Afegãs, mulheres e músicas. Uma combinação proibida pelos talibãs que se reconstrói em Portugal

21 mai, 22:00

São a primeira geração de mulheres afegãs autorizada a ir à escola e a estudar música. No verão de 2021, com o regresso dos talibã, tiveram que deixar os instrumentos para trás e fugir. Portugal acolheu-as e é agora a casa da orquestra feminina Zohra e do Instituto Nacional de Música do Afeganistão no exílio.

Marzia tem 15 anos mas era ainda pequena quando o pai a enviou da aldeia onde viviam, na província de Takhar, no nordeste do Afeganistão, para um orfanato em Cabul, para poder estudar. Uma realidade comum num país onde rapazes e raparigas estudam em escolas separadas e nem todas as províncias têm escolas para raparigas. No orfanato falaram-lhe de uma escola de música, a única no país. Com 9 anos, Marzia juntou-se ao Instituto Nacional de Música do Afeganistão (INMA).

“Antes de ir para o Instituto Nacional de Música do Afeganistão, eu odiava música porque na minha aldeia diziam sempre coisas más sobre a música. Diziam-me que os muçulmanos não tocavam música. Que música é má para nós”, relembra Marzia, em entrevista à CNN Portugal. A pedido do INMA, usamos apenas o seu primeiro nome.

Quando Marzia contou ao pai que estava a estudar música, ele não aceitou. Uma das irmãs disse-lhe, até, que ela já não fazia parte da família. Mas Marzia não desistiu e aos 11 anos tornou-se membro da única orquestra feminina afegã, a Orquestra Zohra.

Constituída por 30 raparigas afegãs entre os 13 e os 20 anos, de várias zonas do Afeganistão, a Orquestra Zohra tocou nos mais prestigiados palcos do mundo como Carnegie Hall e Kennedy Center, e em eventos como o encontro anual do Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, em 2017. Um ano depois, tocaram em Portugal, no Festival Jovens Músicos, organizado pela Antena 2 com a colaboração da Fundação Gulbenkian.

Em 2017, a orquestra Zohra atuou durante a cerimónia de encerramento da conferência de Davos, na Suíça. Foto: Fabrice Cofrini/AFP via Getty Images

As jovens que aqui tocam sonham em ser percussionistas, violinistas, maestrinas. Zohra, que dá nome a esta orquestra, é a deusa persa da música e um símbolo de mudança.

Sabera tem 18 anos e, ao contrário de Marzia, uma timidez que contém a conversa. Mas quando o assunto é a Orquestra Zohra, não poupa nas palavras: “Significa que podemos tocar música, podemos ser a voz das mulheres do Afeganistão”.

“O mundo acha que no Afeganistão as mulheres só ficam em casa, não estudam, não fazem nada. Mas a Orquestra Zohra mostra um Afeganistão diferente. Mostra que a mulher afegã não é como o mundo pensa; ela pode tocar música, pode mudar o seu país”, acrescenta Marzia. “Sinto liberdade com a Orquestra Zohra”.

O regresso dos talibã

Uma liberdade que desapareceu, juntamente com as tropas americanas, no verão do ano passado. “Nesse dia estávamos na escola a gravar algumas músicas para um programa, quando o nosso motorista bateu à porta e disse: «Os talibãs estão em Cabul, vocês têm que ir embora agora da escola»”, relembra Sevinch, 17 anos, de Faryab a viver num orfanato, também ela membro da Orquestra Zohra. “Gravámos mas eu estava com muito medo. Olhei para o meu instrumento e disse para mim mesma: «O que é que eu faço com ele?». Se o levasse comigo seria perigoso por isso deixei-o na escola mas fiquei muito triste por não poder trazê-lo”.

Os alunos e alunas do Instituto Nacional de Música do Afeganistão voltaram para as suas casas, sem saber o que fazer daquele dia em diante. Esconderam os instrumentos, vestiram as roupas consideradas aceitáveis pelos talibãs e durante dois meses viram os dias passar.

Esta fotografia, tirada em Setembro do ano passado, mostra militantes da rede Haqqania, uma das fações mais temidas dos talibãs, nas instalações do  Instituto Nacional de Música do Afeganistão. Foto: Bernat Armangue/AP

“Eu sentia que não estava a viver”, diz Sevinch. “Tinha medo porque sou música, porque sou uma rapariga… Passava os dias em casa, não saía de casa”.

Até que Ahmad Naser Sarmast, fundador e diretor do Instituto Nacional de Música do Afeganistão, os contactou para se prepararem para sair do país. Foram mais do que uma as operações de evacuação que mobilizaram esforços internacionais, desde a presidente da Câmara dos Representantes, a democrata da Califórnia Nancy Pelosi, até ao famoso violoncelista Yo-Yo Ma. A primeira paragem foi Doha, no Qatar, e o destino final, Lisboa, em Portugal, que aceitou acolher o grupo de 273 pessoas.

“Quando disse ao meu pai que ia para Portugal, pela primeira vez ele disse-me que estava orgulhoso de mim. Eu fiquei em choque, ele aceitou-me!”, diz Marzia com um sorriso que lhe enche o rosto.

