[No Brasil] Temos uma felicidade de ter um país muito grande e existem muitos jovens que sonham ser jogadores de futebol. Não posso comparar ao jogador europeu, mas conhecendo a nossa realidade: temos um sonho baseado no que nos dá a família. Começamos na brincadeira com amigos, na rua ou na escola. Depois, passa a ser um objetivo ajudar a situação financeira da família», disse o antigo internacional brasileiro, antes de apontar os benefícios do futebol de rua.

«Aprendes a improvisar, a dominar a bola com piores condições, os miúdos jogam descalços, com os piores materiais possíveis, mas estão felizes com aquilo. O futebol é um refúgio, é uma escola onde se aprende disciplina e foco. Mesmo com os problemas do bairro, de tudo ao redor, o futebol é um lugar seguro onde te divertes. A partir daí, vais evoluindo, até que alguém te observa», acrescentou, contando ainda que teve de trabalhar até aos 19 anos como operador de fábrica para ajudar nas despesas de casa. 

Derlei disse que começou a jogar na favela e numa zona de campo completamente oposta àquela onde fez carreira. «Com sete anos ia à baliza. No entanto, depois de três remates mandaram-me para a frente porque era muito pequeno. Uma das coisas que melhor me lembro era de jogar contra a parede. Em frente à minha escola havia um campo e eu jogava sempre lá. Foi uma infância onde era tudo muito simples.» 

Petit também iniciou na baliza. «Comecei como guarda-redes, tinha paixão por me atirar para o chão no ringue. Ainda hoje gosto de jogar futebol de rua no bairro do Bom Pastor, depois fui passando por várias posições. No bairro era rasgadinho, não gostávamos de perder. Castigos? Era mais chapada, menos chapada. Para o ringue ia sempre. Ainda há futebol de rua? Penso que sim, antes não havia futsal nem nada do género.»

Jogadores mais formatados e o fim das 'peladinhas' no bairro

Carriço aproveitava o ringue ao pé de casa para jogar com os mais velhos e lamenta que as crianças já não se juntem para umas 'peladinhas'.

«O meu irmão tem mais oito anos que eu e jogava contra os amigos dele, fazíamos carrinhos e ele até tinha receio que me magoasse. Mas agora o ringue praticamente não é utilizado, passo lá e raras vezes as crianças estão a jogar. Penso que no Brasil e em África não seja assim, mas aqui há algum receio, deixou-se de fazer isso. Agora, há o conceito de escolas de futebol, o meu filho aos 5 anos já estava na escola de futebol. Antes, estávamos sempre na rua a jogar», vincou.

«Os jogadores são cada vez mais formatados, o futebol de rua perdeu-se. Em tenra idade incute-se processos taticos que não fazem sentido. Tem-se de lançar a bola ao ar e divertirem-se. Mais para a frente é que faz sentido evoluírem numa posição», acrescentou o defesa-central.

«Hoje em dia o futebol está a ficar um pouco formatado. No Boavista, os miúdos até aos 13/14 anos têm aulas e depois vão para os treinos. Tenho dito ao presidente que o melhor até será levar esses miúdos ao bairro - Francos, Ramalde - para jogar com tabelas. É importante que passem por todas as posições. Futebol de rua pode encontrar-se dentro das próprias academias», considera Petit.

Derlei conta que a realidade é a mesma no local onde nasceu. «Isso [futebol de rua] quase acabou, lá em São Bernardo já não existem campos. Hoje em dias estão fechados. Nas favelas, perdeu-se o futebol de rua, os campos de terra.»

Daniel Carriço aproveitou o momento para explicar a irreverência que o futebol de rua trazia e os dribles que se tornavam moda nos bairros. Cristiano Ronaldo, por exemplo, era um dos mais interessados em aprendê-los.

«Quando o Cristiano foi para Manchester, os amigos, o Semedo e o Miguel Paixão, ainda estavam na Academia e também estavam lá alguns jovens que gostavam muito de driblar. Quando o Cristiano vinha, perguntava quais eram as novas fintas que lá andavam e ele apanhava uma ou duas. Naquela altura era fantasia pura. Era uma loucura quando ele vinha à Academia», recordou.

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