Ahmad Naser Sarmast luta pelo regresso da música ao Afeganistão e conta com a nova geração para deitar os talibãs no "caixote do lixo" da história

21 mai, 22:00
Ahmad Naser Sarmast, fundador do Instituto Nacional de Música do Afeganistão. Foto: William West/AFP via Getty Images

Ahmad Naser Sarmast é o primeiro afegão doutorado em Música e por ela já arriscou a vida. Obrigado a fugir do país na década de 90, regressou a Cabul em 2010 para inaugurar o Instituto Nacional da Música do Afeganistão. O regresso dos talibãs ao poder obrigou-o a mudar outra vez os planos. Agora, é em Portugal que quer manter viva a tradição musical afegã

Primeiro foi a invasão soviética, em 1979, que levou muitos músicos ao exílio. Depois vieram os talibãs que proibiram a música, em 1996, por a considerarem imprópria de acordo com a sua interpretação do Islão. Durante décadas os afegãos foram privados da sua tradição musical milenar rica em estilos e influências.

Ahmad Naser Sarmast, filho do famoso músico, compositor e maestro Ustad Salim Sarmast, fugiu do Afeganistão durante a guerra civil na década de 90. Licenciado em música, fez o Mestrado no Conservatório de Moscovo, na Rússia, e tornou-se no primeiro afegão doutorado em música, depois de a Austrália lhe conceder asilo.

Decidido a devolver a música ao seu país, ainda em exílio e já com as tropas americanas no Afeganistão, negociou a reconstrução da educação musical com o governo afegão. Em 2010 regressou a Cabul para inaugurar o Instituto Nacional de Música do Afeganistão (INMA). Nos anos que se seguiram, o Instituto apresentou várias Orquestras, entre elas a Orquestra Juvenil Afegã e a Orquestra Zohra, a única orquestra feminina do país.

Disposto a dar a vida pela música, talvez não imaginasse que esta afirmação fosse testada de forma tão literal em Dezembro de 2014. Um bombista suicida fez-se explodir numa apresentação de uma das orquestras do INMA no centro cultural francês, em Cabul. Sarmast estava sentado na primeira fila, apenas a alguns lugares do bombista. Onze pedaços de estilhaços ficaram alojados na parte de trás da sua cabeça. Ficou praticamente surdo e foi recuperando a audição aos poucos depois de ser operado na Austrália.

Por isso, o etnomusicólogo não teve dúvidas de que os seus alunos e professores corriam risco de vida quando os talibãs regressaram ao poder no verão de 2021. Uniu esforços a nível internacional e conseguiu retirá-los do Afeganistão. Estão em Portugal, para onde Sarmast pensa mudar-se, e onde tenciona reerguer o Instituto Nacional de Música do Afeganistão.

Porque é que criou o Instituto Nacional de Música do Afeganistão?

Sou muito crente no poder da música. No poder transformativo da música, na capacidade da música para construir pontes, na capacidade da música para contribuir para o processo de recuperação de uma nação como o Afeganistão que está há quase 40 anos em guerra. Acredito na capacidade da música para contribuir para a paz e para a estabilidade. Acredito que a música e a educação musical podem ajudar os afegãos e os juventude do Afeganistão a entenderem-se uns aos outros. Montar uma orquestra ensina-os a respeitarem as diferenças e a começar um diálogo. Por isso, a ideia por trás da fundação do Instituto Nacional de Música do Afeganistão foi a minha forte crença no poder transformador da música, no poder de cura e, também, no poder da música para construir pontes e empoderar.

O que torna esta escola tão única e pioneira?

Primeiro que tudo, é a única escola de música do Afeganistão. E segundo, era, até ao colapso da República do Afeganistão, a única entidade educacional que proporcionava co-educação. Era a única instituição que não só preservava a música, a cultura e a tradição musical afegã mas, ao mesmo tempo, promovia a diversidade musical e cultural como um direito humano básico do povo afegão. É, também, uma instituição que é conhecida como a instituição que devolveu a música ao povo afegão.

Era a única ou uma das poucas escolas no Afeganistão onde rapazes e raparigas estudavam juntos. Isso é comum no Afeganistão?

