Zelensky diz que anexação dos territórios ucranianos "anula hipótese de diálogo" com Putin "durante anos"

4 nov, 11:32
Conferência de imprensa de Volodymyr Zelensky (EPA/SERGEY DOLZHENKO)

Presidente ucraniano diz ainda que invasão russa só mostrou a chantagem de Putin perante a comunidade internacional e que vai lutar "até ao fim para defender" o país. "Mas, sobretudo, devemos tentar salvar vidas"

Volodymyr Zelensky é peremptório. Em entrevista ao El Pais, o presidente ucraniano garante que não existem condições para conversações de paz com o lado russo, a menos que Putin reconheça que foi um erro invadir a Ucrânia e que as tropas russas se retirem imediatamente. 

O presidente ucraniano diz mesmo que "a gota de água, aquela [com] que [a Rússia] anula todas as possibilidades de diálogo, são os referendos de anexação", que considera que foram organizados de forma ilegal nas províncias de Donetsk, Lugansk, Zaporizhzhia e Kherson.

Kherson tem sido, nas últimas semanas, a cidade mais massacrada do conflito. Naquela que foi uma das primeiras cidades conquistadas pela Rússia está agora a assistir-se a uma substituição de civis por militares e já há quem desconfie que a saída russa "não deixa de parecer uma ratoeira".

"Se os russos se retirarem e reconhecerem que estão terrivelmente enganados, se é que se pode falar de erro perante tudo isto, então podemos encontrar uma forma de dialogar. Mas nós não vamos continuar a sacrificar milhares de vidas para desocupar o nosso território. Penso que isto impede o processo [de diálogo] durante anos", considerou Zelensky, na penumbra do bunker em Kiev, cidade que enfrenta os apagões programados gerados pelos recentes ataques russos à rede elétrica ucraniana.

Zelensky considera ainda que o futuro da Ucrânia passa pela sua adesão à União Europeia e que os países que têm sido ameaçados pela Rússia devem seguir esse caminho.

"A guerra começou porque a Rússia não nos considera um país independente, um país europeu. O mesmo se vai passar na Bielorrússia, onde as pessoas também querem ser independentes. Porque é que na Rússia se há-de decidir como se deve viver na Bielorrússia? Nem todos os países têm de passar por este calvários que estamos a viver e a Rússia não vai facilitar as coisas com a Bielorrússia, a Moldova ou a Geórgia. Espero que os líderes da UE não tenham medo", afirma, reconhecendo que dentro da UE há países que "não querem acelerar o processo" de integração.

Mas para Zelensky há uma coisa que é certa, apesar de considerar que acontece tarde: "A Ucrânia vai ser membro da UE e não quero dizer mais cedo ou mais tarde, porque considero que já é tarde".

"Que trouxe a Rússia? Chantagem"

"É importante destacar que esta é uma guerra da Ucrância contra a agressão russa. Nós somos um escudo, não fomos com armas nucleares, com mísseis guiados, com drones iranianos ou com tanques invadir terras alheias. Não violámos mulheres russas, crianças russas, não torturámos aldeias russas", afirmou.

Zelensky afirma ainda que, com o conflito, Vladimir Putin não tem feito nada mais do que "chantagem" com a comunidade internacional, como é o caso da América Latina e da Europa.

"É chantagem o que faz a Rússia. Cortar o transporte marítimo no mar Negro, por exemplo. A América Latina recebia muitas coisas da Ucrânia e nós também importávamos muitas coisas da América Latina. Eles interromperam essa relação comercial. Talvez agora a América Latina não tenha tanto déficit de trigo e cereais quanto os países africanos, mas com o tempo perceberão os efeitos”, afirma o presidente ucraniano, acrescentando que a Rússia "não pertence ao mundo civilizado: é uma organização terrorista dirigida por uma cabala".

O líder ucraniano volta a defender mais sanções para a Rússia que, na sua visão, "deve ser isolada até que entenda que tem os mesmos direitos do que o resto dos países".

"Se não querem ser democráticos no seu território, pelo menos têm de agir democraticamente com os outros países. Não precisam de impor a sua visão de mundo e de ordem sobre nós e o resto", atira Zelensky.

O presidente da Ucrânia termina a entrevista a questionar o que trouxe a Rússia ao país e à Europa com a guerra, que dura já há oito meses, para além de medo, migrantes, aumento de preços e combustíveis, fome e frio.

"Para além do medo, das ameaças, das migrações forçadas, do bloqueio do comércio agrário, do aumento dos preços, também do combustível, à margem das ameaças para a Europa e da Ucrânia de passarem frio este inverno, que trouxe a Rússia? Nós não aceitámos nenhum ultimato, como tão pouco quisemos perder parte do nosso terriório. Dissémos que lutaríamos até ao fim para defender o nosso lugar. Mas, sobretudo, devemos tentar salvar vidas". 

A Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro deste ano, mergulhando a Europa naquela que é considerada a crise de segurança mais grave desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). 

A invasão da Rússia causou já a fuga de mais de 13 milhões de pessoas da Ucrânia – mais de seis milhões de deslocados internos e mais de 7,5 milhões para os países europeus, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

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