Ele foi Alexei Navalny (1976-2024) e um dia citou isto: "A única coisa necessária para o triunfo do mal é que as pessoas boas não façam nada"

CNN , Paul LeBlanc
16 fev, 14:05
Alexei Navalny com a mulher Yulia e os filhos Daria e Zakhar (AP)

Oficialmente aconteceu assim: sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024, Alexei Navalny foi dar um passeio junto à "colónia penal de regime especial" em que estava detido na Rússia, sentiu-se mal e morreu. Se a versão oficial corresponde à versão real é algo que dificilmente saberemos porque a história recente da Rússia diz-nos assim: o que acontece na Rússia fica na Rússia e só sai para fora da Rússia como a Rússia quer. Os opositores de Putin, dentro e fora do país, vão dizer - já estão a dizer - que foi Putin que matou Navalny; os parceiros de Putin, dentro e fora do país, vão repetir a versão oficial do Kremlin. Porque se há algo que a história da Rússia recente também nos diz é que o mundo tende a dividir-se entre preto e branco, entre a Rússia é má ou a Rússia é boa. Mas há tantas cores além do preto e branco, tantos tons, tantas misturas, umas mais coloridas e outras nem tanto. A vida de Navalny é um exemplo disso, da diversidade de nuances: ascensão, ribalta, envenenamento, recuperação, prisão. Morte. E foi desta maneira que você vai ler que Alexei Navalny se tornou líder da oposição russa, uma maneira que foi contada em agosto de 2022 e que adquire uma cor nova neste dia tão sombrio para a oposição ao regime de Vladimir Putin

"Não nos apercebemos da nossa força": como Alexey Navalny se tornou o líder da oposição russa

por Paul LeBlanc, CNN
nota do editor: tal como referido na entrada deste texto, o presente artigo foi publicado originalmente em agosto de 2022


Líder da oposição. Militante anticorrupção. Sobrevivente de uma tentativa de homicídio. Prisioneiro.

A luta de Alexey Navalny contra o Kremlin tem sido alvo de muitos rótulos.

E com os olhos do mundo agora voltados para o presidente russo, Vladimir Putin, no meio da sua brutal invasão da Ucrânia, a mensagem de resistência de Navalny está a encontrar um novo peso dentro e fora da Rússia, mesmo enquanto ele permanece atrás das grades.

"A única coisa necessária para o triunfo do mal é que as pessoas boas não façam nada", afirmou Navalny - trata-se de uma frase famosa frase que ele cita no filme da CNN "Navalny", vencedor de um Óscar. "Por isso, não sejam inativos.

Este artigo explica o que precisa de saber sobre a ascensão política de Navalny, a tentativa de homicídio e o rumo que tomará na Rússia.

Da ascensão à ribalta

Navalny ganhou visibilidade pela primeira vez em 2008, quando começou a escrever em blogs sobre a alegada corrupção nas empresas estatais russas. Em 2011, emergiu como um dos líderes dos protestos colectivos que eclodiram na sequência de alegadas fraudes nas eleições parlamentares.

"Aqueles que se reuniram aqui podem expulsar estes ladrões do Kremlin amanhã", afirmou Navalny numa manifestação em 2011.

Em julho de 2013, publicou o seu primeiro vídeo no YouTube, um guia de instruções passo a passo que mostrava como construir um "cubo de agitação", uma estrutura em forma de tenda com a sua imagem estampada na lateral. O vídeo marcou o início da campanha do opositor russo para ser eleito presidente da Câmara de Moscovo e o humilde começo da sua revolução no YouTube.

Mas o seu movimento foi travado quando foi condenado por acusações de desvio de fundos, precisamente quando se preparava para se candidatar a presidente da câmara. Navalny negou as acusações e considerou-as como motivação política. Um novo julgamento em 2017 impediu-o de se candidatar a um cargo público - desta vez para presidente contra Putin.