Como eu disse, uma das particularidades do Instituto Nacional de Música do Afeganistão era promover a co-educação, um programa pedagógico onde rapazes e raparigas se sentavam lado a lado e estudavam para o seu ensino geral mas também faziam música juntos. Mas é também uma instituição que promove o empoderamento das raparigas e mulheres do Afeganistão no mundo das artes e da cultura e, no nosso caso mais precisamente, na música. E é por isso que temos estado tão comprometidos em inscrever e aumentar as inscrições de raparigas na escola, como parte do nosso objetivo para promover igualdade de género no Afeganistão.

Foi por esse motivo que criou a Orquestra Zohra?

A Orquestra Zohra foi criada graças à missão e ao compromisso do Instituto Nacional de Música do Afeganistão em promover a igualdade de género, mas a ideia da Orquestra Zohra começou com algo muito pequeno. Uma pequena ideia de uma rapariga que queria formar um ensemble com as suas amigas. Quando a ajudamos a criar o ensemble vimos que pouco a pouco havia interesse no meio da comunidade feminina de se juntarem e tocarem juntas. Assim, enquanto que o ambiente escolar criou a oportunidade para as mulheres terem acesso à educação musical, também facilitou e criou o ambiente propício para a formação da Orquestra Zohra.

A Orquestra Zohra viajou pelo mundo, é muito conhecida… Qual é que é o poder desta Orquestra?

A Orquestra tem sido um símbolo de emancipação das mulheres no Afeganistão. Um símbolo de muitas mudanças positivas que aconteceram no Afeganistão nos últimos 20 anos. E era um símbolo da capacidade das raparigas e das mulheres do Afeganistão para mudarem, mudarem as suas vidas, e também servirem como exemplo para o resto da comunidade. Num país onde a música foi durante a maior parte do tempo considerada um tabu, havia um estigma, um estigma religioso sobre a música. E, em particular, sobre as mulheres na música. E quando se cria uma orquestra só de mulheres, isso passa uma mensagem muito positiva para a comunidade sobre a capacidade das mulheres e sobre as possibilidades de mudança no Afeganistão.

E os alunos vinham de onde?

Alguns dos alunos viviam em orfanatos porque nós estávamos comprometidos em transformar a vida de crianças vulneráveis através da educação musical. Todos os anos, 50% das novas inscrições estavam reservadas para crianças vulneráveis, crianças em orfanatos, crianças que trabalhavam nas ruas de Cabul e, também, raparigas. Ao mesmo tempo, recentemente, construímos um lindo dormitório para 200 raparigas e era suposto começarmos a utilizar esse edifício este ano mas agora está sob o controlo dos talibãs e eles transformaram-no em escritórios para uso deles.

Tem notícias sobre o que é que se passa dentro do Instituto Nacional de Música do Afeganistão? O que é que aconteceu aos instrumentos que ficaram para trás?

Claro. Eu estava em contacto com os líderes do sector da educação dos talibãs e ainda estou em contacto com eles mas à medida que nos afastamos dos dias da sua chegada [a Cabul], eles têm cada vez menos vontade de falar comigo.

Os talibãs abordaram o Instituto Nacional de Música do Afeganistão de forma muito estratégica para destruí-lo, mas não fizeram um grande anúncio sobre a educação musical ser má. O que eles fizeram foi confiscar os bens do Instituto e distribuí-los para outras instituições. O Instituto Nacional de Música do Afeganistão tem oito edifícios. Um dos campus mais antigos está agora sob controle total dos talibãs e é usado como zona de dormitório para as famílias dos talibãs porque está muito bem equipado, especialmente agora que é inverno, está frio e há muita pobreza.

Outro edifício foi transformado em escritórios para algumas diretorias de educação técnica e vocacional. Outro foi dado à escola de construção. O meu edifício, o edifício administrativo, onde estava o meu escritório, está a ser usado como armazém onde todos os bens do Instituto foram amontoados uns em cima dos outros e eles dizem que estão a salvaguardar os bens do Instituto quando, na verdade, não resta nada para o Instituto.

Vários instrumentos musicais foram destruídos nos primeiros dias da chegada dos talibãs. Em particular, os instrumentos que estavam na sala da orquestra. Foram destruídos dois pianos, um marimba, um violoncelo, um sitar, um tanbur, uma guitarra… Nós tínhamos um item histórico muito valioso, uma guitara/sitar clássica do primeiro guitarrista afegão, que doou o seu instrumento à escola e estava bem guardado numa caixa como parte do museu da escola. Mas esse foi o primeiro instrumento que os talibãs partiram.