Um país sem música

Hoje em dia, nas ruas do Afeganistão, só se ouvem as taranas, cantos religiosos que existem há muito tempo na cultura afegã mas que são usados como propaganda pelos talibãs. Tocar em público foi proibido. Das rádios e televisões, nem uma nota.

Nada de novo para Ahmad Naser Sarmast que testemunhou a proibição da música quando os talibãs governaram o Afeganistão de 1996 até 2001. Consideram a música pecado, ainda para mais tocada por mulheres. “Eles sempre dizem que música é haram [proibido pela lei islâmica] no Islão e eu não sei onde no Corão é que Alá diz isso. Eu não encontro mesmo essa parte porque, na verdade, eu conheço o Corão, li o Corão, e não há nada que diga isso”, diz Marzia.

Ahmad Naser Sarmast explica: “A interpretação dos talibãs é baseada num conhecimento e entendimento muito limitado do Islão. São um grupo de pessoas ignorantes que tiveram uma lavagem cerebral nos campos de refugiados e nas madraças pelos serviços de inteligência paquistaneses”. “Eles têm medo das raparigas porque eles sabem que se as raparigas tiverem poder, eles serão expulsos”, remata Sevinch.

“Educação, música, é desta forma que conseguimos reaver o nosso país”, sublinha Sevinch.

Hoje, os oito edifícios do Instituto Nacional de Música do Afeganistão estão ocupados pelos talibãs e pelas suas famílias. Apesar de não terem ainda assumido uma posição oficial em relação à música e à educação musical, o diretor do INMA não tem dúvidas de que nada mudou desde a década de 90. Apenas não querem chamar a atenção da comunidade internacional para não sofrerem sanções.

"O lugar mais feliz do Afeganistão”

Zohra é apenas um dos vários grupos musicais desta escola onde rapazes e raparigas estudam lado a lado. Murtaza tem 18 anos, e fala com orgulho das colegas: “Trouxeram muitos prémios para o Afeganistão e estamos muito orgulhosos dela, são raparigas muito talentosas”. Reconhece no Instituto Nacional de Música do Afeganistão valores que vão para além da música: “Nós podemos praticar juntos, podemos ler, podemos jogar, podemos fazer qualquer coisa, sem qualquer discriminação”.

No “lugar mais feliz do Afeganistão”, como Ahmad Naser Sarmast diz que a escola é conhecida, a luta pela igualdade é travada em várias frentes: metade das inscrições são reservadas para crianças vulneráveis como órfãos, crianças que trabalham a vender nas ruas e raparigas de todos os grupos étnicos e religiosos.

Portugal, o refúgio da música afegã

Nos corredores do edifício cedido pelo Ministério da Defesa e gerido pela Cruz Vermelha, em Lisboa, que serve temporariamente de casa a estes jovens e adultos, ouve-se música dos telemóveis e um pequeno grupo toca guitarra.

Murtaza expressa os seus sentimentos através do rubab, um instrumento tradicional afegão que conseguiu salvar. “Se não tivéssemos vindo para Portugal, seria muito difícil para nós tocar, continuar as nossas aulas, viver no Afeganistão, estar vivos… Todas estas coisas seriam impensáveis e impossíveis se estivéssemos no Afeganistão”.

O pai e a família apoiaram-no desde o início com os estudos na música, e ainda mais agora. “Neste momento a minha família está tão otimista sobre o meu futuro e o futuro deles. Sou a esperança da minha família e também quero ser a esperança de todo o povo afegão”, diz Murtaza.

Sabera está feliz por estar a salvo mas continua preocupada. “Toda a gente está em grande perigo no Afeganistão neste momento. Mas a minha família especialmente, por causa da minha ligação ao Instituto Nacional de Música do Afeganistão”.

Ahmad Naser Sarmast considera que mais do que um objetivo, é um dever seu trazer as famílias de cada um dos seus alunos para perto deles. O governo do Qatar tem sido um aliado importante e Sarmast está confiante que até ao final do verão o restante grupo de 300 pessoas chegue a Portugal.

Marzia e Shogofa, duas jovens da orquestra Zohra forçadas a abandonar o Afeganistão, no dia em que aterraram em Portugal. Foto: Armando França/AP

Resistir através da música

Chegaram em dezembro a Portugal e os objetivos estão definidos - o Instituto Nacional de Música do Afeganistão voltará a reerguer-se em Lisboa, como um centro de educação de excelência aberto a todos.

Enquanto isso, a luta continua. “Uma das missões do Instituto Nacional de Música do Afeganistão em exílio não será apenas a preservação da música afegã mas também tornar-se a voz do povo afegão”, diz Ahmad Naser Sarmast. “Desta vez, as mulheres do Afeganistão estão a liderar a resistência contra os talibãs”. “Não duvido que o Afeganistão irá recuperar a sua liberdade muito em breve.”

“Quero ver o meu país livre. Quero ver todas as mulheres afegãs a estudar, a trabalhar para elas próprias”, diz Marzia.

Nota: A pedido do Instituto Nacional de Música do Afeganistão, a CNN Portugal utilizou apenas o primeiro nome dos alunos entrevistados na reportagem.

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