Embora Navalny seja mais conhecido como ativista, são as suas investigações que têm sido o maior obstáculo para algumas das pessoas poderosas da Rússia. Os seus vídeos sobre a aparente riqueza inexplicável de altos funcionários do governo suscitaram particularmente a ira do Kremlin.

Um vídeo sobre o antigo primeiro-ministro russo Dmitry Medvedev teve mais de 35 milhões de visualizações no YouTube.

Mas com o aumento dos resultados, aumentaram os riscos. Em março de 2017, esse vídeo provocou os maiores protestos antigovernamentais dos últimos anos na Rússia. Milhares de pessoas juntaram-se a manifestações em quase 100 cidades da Rússia. O próprio Navalny foi detido e preso durante 15 dias.

No mês seguinte, levou com tinta verde anti-séptica, que lhe danificou a visão de um olho.

"Ouçam, tenho uma coisa muito óbvia para vos dizer. Não podem desistir. Se eles decidirem matar-me, isso significa que somos incrivelmente fortes", afirmou Navalny aos seus apoiantes no filme da CNN.

"Precisamos de utilizar este poder, de não desistir, de nos lembrarmos que somos um poder enorme que está a ser oprimido por estes tipos maus. Não nos apercebemos da força que temos".

Envenenamento e recuperação

Em 2020, houve sinais de que o terreno estava a mudar sob o movimento de oposição de Navalny.

O Kremlin tinha assumido uma postura de confronto mais pública em relação ao seu principal opositor, culminando com acusações da existência de uma tentativa de envenenamento em agosto desse ano.

Navalny começou a sentir-se mal durante um voo de regresso a Moscovo, vindo da cidade siberiana de Tomsk. Nas imagens de vídeo aparentemente gravadas durante o voo, podem ouvir-se gemidos altos. Outro vídeo, aparentemente gravado através da janela do avião, mostra um homem imóvel a ser levado numa maca para uma ambulância que o aguardava.

Navalny foi tratado num hospital de Berlim, e o governo alemão concluiu mais tarde que tinha sido envenenado com um agente químico nervoso do grupo Novichok.

Uma investigação conjunta da CNN e do grupo Bellingcat atribui ao Serviço de Segurança Russo (FSB) a responsabilidade pelo envenenamento de Navalny, revelando que uma unidade de elite da agência seguiu a equipa de Navalny durante uma viagem à Sibéria, altura em que Navalny adoeceu devido à exposição ao Novichok.

A investigação também descobriu que esta unidade, que incluía especialistas em armas químicas, tinha seguido Navalny em mais de 30 viagens de e para Moscovo desde 2017. A Rússia nega estar envolvida no envenenamento de Navalny. O próprio Putin disse em dezembro que, se os serviços de segurança russos quisessem matar Navalny, "teriam terminado" o trabalho.

No entanto, vários responsáveis ocidentais e o próprio Navalny acusaram abertamente o Kremlin.

"É impossível acreditar nisso. É um bocado estúpido toda a ideia de envenenamento com uma arma química, que raio?", afirmou Navalny no novo filme da CNN. "É por isso que isto é tão inteligente, porque até as pessoas razoáveis se recusam a acreditar, tipo, o quê? Vá lá... envenenado? A sério?"

A notícia de que Navalny tinha adoecido gravemente provocou uma nova onda de choque na sociedade russa, criando paralelos preocupantes com alguns dos mais descarados assassínios políticos do passado recente da Rússia.

Os governos ocidentais, os investigadores independentes e os observadores da Rússia têm registado um padrão consistente de envolvimento do Estado russo em homicídios, tanto na Rússia como no estrangeiro.

Oposição atrás das grades

Após uma estadia de cinco meses na Alemanha a recuperar do envenenamento com Novichok, Navalny foi imediatamente detido quando regressou a Moscovo no ano passado, por violar as condições de liberdade condicional impostas num processo de 2014.

Foi enviado para uma prisão correcional, onde entrou em greve de fome - protestando contra a recusa dos funcionários da prisão em conceder-lhe acesso a cuidados médicos, enquanto mantinha o escrutínio do governo de Putin no centro das atenções.

