Golo fora: ao fim de um ano, quem se lembra dele?

5 mai, 09:26
Benzema aponta para Paris

Pela antiga regra, o segundo golo de Rodrygo teria dado desde logo a eliminatória ao Real Madrid. Em vez disso, deu-nos mais 30 minutos de um jogo épico. Ideias sobre a mudança nas provas da UEFA, com a ajuda de quem esteve lá dentro

Quando Rodrygo marcou o segundo do Real Madrid frente ao Manchester City no início dos descontos, um minuto e meio depois do primeiro, quem se lembrou que há um ano aquele golo sentenciaria a eliminatória? A abolição da regra do golo fora significou que, em vez disso, estava tudo empatado: 5 golos para cada lado, todos a valerem o mesmo. Por isso, o mundo teve direito a mais 30 minutos daquela eliminatória épica.

Está a chegar ao fim a primeira temporada em que o golo como visitante deixou de valer mais nas competições europeias e esse foi um dos poucos casos em que a situação se colocou na prática depois das fases de grupos das três provas da época. Quando faltam completar-se as meias-finais da Liga Europa e da Conference League, foram quatro até agora e um deles envolveu o Sp. Braga: o golo de David Carmo em Ibrox, aos 83 minutos da segunda mão dos quartos de final da Liga Europa, colocaria o Sp. Braga em posição de passar a eliminatória de acordo com a regra anterior. Todos esses casos redundaram num prolongamento em que a equipa da casa acabou por levar a melhor.

Esta época, entre Liga dos Campeões e Liga Europa (neste caso ainda sem a decisão das meias-finais), já se jogaram seis prolongamentos, mais do que em qualquer uma das cinco épocas anteriores. A esses, somam-se mais dois, para já, na Conference League. Essa era uma consequência que muitos anteciparam e pode de facto tornar-se uma tendência. E levanta outra questão, também colocada por várias vezes no debate, que provavelmente continuará a dividir opiniões, sobre as vantagens ou desvantagens da mudança. Ao invés do que acontecia antes, jogar 30 minutos extra em casa pode ser uma vantagem adicional.

Os jogos decididos pelo golo fora não representaram ao longo dos anos uma percentagem significativa das decisões de eliminatórias europeias. Na última temporada, foram determinantes por três vezes em 44 jogos, e nos anos mais recentes a percentagem não variou muito. Perante as eliminatórias desta época, a alteração também não parece estar a afetar aquela que é a essência do jogo: a incerteza continua lá bem presente, com reviravoltas épicas a atestá-lo. Mas parece claro que a alteração da regra de desempate muda a dinâmica das eliminatórias. De que forma, ou com que impacto, ainda é cedo para conclusões definitivas.

É essa a opinião do treinador Jorge Simão, que viveu do banco duas pré-eliminatórias no arranque da primeira temporada desde a abolição da regra pela UEFA. «A amostra deste ano ainda é muito reduzida para se tirar uma conclusão sobre como as coisas podem realmente funcionar. Agora, para mim um ponto é claro. Vai mudar, e já mudou, a abordagem, sobretudo para os jogos da segunda mão. E mesmo para os da primeira, porque a importância de sofrer um golo em casa dilui-se», observa ao Maisfutebol o treinador que em agosto orientou o Paços de Ferreira na terceira pré-eliminatória e no play-off da nova Conference League, já depois de o Santa Clara ter entrado na segunda ronda de qualificação e ter chegado também ao play-off.

O Paços começou por superar o Larne, vencendo por 4-0 em casa na primeira mão e confirmando na Irlanda do Norte, apesar da derrota por 1-0. Depois enfrentou o Tottenham e começou por ganhar, também em casa, por 1-0. Foi um resultado marcante, frente a uma equipa que, mesmo sem as principais opções na Mata Real, é teoricamente de outra dimensão. Mas Jorge Simão diz que a abordagem do Paços a esse jogo não foi mais descontraída por estar livre do «fantasma» de tentar impedir que o adversário marcasse fora. «Não. No jogo da primeira mão é preciso cautela e segurança, para lutar por um bom resultado naquela que é a primeira metade de uma eliminatória», afirma. A mudança da regra, na sua opinião, pode influenciar mais a estratégia no jogo da segunda mão: «Para mim, é o jogo da segunda mão que sofre muito maior influência, porque já trazemos o resultado da primeira. Aí é que dá para jogar em função do resultado.»

Menos pressão sobre quem decide em casa?

Mas de forma diferente do que com a regra anterior, nota. «Agora, perde-se a capacidade de na segunda mão, sendo fora, termos vantagem se marcarmos um golo.» De novo o exemplo do Paços, que foi eliminado em Londres, onde perdeu por 3-0: «Com o Tottenham, nós trazíamos o 1-0 da primeira mão. Se marcássemos um golo fora e contasse mais em caso de igualdade, seria uma grande vantagem. Eles já teriam de fazer três.»

