É desta forma que o cérebro reconhece os objetos. E foram portugueses a descobri-lo

30 dez 2023, 08:00
Cérebro

Equipa da Universidade de Coimbra dá “um passo grande para o reconhecimento de objetos” e mostra como o cérebro consegue catalogar coisas consoante a forma, o espaço que ocupa e o uso

Quando olhamos para uma faca, sabemos que é um objeto manuseável e que corta. Quando olhamos para uma tesoura, idem. Quando olhamos para uma caneca, sabemos que é igualmente manuseável e que, com ela, podem juntar algo para saciar a sede. Quando olhamos para uma bola de basquetebol, sabemos que é redonda como tantas outras, mas que é usada com as mãos. E sabemos tudo isso porque o nosso espaço mental “está organizado em dimensões” e essas dimensões ajudam o cérebro a “reconhecer e a organizar” informação sobre objetos, determinando o comportamento humano em relação a coisas.

A descoberta partiu de uma investigação de Jorge Almeida, docente e investigador da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da UC (FPCEUC), e os resultados foram agora publicados na Communications Biology, publicação do grupo da conceituada Nature. Segundo o investigador, este estudo permitiu perceber que “o modo como pensamos objetos acontece porque usamos esse espaço mental multidimensional” para alocar o que sabemos sobre cada objeto, juntando-o a outros de características semelhantes, “o que nos leva a conhecer rapidamente os objetos”.

Imagine que pergunto o quão semelhante é uma faca e uma tesoura. A maneira como fazemos isto, como comparamos, ocorre no nosso espaço mental, vamos percorrer esse espaço mental e ver qual a distância entre a tesoura e a faca. E este espaço está organizado em dimensões, se [o objeto] corta ou se não corta, se é de metal ou não, se agarramos com o polegar e o indicador, se agarramos com a zona palmar, se é grande ou pequeno”, começa por explicar à CNN Portugal. 

Para chegar a esta conclusão, a equipa de Jorge Almeida analisou 400 participantes, entre os 18 e os 41 anos de idade. A cada um deles foram mostrados 80 objetos comuns ao dia-a-dia, sobretudo ferramentas, tendo realizado tarefas comportamentais com alguns deles. Depois, os participantes foram submetidos a uma ressonância magnética e foi neste momento que se tornou possível perceber como é que a magia acontece no nosso cérebro.

“Sabemos que, tanto neural como mentalmente, parece haver uma organização [de imagens] que segue categorias. Numa ressonância magnética, depois de mostrar imagens de animais, caras ou ferramentas ou grandes monumentos, todas estas coisas vão levar a ativações mais específicas em diferentes partes do cérebro. Parece que está organizado por algumas categorias”, explica. E são essas categorias que preenchem as várias dimensões que permitem que o cérebro reconheça um objeto e, ao vê-lo, consiga logo saber como o usar.

Jorge Almeida explica que este projeto “tem como objetivo principal mostrar que o modo como esta informação está organizada é igual ao modo como a informação sensorial está organizada, o chamado mapa retinotópico”. Neste caso, adianta, “objetos semelhantes estão próximos no mapa topográfico”, revelando que, com o estudo, “estamos a demonstrar que também temos mapas contentópicos, de conteúdo, em que objetos que são alongados estão mais próximos [mentalmente] de outros de forma ou dimensão semelhante, e vão levar a resposta mais próximas do que os arredondados. Temos o mapa [cerebral] para alongamento, para o modo como o agarramos, entre outros”.

Para o investigador, o meio envolvente tem também um papel na forma como reconhecemos e catalogamos os objetos, não sendo necessário vê-los e tocá-los para os conhecer e reconhecer. “É possível saber que o elefante é grande sem nunca o ter visto ao vivo. Há informações que nos permitem ter essa relação de tamanho porque há referência, mas às vezes basta ouvir que é enorme. Há coisas que são derivadas do que vimos, do estímulo, noutras é preciso conhecimento. Há dimensões que serão menos extraídas do estímulo visual”, exemplifica, mostrando que todo o processo de recolha e catalogação de informação que o nosso cérebro faz é bem mais aprimorado e complexo do que parece, o que poderá dar azo a novos estudos sobre o tema e até a ferramentas de inteligência artificial que pretendam imitar o comportamento humano.

Isto é um passo grande para o reconhecimento de objetos e quanto mais soubermos sobre isto, mais fácil podemos implantar num modelo de Inteligência Artificial”, atira.

O estudo foi financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (European Research Council, com a sigla em inglês ERC), no âmbito do projeto científico ContentMAP, liderado por Jorge Almeida.

 

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