Numa das audiências do ano passado, Navalny, visivelmente magro, usou a tribuna para lançar um ataque contra o líder russo e o seu governo, comparando-o ao "rei nu" do conto infantil "O Rei Vai Nu" e chamando "traidores" ao juiz e aos procuradores.

"Gostaria de dizer que o vosso rei está nu e que mais do que um miúdo está a gritar sobre isso - agora são milhões de pessoas que já estão a gritar sobre isso. É bastante óbvio. Vinte anos de governo incompetente chegaram a este ponto: há uma coroa a escorregar-lhe das orelhas", declarou Navalny sobre Putin, referindo-se também aos protestos em massa contra o governo na Rússia após a prisão do ativista e durante a sua greve de fome.

"O vosso rei despido quer governar até ao fim. Não se preocupa com o país; está agarrado ao poder e quer governar indefinidamente", acrescentou Navalny.

Dias depois de ter terminado a greve de fome, a rede de gabinetes regionais de Navalny para o seu movimento político foi "oficialmente dissolvida", segundo o seu chefe de gabinete, Leonid Volkov.

Os gabinetes tinham sido inicialmente criados em fevereiro de 2017 com o objetivo de organizar atividades para voluntários durante a campanha para as eleições presidenciais russas. Após as eleições, os gabinetes regionais assumiram outras funções políticas locais.

Mas talvez o maior golpe para o seu movimento tenha ocorrido no mês passado (julho de 2022), quando Navalny foi condenado pelo tribunal de Lefortovo, em Moscovo, por alegações de que teria desviado fundos da sua Fundação Anti-Corrupção. Foi condenado a mais nove anos numa prisão de segurança máxima.

Após o anúncio da sentença, Navalny escreveu no Twitter: "9 anos. Bem, como diziam as personagens da minha série de televisão favorita "The Wire": "Só se cumprem dois dias. É o dia em que se entra e o dia em que se sai". E acrescentou: "Eu até tinha uma t-shirt com este slogan, mas as autoridades prisionais confiscaram-na por considerarem a impressão extremista".

Ainda assim, as suas convicções não fraquejaram.

Navalny na prisão (AP)

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, Navalny recorreu às redes sociais para denunciar o ataque, defendendo os protestos contra a guerra em todo o país como "a espinha dorsal do movimento contra a guerra e a morte", segundo a Reuters.

Num outro tweet, Navalny escreveu: "Estou muito grato a todos pelo apoio. E, pessoal, quero dizer-vos: o melhor apoio para mim e para outros presos políticos não é simpatia e palavras amáveis, mas ações. Qualquer atividade contra o regime enganador e ladrão de Putin. Qualquer oposição a estes criminosos de guerra".

Milhares de pessoas foram detidas na Rússia por manifestações contra a guerra nas semanas que se seguiram ao início da guerra, incluindo em Moscovo e São Petersburgo.

Uma jovem que a CNN conheceu à margem da primeira noite de protestos, no mês passado, quase chorava ao explicar que amava o seu país, mas não o presidente, e por isso concluiu que tinha de deixar a Rússia.

À medida que a guerra se foi arrastando, a repressão da dissidência na Rússia foi-se tornando mais severa. Vladimir Kara-Murza - jornalista russo, político e crítico do Kremlin - foi preso em abril de 2022, no dia em que a CNN publicou uma entrevista com ele, na qual descrevia a Rússia de Putin como um "regime de assassinos". Kara-Murza foi condenado por traição e sentenciado a 25 anos de prisão em abril de 2023.

E Navalny enfrenta agora novas acusações que o podem levar a cumprir uma pena semelhante.

Compareceu perante um tribunal russo em junho, depois de ter sido acusado de alegadamente "criar uma comunidade extremista". Em comentários publicados no seu perfil do Twitter, Navalny afirmou que as acusações "absurdas" poderiam levá-lo a mais 30 anos atrás das grades.

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