«Acho que a mudança influencia mais o jogo da segunda mão. Beneficia provavelmente quem joga em casa, porque jogando fora a segunda mão, perdemos a capacidade de fazendo um golo decidir a eliminatória», analisa. Carlos Carvalhal, que liderou o Sp. Braga na campanha até aos quartos de final da Liga Europa, também se pronunciou em várias ocasiões sobre a mudança, acreditando que ela proporciona jogos mais abertos, porque «as equipas têm de jogar de peito feito nas duas mãos», e considerando igualmente que há uma tendência para aliviar pressão sobre a equipa que decide em casa. «A nova regra da UEFA favorece a equipa que está em desvantagem. Antes um golo valia por dois, agora não», disse.

No caso do Sp. Braga, essa lógica verificou-se por duas vezes, a seu favor com o Sheriff e contra no caso da decisão em Glasgow. Mas nos oitavos de final não, uma vez que os arsenalistas confirmaram no Mónaco a vitória que traziam de casa. Além disso, no play-off o Sp. Braga foi mesmo a única das oito equipas a apurar-se depois de perder a primeira mão.  

Há inúmeros fatores a determinar um jogo, e ainda mais uma eliminatória. E a alteração da regra pode mudar a dinâmica das decisões de várias formas. Um exemplo em sentido oposto, deixado por José Mourinho, que recorreu à eliminatória dos oitavos da Champions entre Benfica e Ajax quando lhe perguntaram a opinião sobre a alteração. «Não sei se é melhor ou pior. Mas definitivamente pode mudar a dinâmica dos jogos», disse o treinador português da Roma: «Por exemplo, na Liga dos Campeões o Ajax conseguiu um bom empate na primeira mão em Lisboa. Mas esse empate ainda significava que o Benfica poderia ir a Amesterdão sem ter de marcar para chegar aos quartos de final. Eles conseguiram abordar o jogo de uma maneira diferente, sem precisar de arriscar tudo», acrescentou.

A redução da diferença, segundo a UEFA

A abolição da regra, que estava em vigor desde 1965, já era debatida há vários anos e defendida por vários treinadores de topo, de Alex Ferguson a Arséne Wenger. Em junho de 2021 a UEFA decidiu avançar com a mudança, divulgando dados a reforçar a ideia de que a vantagem de jogar em casa se diluiu ao longo dos anos, a reboque de vários fatores, como melhores condições dos terrenos de jogo, de preparação das equipas ou da qualidade das viagens. «Estatísticas de meados dos anos 70 até agora mostram uma clara tendência para a redução contínua da diferença entre o número de vitórias em casa e fora», dizia a UEFA, acrescentando que esse valor tinha passado de 61 para 47 por cento no caso das vitórias em casa e de 19 para 30 por cento no que diz respeito aos triunfos das equipas visitantes. O mesmo valia para o número médio de golos marcados fora e em casa (de 2.02/0.95 para 1.58/1.15).

Ainda assim, como nota Jorge Simão, continua a não ser igual jogar em casa ou fora. «Estatisticamente a diferença continua a ser bastante significativa», nota, apontando fatores diversos, incluindo no que diz respeito aos terrenos de jogo: «Nós por exemplo em casa do Larne jogámos em sintético. A Roma jogou em sintético já numa fase adiantada da competição. Há sempre a desvantagem de jogar fora. Principalmente, para mim, tem sempre a ver com o ambiente. Isso nunca se vai conseguir equiparar. Jogando fora nunca vamos conseguir trazer o mesmo número de pessoas do que quando jogamos em casa.»

No topo da pirâmide, com equipas mais fortes a todos os níveis, essa diferença parece ter tendência a diluir-se. Na Liga dos Campeões, esta época, das 14 eliminatórias disputadas entre os oitavos e as meias-finais, a equipa que fechou em casa levou a melhor em metade das ocasiões. Curiosamente, bem menos do que há um ano, quando só não se apuraram três das 14 equipas que jogaram em casa a segunda mão.

Quanto à ideia, também defendida pela UEFA, de que a nova regra poderia incentivar jogos mais abertos, precisa também de mais tempo para ser aferida. Para já, olhando para o indicador dos golos, limitativo mas quantificável, a fase a eliminar da Liga dos Campeões não se destacou esta época. Olhando para as últimas cinco temporadas, e descontando a época de 19/20, com formato alterado pela pandemia, só em 20/21 se marcaram menos golos nesta fase do que os 82 da atual temporada. 

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