Los Javis queriam fazer "o maior e o mais gay filme de guerra de sempre". Fizeram "A Bola Negra"

Há 9 min

Da guerra civil de Espanha à atualidade, "A Bola Negra", dos realizadores Javier Calvo e Javier Ambrossi, é um grito contra a homofobia e é já apontado como um dos candidatos aos Óscares. Estreia hoje em Portugal

Em 1936, o escritor espanhol Federico García Lorca começou a escrever uma peça de teatro sobre um jovem que é alvo do “sistema da bola negra”, muito popular nos clubes privados daquela altura em Espanha. Para decidir se alguém seria admitido no clube, cada um dos membros da direção lançava uma bola numa caixa: bola branca para aprovar, bola negra para recusar. O jovem quer entrar no clube da sua cidade, mas a admissão é-lhe recusada por ele ser homossexual. Lorca escreveu quatro páginas desta peça, que intitulou “A Bola Negra”, mas não chegou a terminá-la. Foi fuzilado, em agosto desse ano, pelas forças nacionalistas de Franco.

Foram estas quatro páginas que inspiraram os cineastas espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi - conhecidos como “Los Javis” - a fazerem “A Bola Negra”. O filme que se estreou no último Festival de Cannes, onde ganhou o prémio de melhor realização, e que chega esta semana aos cinemas portugueses, é um épico cuja ação se desenrola simultaneamente em três linhas temporais: em 1932, o jovem Carlos é rejeitado no clube de Granada por ser homossexual; em 1937, Sebastián, um inexperiente soldado nacionalista na guerra civil de Espanha apaixona-se por Rafael, um prisioneiro inimigo ferido; em 2017, o dramaturgo Alberto vive livremente a sua homossexualidade e recebe uma herança inesperada de um avô que nunca conheceu. As três histórias acabam por se ligar e, ao longo daquelas duas horas e meia, a bola negra torna-se o símbolo da discriminação - e também da vergonha - que levou tantos homossexuais a viverem os seus sentimentos em segredo. 

O filme tornou-se rapidamente o maior sucesso do cinema espanhol em 2026. Entretanto, “A Bola Negra” foi adquirido pela Netflix e escolhido como candidato de Espanha à nomeação para o Óscar de Melhor Filme Internacional. Muitos críticos colocam-no já como um dos grandes candidatos a outras categorias dos Óscares, entre as quais a de melhor filme. 

Praticamente desconhecidos fora do seu país, Javier Ambrossi, de 42 anos, e Javier Calvo, de 35 anos, são as estrelas do momento. "Los Javis" encontraram-se quando eram ainda atores pouco conhecidos e iniciaram uma relação amorosa há 13 anos ao mesmo tempo que começaram a trabalhar juntos como dramaturgos, cineastas, atores e até participantes de reality shows, incluindo como jurados da versão espanhola do “Ru Paul’s Drag Race”. Entre os seus trabalhos mais famosos contam-se o musical “La Llamada”, sobre um acampamento de verão gerido por freiras, que, em 2017, deu origem ao primeiro filme da dupla, “Holy Camp!”. A série de televisão “La Mesías”, de 2023, deu-lhes alguma notoriedade. Com este novo filme, “Los Javis” asseguram a sua posição como a mais famosa dupla da cena queer espanhola e, apesar de a relação ter terminado durante a filmagem de “A Bola Negra”, tencionam continuar a trabalhar juntos.

“A Bola Negra” - que é coproduzido por Pedro Almodóvar - conta com a participação de Penélope Cruz e Glenn Close (a falar espanhol), ao lado dos atores espanhóis Miguel Bernardeau, Carlos González e Lola Dueñas. Mas o grande destaque vai para o jovem estreante Milo Quifes, de 25 anos, e o músico Guitarricadelafuente, de 29 anos, que se estreia aqui como ator no papel do soldado Sebástian (ao mesmo tempo que participa na banda sonora com o tema “La Nieve”). 

Javier Calvo explicou, numa entrevista à NPR, que o filme os ajudou a sentirem-se mais próximos das gerações de homens gays que os precederam: “Estamos todos ligados por esta bola preta que todos partilhamos, que passamos uns aos outros, de geração em geração, uma bola preta que representa o silêncio, a dor, a vergonha, mas que também é uma centelha de vida, desejo, amor e alegria. Sinto que isso me fez sentir orgulhoso da minha comunidade e das pessoas corajosas que lutaram antes de mim.” 

“Não temos muitos filmes ou livros sobre a história que nos une enquanto comunidade, a comunidade queer. Foi por isso que quisemos fazer algo em grande. Queríamos que fosse épico e ousado”, disse Javier Ambrossi. “Estou farto de que os filmes LGBTQ+ sejam de nicho”, acrescentou noutra entrevista. “Pensei: “Vamos fazer o maior e o mais gay filme de guerra de sempre.” “Adorámos imaginar cenas que normalmente não se vêem em filmes queer”, comentou ainda, referindo-se, por exemplo, à sequência de abertura em que uma aldeia espanhola é bombardeada por fascistas italianos. Juntar o erotismo e a guerra não é uma grande novidade, mas, mais do que sobre sexo, que também lá está, "A Bola Negra" é sobre a liberdade para amar e sobre o sofrimento causado pela rejeição imposta por uma sociedade preconceituosa. E ainda sobre a importância de sabermos a nossa história e de combatermos o esquecimento.

Também por isso, o filme é uma homenagem ao poeta Federico Garcia Lorca, morto tanto pelas suas posições políticas como por ser um espírito e um corpo livre. Para escrever o argumento, Los Javis garantem que investigaram muito sobre Lorca e a sua época e, além disso, trabalharam com o dramaturgo Alberto Conejero, autor da peça “La piedra oscura”, que serve de base à parte da narrativa de 1936 - esta peça imagina um final diferente para o amante de Lorca, Rafael Rodríguez Rapún, um antigo jogador do Atlético de Madrid que lutou e morreu ao lado dos republicanos em 1937. 

“Lorca é tão inesgotável como Shakespeare, e causa tristeza e raiva recordar a maravilha que nos deixou nas duas décadas que teve de vida criativa”, afirmou Conejero ao El Mundo. “O que o fascismo nos arrebatou com o seu assassinato é inimaginável. O firme compromisso de Lorca com os valores republicanos, a inveja da direita mais radical perante o seu triunfo colossal e a sua influência em amplos setores, bem como a homofobia mais selvagem, prepararam o cenário do crime naquela Granada mergulhada no terror. Apesar disso, Lorca é um autor infinito, lido e amado, para orgulho dos espanhóis e vergonha para os herdeiros ideológicos dos seus assassinos”.

“Aquela geração [dos anos 30] pensava que ia ser livre para sempre, mas depois surgiram as ditaduras e foram perseguidos, assassinados, desapareceram”, disse Javier Calvo. “Foi chocante sentir o paralelismo com a sociedade em que vivemos agora, na qual pensámos que poderíamos ser livres para sempre, pensámos que tínhamos conquistado os direitos. Mas a história repete-se. O fascismo está a crescer e isso é preocupante; a nossa arma contra a intolerância e o ódio é escrever e fazer filmes, e é para isso que estamos aqui.”

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