Porque é que acha que está a demorar tanto tempo para os talibãs anunciarem uma posição oficial em relação à música?

A posição deles é clara. Eles fizeram várias declarações em que consideram a música ilegal na perspetiva islâmica. O que significa que deveria ser banida e está banida. Porque é que não estão a fazer um grande anúncio? Porque não querem criar indignação contra os talibãs no Afeganistão e na comunidade internacional. Estão a fazer tudo silenciosamente de forma a evitar críticas por parte da comunidade internacional e para mostrar ao mundo que estão a respeitar os direitos humanos. De que direitos humanos é que estamos a falar quando o direito de uma nação à música não é respeitado e é-lhe negado? Isto é uma violação aos valores dos direitos humanos!

Foi acusado pelos talibãs de “corromper a juventude” do Afeganistão. Porquê?

A interpretação do Islão dos talibãs é uma interpretação errada que serve os interesses deles. A interpretação é baseada num conhecimento e num entendimento muito, muito limitado do Islão. São um grupo de pessoas ignorantes, que levaram uma lavagem cerebral dos serviços de inteligência do Paquistão nos campos de refugiados e nas madraças. Não há em todo o Corão uma clara referência, uma referência explícita, de que a música é proibida ou de que a música é não-islâmica. E por isso, o que eu estava a fazer no Afeganistão era promover a música, o que da perspectiva dos talibãs é corromper a nação.

Mas também foi elogiado por “praticamente salvar a música afegã”. Revê-se nesta afirmação?

Não quero comentar. Fiz o que eu era capaz de fazer para promover a música no Afeganistão, para preservar as tradições musicais afegãs, para promover a diversidade musical no Afeganistão, para transformar as vidas das crianças e jovens, para promover valores humanísticos através da música. Esse é o meu papel no Afeganistão, a História julgará.

Qual é o seu próximo objetivo? Vai estabelecer o Instituto Nacional de Música do Afeganistão em Portugal?

Foi com essa missão que viemos para cá. Estamos a caminhar nessa direção, a fazer bons progressos. Mas o Instituto Nacional de Música do Afeganistão não será apenas para os meus alunos. Estamos a estabelecer o Instituto Nacional de Música do Afeganistão como uma escola que irá proporcionar um ensino de qualidade, um ensino geral e de música, não só para os meus alunos mas também para o resto da comunidade. Estará aberto a todas as pessoas. Vai ser um centro de excelência, de diversidade musical e de educação musical para qualquer cidadão deste país. 

Acredita que um dia haverá democracia no Afeganistão? Que os seus alunos poderão tocar livremente outra vez no Afeganistão?

Ah sim, sim. Acredite em mim, eu não duvido de que o Afeganistão vai reaver a sua liberdade muito em breve. Neste momento, não são só os talibãs. O Afeganistão está ocupado pelo Paquistão. É uma ocupação. Uma ocupação escondida do Afeganistão por um grupo de marionetas/fantoches dos países vizinhos. Mas a resistência já está a acontecer desde o primeiro dia do regresso dos talibãs. Desta vez, as mulheres do Afeganistão estão a liderar a resistência contra os talibãs.

Mas mais importante, desta vez os talibãs estão a enfrentar um Afeganistão diferente. Não é o mesmo Afeganistão de 1996. Hoje, as mulheres, os homens, os jovens do Afeganistão, estão todos muito cientes dos seus direitos e é por isso que já estão a resistir. Acredito no poder do povo afegão e acredito na capacidade do povo afegão para deitar os talibãs no caixote do lixo da história muito em breve.

A Orquestra Zohra fará parte dessa resistência?

Não só a Orquestra Zohra mas o Instituto Nacional de Música do Afeganistão farão parte dessa resistência. Agora estão a assentar lentamente aqui e uma das missões do Instituto Nacional de Música do Afeganistão em exílio é não só preservar a música afegã, mas também tornar-se a voz do povo afegão, tornar-se a voz da liberdade em exílio, espalhar as mensagens do povo afegão pelo mundo através da música. Dar a conhecer ao mundo o que está a acontecer no Afeganistão.

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