"Vejo mais casos de gripe A do que de covid". A gripe A voltou, afeta mais as crianças e o pico ainda vem aí

24 mar, 14:48
Criança doente Foto: Getty Images

Diretor do Centro Materno-Infantil do Norte diz que, nas últimas semanas, aumentou "significativamente" o número de crianças com gripe A que deram entrada nas urgências. Vírus da gripe ainda não chegou ao pico e está a circular sobretudo entre os mais jovens

O diretor do Centro Materno-Infantil do Norte (CMIN) é peremptório: "Desde há 15 dias que temos tido uma afluência acrescida de doença aguda nos serviços de urgência, com destaque para os casos de Influenza", diz Alberto Caldas Afonso, à CNN Portugal. "Só estamos a testar aqueles que têm critérios de internamento e, de facto, temos um número muito significativo de casos de gripe A comparativamente ao que tínhamos até aqui. E temos suspeita de que seja gripe A em muitas outras crianças, mas como não têm critério de internamento, não é feita a pesquisa virológica", explica o professor catedrático da Universidade do Porto. 

O número crescente de casos de gripe, nomeadamente de gripe A, é confirmado pelo Boletim de Vigilância Epidemiológica da Gripe e Outros Vírus Respiratórios do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA). Segundo os dados mais recentes, a Rede Portuguesa de Laboratórios para o Diagnóstico da Gripe detetou, na semana de 7 a 13 de março, 447 casos positivos para o vírus da gripe, dos quais 398 do tipo A, oito do tipo B e 41 não tipados. Na Rede Sentinela, composta por especialistas de medicina geral e familiar que notificam voluntariamente a gripe, foram detetados quatro casos de gripe A e foi observado, de acordo com o boletim, "um menor número de deteções de outros vírus respiratórios". Em resumo, a gripe regista uma "tendência crescente" e "atividade epidémica disseminada". 

"O pico da influenza na época pré-covid era mais precoce, não tínhamos nesta altura do ano", diz Caldas Afonso, acrescentando que há "vários fatores" que podem explicar o aumento do número de casos de gripe entre os mais novos. No que diz respeito à primeira infância, as crianças estão mais vulneráveis porque não tiveram ainda estímulos suficientes do sistema imunitário: "Grande parte do início de vida estiveram confinadas", explica o especialista, acrescentando que, em contexto de berçário ou creche, pouco há a fazer para evitar partilha de brinquedos e diminuir contágios.

Já quanto ao número elevado de casos que também se tem verificado entre adolescentes, deve-se à "reabertura dos hábitos de socialização", acrescenta Caldas Afonso, dando como exemplo um "fenómeno" observado no Porto já depois da reabertura de bares e discotecas: após uma festa que juntou centenas de jovens sem máscaras, o número de doentes jovens com gripe disparou. 

"A circulação do vírus da gripe deu-se sobretudo a partir do momento em que as medidas de proteção contra a covid-19 diminuíram", refere o especialista.  "Com todas as medidas de contenção, a propagação caiu a pique. No ano passado, neste período, estivemos em confinamento ou com medidas muito restritivas na parte pública e de grandes aglomerados. Hoje, se formos à rua, está quase tudo igual, voltámos a uma vida que tem de ser o mais normal possível", diz o diretor do CMIN. 

Vírus não está mais agressivo

Apesar de o vírus da gripe em circulação nesta época ser sobretudo o do tipo A, subtipo H3N2 - considerado mais perigoso nos mais velhos ou grupos de risco -  Caldas Afonso refere que não vê uma agressividade acrescida da infeção relativamente a 2017 ou 2018, na época pré-pandemia de covid-19. "Não tenho crianças internadas com necessidade de cuidados intensivos, é muito pontual, tal como já acontecia antes", explica.

O que mudou, na prática, foi o período em que se contabilizam mais casos de gripe, neste caso gripe A, porque é o tipo prevalente em cirulação em 2022, não só em Portugal mas também no resto da Europa, indica o boletim do INSA, que aponta para uma "mortalidade por todas as causas dentro do esperado para esta época do ano". 

