PCP usa "desculpa esfarrapada" e "irrealismo" contra discurso de Zelensky no Parlamento

6 abr 2022, 21:19
Comício do 101.º aniversário do PCP, no Campo Pequeno, em Lisboa (Mário Cruz/ Lusa)

Politólogos analisam os argumentos utilizados pelos comunistas na oposição ao convite da Assembleia da República. As posições do PCP sobre a invasão russa da Ucrânia têm suscitado críticas desde o início da guerra. Os especialistas sublinham "uma nostalgia da União Soviética" e avisam que estas ideias fragilizam não só o crescimento do partido como a própria manutenção do eleitorado

Volodymyr Zelensky vai discursar no Parlamento português, em princípio na semana a seguir à Páscoa e "mediante a disponibilidade do presidente ucraniano", mas a aprovação desta sessão - proposta pelo PAN - ficou marcada por um "lapso" e voltou a deixar o PCP numa posição isolada no que toca à guerra na Ucrânia. É que a decisão foi inicialmente anunciada pelo PAN como uma aprovação por unanimidade mas depressa a informação acabou por ser corrigida: afinal, os comunistas não tinham acompanhado os restantes partidos e tinham votado contra.

"Não ficou claro para nós que tinha havido essa posição. Evidentemente, lamentamos o lapso na informação veiculada relação à posição do PCP, que foi única e exclusivamente da nossa responsabilidade", esclareceu aos jornalistas Inês Sousa Real.

As explicações do PCP para o voto contra surgiram logo de seguida pela voz da líder parlamentar, Paula Santos.  A deputada começou por dizer que as sessões com chefes de Estado na Assembleia da República “têm sido limitadas e na sequência de visitas institucionais ao nosso país”, mas para o politólogo André Freire esta justificação não é mais do que uma “desculpa esfarrapada”. Apesar de ser verdade que os discursos de chefes de Estado no Parlamento têm ocorrido em contexto de visitas oficiais, para o professor de Ciência Política o PCP está a “refugiar-se numa formalidade que não tem sentido nenhum”, porque “esta é uma situação excecional”. "Abrem-se exceções para situações excecionais. A Ucrânia foi invadida e o presidente não pode propriamente entrar e sair. Zelensky falou em todos os parlamentos através de videoconferência.”

Com efeito, o presidente ucraniano já discursou por videoconferência em 20 parlamentos, dentro e fora da Europa, incluindo em países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França e Reino Unido, e até já quebrou algumas "tradições". No caso do Reino Unido, por exemplo, foi a primeira vez que um líder estrangeiro fez uma intervenção na Câmara dos Comuns.

O politólogo José Adelino Maltez sublinha que "estas ‘viagens’ de Zelensky pelos parlamentos são uma novidade" e, por isso, não é compreensível que o PCP utilize “argumentos formais para algo que não tem precedentes”. "Isto nunca aconteceu, é uma novidade. No parlamento britânico, onde é proibido palmas, ele recebeu palmas por unanimidade.”

Posições dos comunistas “atingem um nível de caricatura”

Mas houve ainda um segundo argumento utilizado pelo PCP neste voto contra. Os comunistas consideram que Zelensky tem tido "um conjunto de posicionamentos numa lógica de confrontação" e que "a Assembleia da República enquanto órgão de soberania" deve assumir o “papel” de "não contribuir para a escalada da guerra". André Freire fala em "irrealismo". "Defender um pacifismo extremo é uma coisa deslocada da realidade. É irrealismo perante um país que está a ser barbaramente invadido. Numa situação destas seria inconcebível não apoiar militarmente o invadido.” Por isso, o politólogo é perentório: “O PCP não fica bem nesta situação, é uma situação que o prejudica”.

As posições do PCP sobre a guerra têm sido alvo de críticas praticamente desde o início da invasão. De resto, o partido liderado por Jerónimo de Sousa foi a única força política em Portugal a não condenar de forma clara a invasão da Ucrânia, entendendo que estão em causa “décadas de política de tensão e confrontação dos Estados Unidos e da NATO contra Moscovo".  André Freire salienta que este é um “pensamento típico da Guerra Fria” que resulta de uma “agenda não atualizada e congelada”.“Esse modo de pensar dos tempos da Guerra da Fria e do ‘anti-americano’ traduz algo que o PCP nunca ultrapassou: a nostalgia da União Soviética.” O professor vai mais longe: “Essa agenda não ajuda o partido a crescer, nem sequer a manter o seu próprio eleitorado”.

Na mesma linha, José Adelino Maltez frisa que as posições comunistas em relação à guerra “atingem um nível de caricatura”. No entanto, o politólogo considera que ainda é cedo para perceber as suas consequências no eleitorado. O investigador lembra que há vários fatores em jogo que podem alterar o curso dos acontecimentos. "Se fossemos agora a eleições podíamos medir isso. A longo prazo, vai depender da duração da guerra e das mudanças da opinião publica face à guerra.”

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