Mais de 500 doentes nas urgências do São João pelo 2º dia consecutivo e a caminho do 3º: "Doentes graves estão em risco"

29 dez 2021, 11:48

O alerta é do diretor do serviço de Urgência e Medicina Intensiva, que avisa que não se pode continuar a divergir recursos humanos para doentes não urgentes

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Depois de mais de 600 doentes na segunda-feira e mais de 500 na terça, as urgências do hospital São João preparam-se para o terceiro dia consecutivo com números "absolutamente impensáveis" para a estrutura do serviço, alertou o seu diretor, Nélson Pereira, em entrevista à CNN Portugal.

Isto quer dizer que a assistência aos doentes realmente graves está, neste momento, comprometida, assumiu, ainda, o diretor do serviço de Urgência e Medicina Intensiva de um dos maiores hospitais do país.

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"Na segunda-feira tivemos 604 doentes, algo absolutamente impensável para a dimensão estrutural e de recursos humanos do serviço de urgência. Ontem [terça-feira] tivemos mais de 500 doentes e hoje [quarta-feira] estamos com uma afluência muito semelhante à de ontem e tudo leva a crer que vamos nesse sentido também. Estamos com um nível de afluência demasiado grande para que continuemos, de forma sustentável, ao longo dos dias e das semanas, a dar a melhor resposta aos doentes efetivamente urgentes. E isto verifica-se numa circunstância em que cerca de 40% dos doentes continuam a ser doentes não urgentes", alertou.

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A culpa é da covid-19, reconheceu, não tanto pelo número de doentes ou casos suspeitos, mas pelo facto de estes não conseguirem ser atendidos através da linha SNS24 ou nos centros de saúde.

"Na segunda-feira, dos 600 doentes, 250 foram doentes verdes e azuis, com queixas muitos simples, que não deviam estar aqui, mas que compreendemos que sentiram necessidade de vir aqui porque não tiveram resposta adequada noutros pontos de rede, nomeadamente no SNS24, que está com grandes dificuldades, ou nos cuidados de saúde primários, que têm a sua atenção neste momento divergida para o seguimento das cadeias de transmissão e o seguimento do contacto dos doentes positivos", apontou.

O problema não é de agora, mas não pode continuar a persistir, avisou Nélson Pereira.

"Fruto de uma disfunção crónica para a qual alertamos há muito tempo, mas que agudiza nos momentos de crise. Obviamente, neste momento, com recordes de casos diários estamos num desses momentos de crise em que a atenção dos profissionais é divergida para diferentes tarefas. E, portanto, está na altura de compartimentar as tarefas e nos centramos nos doentes mais graves porque esses sim necessitam de cuidados de saúde de forma urgente e premente", defendeu.

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Multiplicação de casos, multiplicação de doentes nas urgências

Perante a notícia da ministra da Saúde de que Portugal vai chegar aos 37.000 casos diários de covid-19 no final da primeira semana de janeiro, o médico intensivista antecipou também uma multiplicação de doentes nas urgências do São João.

"Vai certamente piorar a situação e daí a importância destes alertas, no sentido de estabelecer uma comunicação de crise com as pessoas e dizer-lhes exatamente o que fazer em circunstâncias concretas e que se a pessoa tiver sintomas ligeiros não deve de facto ir ao serviço de urgência. Porque se tivermos uma multiplicação de casos como esperamos nas próximas semanas vamos também assistir a uma multiplicação de pessoas com sintomas ligeiros no serviço de urgência e aí sim, se neste momento já estamos sob pressão e a achar que estamos a pôr em risco os doentes que precisam, dentro de uma semana ou duas não haverá condições para manter a atuação que se espera para os doentes que precisam", alertou uma vez mais.

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Nélson Pereira insistiu nos alertas, sobretudo para que as pessoas compreendam o que está em causa quando se dirigem às urgências de um hospital sem necessidade, até porque os doentes graves que atendem "são de todas as patologias".

"A missão de um serviço de urgência é dar atenção e tratamento adequado aos doentes graves. Mas todos os recursos na saúde, como noutras áreas, são  finitos e temos de ser capazes de priorizar os doentes que mais beneficiam dessa atividade de saúde. Nos serviços de urgência temos de dar atenção aos doentes mais graves. Se a atenção da estrutura, dos recursos humanos e da organização é divergida para doentes não graves estamos naturalmente a pôr em causa e em risco os doentes graves", sublinhou.

O diretor do serviço de Urgência e Medicina Intensiva do São João apontou, ainda, o dedo às autoridades de saúde, que deveriam estar a atuar consoante as necessidades.

"Acho que a estratégia tem de ser sempre adaptada ao momento. E quem detém essa informação, que é a Direção-Geral da Saúde e o Ministério da Saúde, perante um momento em que os serviços de apoio, seja da linha SNS24 seja da saúde pública, para fazer os rastreamentos necessários, já não são capazes, mais vale redefinir a estratégia global. Se é isso que está a acontecer, significa que não estamos a tratar bem nem os doentes covid nem os doentes não covid."

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