Não têm cura, podem ser letais e aparecem em qualquer idade. O que são e como se detetam as alergias alimentares

1 jul 2023, 08:00
Teste para alergias alimentares (Foto: BSIP/UIG Via Getty Images(

A maioria das alergias alimentares diagnosticadas na infância tem tendência a resolver-se de forma espontânea - e a introdução alimentar até pode reduzir os riscos. Mas, quando aparecem em adultos, as reações alérgicas aos alimentos podem ser mais graves, não têm cura e dificilmente melhoram

Há uma alergia que surge tipicamente em Portugal, apesar da tradição da dieta mediterrânica e do elevado consumo de pescado: a alergia aos peixes. O peixe é, na realidade, um dos alimentos que consumimos que tem grande potencial alergénico e as reações alérgicas começam muitas vezes na infância. Podem resolver-se ou não - já lá iremos - mas, enquanto subsistem, devem ser encaradas com a seriedade que merecem. Veja-se o caso de um adolescente, tratado em consulta pela imunoalergologista Ana Margarida Pereira: apesar de ser alérgico à proteína presente no peixe, teve uma reação alérgica depois de comer batatas fritas num restaurante. A explicação? As batatas tinham sido retiradas do óleo com o mesmo talher usado para pegar em pastéis de bacalhau.

"Foi o suficiente, ele ficou inchado, com urticária. Fez uma reação sistémica", conta a médica à CNN Portugal. "Às vezes, usar a mesma faca em dois alimentos pode ser suficiente para uma reação alérgica grave", sublinha. Nesse sentido, faz um apelo: que não se confundam com alergias as intolerâncias alimentares, até por uma questão de gestão do risco: "Agora, toda a gente diz que é intolerante a qualquer coisa, o que causa um certo facilitismo em ambiente de restauração, por exemplo. E isso põe em risco as pessoas que têm alergias graves", afirma a especialista. 

Comecemos então por explicar o que é uma alergia alimentar: trata-se de uma reação exagerada do sistema imunitário a proteínas presentes nos alimentos. Esta reação pode acontecer não só por ingestão do alimento, mas também por contacto com a pele ou mucosas, ou mesmo por mera exposição aos vapores quando o alimento está a ser cozinhado. 

"Os sintomas são bastante diferentes, consoante o tipo de alergia alimentar. Existem dois tipos principais", explica Ana Margarida Pereira: as alergias mediadas por imunoglobina (Ig), chamadas IgE-mediadas, e as alergias não Ige-mediadas. "Nas IgE-mediadas, os sintomas aparecem muito rapidamente depois de a pessoa ingerir o alimento, em menos de uma hora, e podem ter manifestações diversas, tão ligeiras como uma sensação de comichão na garganta, síndrome de alergia oral, lábios inchados, ou muito graves e que podem pôr a vida em risco, que é o caso da anafilaxia, caracterizada por ter um início muito rápido e atingir habitualmente mais do que dois sistemas corporais. Manifesta-se a nível cutâneo mas existem sintomas a nível respiratório, digestivo, e pode haver queda da tensão arterial", indica a médica.

No que diz respeito às alergias não IgE-mediadas, "manifestam-se essencialmente a nível digestivo", refere a especialista. Podem aparecer vómitos entre uma a quatro horas após a ingestão do alimento. "A pessoa vomita uma série de vezes e pode ficar prostrada, sem força. Passado esse período acaba por recuperar e fica bem, mas também pode ser uma reação bastante grave, sobretudo em crianças, que vomitam até ficarem desidratadas", refere.

O tratamento também é diferente, consoante o tipo de alergia: nos sintomas que se manifestam mais rápido faz-se à base de anti-histamínicos, corticoides e adrenalina no caso da anafilaxia, nas reações ao nível do sistema digestivo é possível que o doente tenha de receber líquidos por via endovenosa e fazer medicação para os vómitos. "Alguns corticoides também parecem ter algum benefício", aponta a imunoalergologista.

Já as intolerâncias alimentares, "são muito diferentes no tipo de mecanismos que têm por trás", diz Ana Margarida Pereira. Não põem a vida em risco e "dão sobretudo dores de barriga, diarreias, "estão tipicamente associadas aos açúcares dos alimentos, à lactose ou quantidades maiores de frutose", explica a especialista. Do ponto de vista do diagnóstico, é mais difícil concluir que existe uma intolerância alimentar do que uma efetiva alergia, mas a médica deixa outra apelo: "Aqueles exames que diagnosticam intolerâncias a 200 ou mais alimentos não são válidos e não devem ser utilizados". Porque, muitas vezes, quem os faz opta por retirar alimentos da sua dieta aos quais não faz qualquer reação e, aí sim, aumenta o risco de ter alergia quando os voltar a ingerir. "O facto de as pessoas gerirem intolerâncias alimentares de forma parecida com a das alergias, no sentido de evitar alimentos de forma completa, pode ser muito mau", avisa a imunoalergologista. 