E se a gripe continua com tendência crescente e, portanto, com o pico a chegar só nas próximas semanas, a previsão do diretor do CMIN é que os casos entre as crianças continuem a verificar-se no próximo mês. "Se começássemos já com tempo mais quente e seco, com certeza que o cenário seria diferente, mas o mês de abril é normalmente um mês de muita chuva, muito propício a facilitar este tipo de propagação", explica o catedrático. Ainda assim, aponta: "Se alguma coisa veio de positivo com a covid-19 foi uma cultura diferente de proteção, que limitou claramente a transmissibilidade de doenças cuja gotícula é o modo de transmissão".

Caldas Afonso admite ainda que o número de casos de gripe, nomeadamente de gripe A, estará subestimado, porque só são sujeitas ao painel de pesquisa de vírus respiratórios - que deteta, nomeadamente, o tipo de gripe - as crianças que são internadas, como já foi referido, e que portanto precisam de terapêutica específica. "Eu vejo mais casos de Influenza A do que de covid", garante. Se não houver necessidade de internamento, a criança vai para casa, tenha gripe A, gripe B ou covid-19, com orientação muito semelhante: monitorizar febre e dor, hidratar, repousar. "Não há nenhum sintoma específico que distinga a covid-19 da gripe em termos de diagnóstico", acrescenta o médico. 

Vacinação protege os mais velhos

Na semana passada, a virologista Raquel Guiomar, responsável pelo laboratório do INSA que faz a vigilância epidemiológica da gripe, disse à agência Lusa que, nesta altura, em anos pré-pandemia, o período epidémico da gripe estaria a finalizar. E apontou que "devido a uma circulação muito reduzida nos últimos dois anos", aliada ao levantamento das medidas de proteção individual, o vírus da gripe estava agora "a ter a oportunidade de ser transmitido pessoa a pessoa”. 

A virologista acrescentava já que a população "mais suscetível" à infeção pelo vírus da gripe nas últimas semanas eram as crianças. “Esta é uma nova dinâmica dos vírus respiratórios que temos que acompanhar muito de perto porque sabemos que estes dois últimos anos da pandemia interferiram de certa forma também com a circulação do vírus da gripe e de outros vírus respiratórios”, realçava Raquel Guiomar.

Ao contrário do que acontecia em anos anteriores, em que a epidemia de gripe chegava normalmente ao pico no início do ano, em 2022 só a semana de 28 de fevereiro a 6 de março foi assinalada no boletim do INSA como sendo a de "provável início do período epidémico" de gripe, com a deteção de 165 casos de gripe (todos do tipo A) na rede de laboratórios dos hospitais e dois casos de gripe na Rede Sentinela. A taxa de incidência de síndrome gripal nesta semana foi de 15,1 por 100 mil habitantes e praticamente triplicou na semana seguinte, de 7 a 13 de março, passando para os 43,5 por 100 mil habitantes.

Vírus não é o mesmo da pandemia de 2009

O pneumologista Filipe Froes realça, à CNN Portugal, que é importante esclarecer que o subtipo da gripe A que agora circula não é o mesmo que obrigou a Organização Mundial da Saúde a declarar a pandemia de gripe A em 2009: em circulação em Portugal e na Europa está o já referido H3N2, diferente do H1N1 que era então detetado, ainda que a circulação de ambos seja natural e esperada, refere o pneumologista.

"Habitualmente, o H3N2 é um subtipo que provoca mais carga na população adulta, mas como temos elevada taxa de vacinação, provavelmente, minimizou o impacto da gripe" nessas faixas etárias, refere Filipe Froes. A doença tem afetado, portanto, "os grupos mais jovens e pessoas não vacinadas".

"Os mais idosos mantêm a máscara, portanto, têm uma dupla proteção, de medidas farmacológicas e não farmacológicas", aponta ainda o pneumologista, que acrescenta que, apesar dos tipos e subptipos diferentes, "todas as gripes são mais agressivas nas pessoas não vacinadas e que têm indicação para se vacinar".

O mais importante, diz Filipe Froes, é a vacinação para prevenir a infeção, evitando assim duas grandes consequências do vírus gripal: "A pneumonia bacteriana secundária ou a descompensação de comorbilidades, como a diabetes ou a insuficiência cardíaca", resume. 

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