Onde está o Wali? Sniper canadiano está de regresso à Ucrânia e tem uma nova missão

27 set, 09:46

Viu a morte de perto nos arredores de Kiev, mas foi o medo de ser esquecido pelo filho que o fez regressar ao Canadá. Agora, o atirador canadiano regressou à Ucrânia, mas o seu papel vai ser diferente

Chegaram a dizer que tinha sido morto em combate. Foi dos primeiros estrangeiros a responder à chamada de Volodymyr Zelensky, nos primeiros dias da invasão russa. Ajudou a quebrar o cerco a Kiev, perdeu companheiros e viu a morte bem de perto. Voltou para casa para os braços da sua mulher e o bebé. Agora, o franco-atirador canadiano conhecido apenas por Wali regressou a solo ucraniano, mas a sua missão agora é diferente, mas não menos importante.

Depois daqueles primeiros dias gelados de março, nos subúrbios destroçados de Irpin, onde juntamente com outros voluntários estrangeiros travou as tentativas russas de cerco à capital, Wali não resistiu. O amor pelo filho, que deixou para trás com apenas meses de vida, obrigou-o a voltar ao Canadá. Nas últimas semanas, durante as poucas chamadas de vídeo que fazia para o Canadá, reparou que o seu filho o começou a esquecer.

“Eu senti isso nas chamadas de vídeo. Então comecei a imaginar como seria se eu morresse em combate. O meu filho não me conheceria mais. Eu tornar-me-ia uma história que eles lhe contariam. Eu seria aquele pai que uma vez partiu para a Ucrânia e nunca mais voltou”, desabafou, na altura, ao jornal El País.

Agora já voltou para a Ucrânia, mas o seu papel vai ser diferente. Começou a planear o seu regresso no mês de junho e a meio do mês de setembro regressou para comandar e treinar um grupo de atiradores.

O atirador explica que o cenário encontrado na Ucrânia já é muito diferente, particularmente a nível da organização militar. Tudo é planeado ao milímetro, assegura. Do voo, à pessoa que o vai buscar, à rota secreta e protegida e conduzida por um colaborador. Tudo é feito com o maior dos profissionalismos. Chegado a Lviv, recebe uma credencial que o ajuda a ser diferenciado nos vários pontos de verificação que existem nas estradas ucranianas.

“Estou de volta à Ucrânia para as próximas operações ofensivas. A definição exata de minhas novas tarefas será esclarecida nos próximos dias e poderá ser expandida para além de assuntos relacionados a atiradores”, contou ao jornal espanhol no dia 19 de setembro.

O experiente militar acredita que a Ucrânia sofre por não ter profissionais de guerra suficientes, embora essa falha tenha vindo a ser colmatada pela abundância de coragem no país. Ainda assim, Wali sublinha: “A Ucrânia precisa de apoio a longo prazo, tanto militar quanto economicamente. Para mim, isso significa ajudar a melhorar o profissionalismo das forças armadas ucranianas”, reforça.  

O cenário é agora muito diferente de quando chegou. Nos primeiros dias de março, ninguém sabia bem onde estavam as tropas russas e que territórios elas já tinham conquistado. Muitos chegaram a pensar que Kiev estava prestes a cair. A missão de Wali e dos restantes voluntários estrangeiros era clara: defender a capital a todo o custo e impedir o avanço dos paraquedistas russos que tentavam decapitar a liderança ucraniana.

A situação agora é bem mais favorável para a Ucrânia, que demonstrou ter mais capacidades do que as que lhes eram atribuídas e já recuperaram muito do território perdido nos primeiros dias do conflito, particularmente a norte, em Kiev, Sumy e Chernihiv e, mais recentemente, na província de Kharkiv. Mas não foi só isso que mudou: para Wali, a Ucrânia já é um dos países com os melhores atiradores do mundo.

Vladimir Putin respondeu anunciando a mobilização de 300 mil soldados russos, embora o decreto que lhe garante a legalidade permita ao Kremlin levar milhões de cidadãos para o combate. Mas a Ucrânia não tem medo desta mobilização, explica Wali.

“Putin perdeu as suas armas. As suas melhores armas e os seus melhores soldados. Esta mobilização massiva é uma aposta elevada. Mas, por experiência, produzir soldados que possam ir à guerra leva tempo. A Ucrânia está vários meses à frente dele”, considera o voluntário canadiano.

A única certeza nessa estratégia é a de que resultará num maior número de mortos nos campos de batalha. Por isso é que Wali insiste que a chave para uma vitória ucraniana passa pela qualidade e não pela quantidade de soldados ucranianos. E é aí que o próprio Wali entra.

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