O papel da introdução alimentar nos bebés

Patrícia Costa Moura é nutricionista, com pós-graduação em nutrição em pediatria, e apesar de admitir que "estamos sempre suscetíveis a alergias alimentares, mesmo a alimentos que consumimos no dia-a-dia", afiança que os estudos mais recentes estabelecem uma relação entre o período da introdução alimentar nos bebés - a introdução progressiva de alimentos sólidos depois do leite materno ou artificial - e as reações alérgicas. 

"Um estudo muito interessante mostrou que as crianças que têm uma introdução alimentar muito precoce, abaixo dos quatro meses, de alguns tipos de alergénios - falamos do ovo, peixe ou amendoim - ou então uma introdução muito tardia, acima do ano de idade, tinham mais probabilidade de virem a desenvolver alergias alimentares", diz à CNN Portugal. "Antigamente, achávamos que o amendoim era perigoso de introduzir na alimentação dos bebés e faziam-se introduções tardias, aos dois ou três anos. Mas começámos a perceber que os casos de alergias dispararam para números nunca antes vistos e tinha precisamente a ver com esta introdução tardia do alimento", explica. "Este padrão acontece para o amendoim mas também para qualquer exposição a alergénios, seja a proteína do leite de vaca, o trigo - nomeadamente o glúten - e o peixe", acrescenta.

Então, como se deve proceder para evitar alergias logo desde a infância? "Sabemos que temos uma janela ótima de oportunidade para a introdução alimentar, entre os seis meses e o ano", esclarece a nutricionista. Ainda assim, aproveitar esta janela imunológica não garante necessariamente que se elimine totalmente o risco de alergias: "Estamos a falar de probabilidades", explica Patrícia Costa Moura. "Também pode acontecer que a criança, aos cinco anos, desenvolva uma alergia. Ou mesmo na idade adulta, é muito comum desenvolver alergia ao camarão ou aos mariscos no geral". 

Mas há uma boa notícia: quando são diagnosticadas em idade pediátrica, grande parte das alergias tende a desaparecer. "A mais comum é a alergia à proteína do leite de vaca (APLV), portanto, a iogurtes, leite, queijo. Mas, na maior parte dos casos, até aos dois anos, esta alergia acaba por desaparecer", garante a nutricionista. E existe uma explicação simples para este surgimento e consequente cura espontânea das alergias em crianças? Nem por isso.

"A alergia pode ter a ver, por exemplo, com uma interrupção da exposição ao alergénio. Acontece muito na pediatria os bebés terem de introduzir fórmula no primeiro mês de vida mas depois passarem a amamentação exclusiva. Pelos nove meses, quando voltam a ter de lidar com a proteína no leite de vaca, depois de um longo período sem contacto com o alergénio, pode ser um gatilho para alergia", refere Patrícia Costa Moura. "Por isso, queremos fazer também uma modulação intestinal, é preciso que haja exposição contínua ao alergénio para reduzir o risco. De nada me adianta introduzir a manteiga de amendoim aos seis meses e depois só dar outra vez aos dois anos. Desta forma, até pode potenciar a alergia", explica, chamando a atenção para a importância de variar com frequência os alimentos sólidos oferecidos aos bebés após os seis meses. "Se quiser reduzir o risco de alergia ao ovo numa introdução alimentar, tenho de fazer a introdução do ovo pelo menos uma vez por semana e não de mês a mês", reforça.

Outro aspeto importante para gerir o risco, explica a nutricionista, é fazer introdução alimentar de alergénios comuns, como a soja, mesmo quando a família diz que não tem uma alimentação vegetariana e não a consome. "Até posso não consumir soja diretamente, tofu, bebidas vegetais. Mas a soja está muitas vezes presente como emulsionante e acabamos por consumi-la sem saber. Nestes casos, aconselho sempre as famílias a fazerem o esforço para a introduzir dentro da janela imunológica", afirma. Diferentes serão os casos das famílias veganas ou vegetarianas estritas, que não consomem produtos de origem animal. "Aqui estamos a falar de questões éticas e morais, de regimes alimentares diferentes. Caso não exista indicação diferente, aqui a minha orientação é não introduzir e deixar a vida seguir", acrescenta Patrícia Costa Moura. 

Quando é que os cuidadores devem ficar alerta e colocar a hipótese de alergia alimentar ainda durante a introdução dos sólidos? "Quando há um vómito a jato num bebé meia hora depois de comer um iogurte, por exemplo, diarreias, muco nas fezes, congestionamento nasal. Os sinais às vezes não são claros, associamos logo uma alergia alimentar ao edema da glote, a uma reação anafilática que precisa de urgências hospitalares. Mas também podem ser manchas, placas de eczema espalhadas pelo corpo. E há alergias tão sensíveis que basta o contacto com o alimento para espoletar uma reação sem que seja necessário o seu consumo", recorda ainda.

Nas crianças, como as alergias tendem a ser passageiras, mesmo se houver história familiar de alergias alimentares, a recomendação não passa por atrasar a introdução alimentar do bebé. É necessário acompanhamento, naturalmente, e estar com atenção redobrada nas crianças que já tenham eczema ou dermatite atópica. "O importante é introduzir sempre em quantidades muito reduzidas", diz a nutricionista. 

"O risco de uma reação grave numa primeira ingestão é baixíssimo", corrobora a imunoalergologista Ana Margarida Pereira. "Para fazermos reação a um determinado alimento é preciso já termos tido contacto com ele previamente, por isso é muito raro haver reações muito graves logo à partida", acrescenta. 

Segundo a imunoalergologista, as alergias alimentares mais comuns nas crianças são, de longe, ao leite e ao ovo, mas são aquelas que tipicamente têm bom prognóstico e são ultrapassadas de forma espontânea, antes ou até à idade escolar. "Nas alergias não IgE-mediadas tende até a ser mais precoce, aos dois anos e meio boa parte das crianças já resolveu", assegura.

As alergias alimentares na idade adulta 

Repetimos as perguntas à imunoalergologista: porque é que as alergias em idade pediátrica têm tendência para desaparecer? E porque é que também podem aparecer, de um momento para o outro, na idade adulta? "Nao temos boa resposta para isso", admite Ana Margarida Pereira. "Não conseguimos saber exatamente o porquê de aquela pessoa, naquele momento, ter deixado de tolerar aquele alimento específico. Mas pode acontecer com qualquer alimento e em qualquer altura da vida. Acontece até com alimentos que a pessoa já comeu muitas vezes", acrescenta a especialista.

No que diz respeito às alergias a partir da adolescência e da idade adulta, "pensando em Portugal, e nos dados que temos relativos à anafilaxia, as alergias alimentares que têm sido descritas com mais frequência são aos mariscos, frutos frescos e frutos secos. Muitas vezes são com frutos frescos, pêssegos e frutas da família do pêssego, como ameixas, nêsperas, etc.. São alimentos que não comemos tipicamente todos os dias, mas de forma mais intermitente", aponta ainda a especialista. "Àqueles alimentos que comemos de forma mais regular é mais difícil tornarmo-nos alérgicos. A ingestão regular funciona quase como uma proteção em relação à alergia", admite ainda. 

Ana Margarida Pereira refere também que, nos adultos, os sintomas de alergia alimentar tendem a ser mais graves do que nas crianças, em que os quadros são mais fáceis de controlar - mesmo que também possa haver situações graves de anafilaxia, independentemente da idade. E também é comum confundir-se uma alergia alimentar com uma intoxicação pontual, causada pela ingestão de um alimento estragado. 

Se há cura para este tipo de problema de saúde? "Atualmente, não temos cura para alergia alimentar", diz a imunoalergologista. "Sabemos que nalgumas pessoas, principalmente com alergias na idade adulta, elas tendem a ser mais persistentes e não resolvem, apesar de também haver situações em que melhoram espontaneamente", refere. "Mas nem todas as situações de alergia alimentar obrigam a uma evicção estrita e total do alimento", assinala. "Há pessoas que fazem uma reação imediata ao amendoim, por exemplo, mas outras só reagem quando comem dez amendoins. E podemos tentar que a pessoa mantenha alguma tolerância ao alimento, mantendo uma ingestão regular de quantidades mais pequeninas", refere Ana Margarida Pereira. "Depende da tolerância e da vontade que a pessoa tem de ingerir esse alimento". 

Existe a possibilidade de fazer uma "dessensibilização", obrigar o organismo a tolerar aquele alimento, mas não é um procedimento isento de riscos, avisa a imunoalergologista. E não há espaço para estratégias caseiras voluntárias e arriscadas: "Vamos dar doses crescentes do alimento em meio hospitalar e a pessoa tem de manter determinada dose em casa, de forma diária. Tem de ser uma coisa de que se goste mesmo", assinala. "E pode haver reações em casa com as quais a pessoa tem de estar preparada para lidar. Mas conseguimos reduzir o risco de reação grave em contacto acidental, a pessoa não fica curada mas consegue ingerir aquele alimento", declara.

Teste às alergias alimentares, o chamado Prick Test (Foto: BSIP/Universal Images Group via Getty Images)

Ana Margarida Pereira refere ainda que está aprovado na União Europeia - mas ainda não chegou a Portugal - um tratamento para a alergia ao amendoim  para menores entre os quatro e os 17 anos. "Nos estudos que foram feitos mostrou bons resultados, na prática é como se fossem pozinhos de amendoim mas oferecidos de uma forma muito mais controlada, com as proteínas bem medidas. Os estudos que foram feitos mostraram que, em comparação com o grupo de controlo, à volta de 50 a 60 por cento das crianças passaram a tolerar o amendoim e isso reduz o risco acidental", detalha a especialista.

A importância de um diagnóstico para "estratificar o risco"

Ana Margarida Pereira realça que é muito importante, quando há suspeita de uma alergia alimentar, marcar consulta com um imunoalergologista para chegar a um diagnóstico: "Não só porque, em algumas situações, ficamos com dúvidas se foi realmente uma alergia ao alimento, mas também para nos dar noção do risco: é diferente quando a pessoa tem  uma reação logo na primeira dose, e vai precisar de muito cuidado a ler rótulos, ou só reage com uma dose mais alta. Se quiser manter a ingestão do alimento, isso dá-lhe uma liberdade maior", explica a médica. 

O diagnóstico de uma alergia alimentar passa por testes ao sangue e, dependendo do tipo de reação, pode haver necessidade de fazer testes na pele ou da chamada prova de provocação oral, ingerir o alimento em ambiente hospitalar de forma vigiada. "A prova de provocação oral acaba por ser o exame mais importante no diagnóstico das alergias porque nos ajuda a estratificar o risco", explica a imunoalergologista. "Apesar dos testes na pele e das análises ao sangue serem muito importantes no estudo da reação, temos muitas situações de positivos para alimentos aos quais nunca houve qualquer reação e não é isso que deve fazer com que a pessoa deixe de os ingerir, antes pelo contrário: a ingestão regular pode fazer com continue sem ter reação", explica. 

O estudo feito em consulta também é fundamental para despistar casos de reações cruzadas, quando existe reação a alimentos com proteínas semelhantes. "Em Portugal, temos uma forma de alergia alimentar a uma proteína que  se chama LTP, o nome completo é 'lipid transfer protein'. É a que nos pode levantar mais dificuldades porque esta proteína, nos países do sul da Europa, está associada a reações graves. Existe no pêssego mas também noutros frutos e legumes e pode levar a reações com alface e tomate, por exemplo. A pessoa pode ter reações com coisas não relacionadas, mas já sabemos que estão ligadas desta forma", explica. 

"Se tivermos uma alergia a um alimento e só se manifestou com um alimento dessa família, devemos continuar a ingerir todos os outros alimentos que toleramos, sem cair na tentação de evitar tudo que tenha essa proteína, por exemplo, senão aumentamos o risco de nos tornarmos alérgicos a todos. Por isso é tão importante que haja acompanhamento e que seja personalizado. O acompanhamento vai ser diferente consoante os sintomas, o que aconteceu à pessoa o tipo de alergia que tem", frisa a médica.

Outro caso de reatividade cruzada acontece com leguminosas: "O amendoim não é um fruto seco, é uma leguminosa", lembra a imunoalergologista. "Pode acontecer que a pessoa que é alérgica ao amendoim, e nunca teve problemas com feijão, de repente passa a ter problemas com feijão. Mas é mais raro acontecer", admite. Em todo o caso, é necessário ter cuidados com os alergénios ocultos, aqueles que, à primeira vista, não parecem fazer parte da refeição que vai ser ingerida, mas que estão lá em pequenas quantidades, ou vestígios, e podem causar dano. "Nestes casos, podemos ter maiores dificuldades em identificar os alimentos causadores das reações. As pessoas não reportam porque não valorizam", diz a imunoalergologista, evidenciando ainda a necessidade de ler os rótulos sempre que existe alergia alimentar e, nos casos mais graves, não prescindir da caneta de adrenalina. "Tem de se andar sempre com ela, não é ir ao restaurante e deixar a caneta no carro. Alguns minutos podem fazer a diferença" nos casos de vida ou morte. "Nas reações mais graves, pode haver necessidade de tratamento imediato, não podemos esperar pelo efeito dos comprimidos, corticoides, tem de ser medicação injetável de efeito muito rápido", esclarece. 

Nas reações anafiláticas mais graves, é importante que o doente seja vigiado em ambiente hospitalar, mesmo depois de ter levado a injeção de adrenalina: pode acontecer uma reação bifásica e, duas horas depois da primeira reação grave, mesmo tendo melhorado com medicação, o corpo volta a sucumbir à alergia, explica a imunoalergologista. Ana Margarida Pereira lembra ainda que é frequente existirem outras doenças associadas à alergia alimentar: rinite alérgica, asma ou dermatite atópica são normalmente companheiros das reações exageradas do sistema imunitário às proteínas de alguns alimentos. 

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