Um partido "órfão" à procura de uma referência contra o "imperialismo americano": porque foi o PCP o único partido português a colocar-se do lado da Rússia?

23 fev, 07:00
CDU: Jerónimo de Sousa durante uma ação de campanha na Maia

Com os partidos comunistas a perder influência no ocidente, há a tentação de olhar para o berço desse projeto político como uma forma de reerguê-lo. Só que, na Rússia atual, Putin não será o herdeiro dessa ideologia, por muito que seja visto como um dos principais opositores à hegemonia norte-americana. Este é o retrato feito por dois historiadores e um politólogo

A posição do PCP sobre o conflito russo-ucraniano chegou em forma de comunicado. Para os comunistas, os últimos desenvolvimentos são “inseparáveis de décadas de política de tensão e crescente confrontação dos EUA e da NATO contra a Federação Russa”. Denuncia-se uma “perigosa estratégia de tensão e propaganda belicista promovida pelos EUA, a NATO e a União Europeia”.

E, com estas palavras, o PCP acaba por se posicionar num lado diferente dos demais partidos portugueses. Posiciona-se do lado russo, ao contrário dos restantes partidos nacionais, que vieram publicamente condenar o reconhecimento da independência das regiões de Donetsk e Lugansk – um passo que pode espoletar um conflito armado.

“Quando alguns demonstram agora a sua preocupação com os acordos de Minsk, assinados há sete anos, é importante ter presente que o regime ucraniano não só nunca os cumpriu, inclusive de forma assumida, como impediu a concretização de uma solução política para o conflito no Donbass”, escrevem os comunistas.

E lança-se a questão: porque está o PCP num lado diferente do dos restantes partidos? Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal – dois historiadores e um politólogo – convergem numa ideia: a Rússia representa uma oposição ao imperialismo norte-americano, capitalista por natureza e oposto aos ideais comunistas. Mas já lá vamos.

Conflito armado está latente no leste europeu (Vadim Ghirda / AP Photo)

Rússia e Putin: a imagem do desafio ao capitalismo norte-americano

Primeiro é preciso perceber se existe uma relação privilegiada entre o PCP e a Rússia. Os historiadores Manuel Loff e João Madeira e o politólogo António Costa Pinto usam a mesma expressão para dar a resposta: “não haverá relação nenhuma”.

É na Rússia que estão as origens do comunismo e de oposição ao capitalismo protagonizado pelos Estados Unidos da América. É como se a Guerra Fria nunca tivesse acabado, mesmo depois do colapso da antiga URSS. “Creio que se trata de encontrar na Europa de Leste e na Rússia um contrapeso à influência norte-americana”, resume João Madeira.

“O que os comunistas fazem é centrar a sua crítica no Ocidente”, completa Manuel Loff, lembrando que há outros partidos que criticam a postura da NATO, encabeçada pelos americanos. No fundo, para mostrar a “total duplicidade de critérios”. Porque se fossem estes a invadir outros territórios – como aconteceu no Iraque, por exemplo – não se geraria o mesmo burburinho e a mesma escalada de sanções, diz.

Já o politólogo António Costa Pinto completa este retrato: “remete para um modelo de Guerra Fria, sempre desconfiado do modelo imperialista norte-americano”.

Historiadores recordam que Putin não representa os valores do movimento comunista dos tempos da URSS (Alexei Nikolsky / AP Photo)

Um partido órfão e um herdeiro ‘ilegítimo’

Num mundo onde os partidos comunistas têm vindo a perder influência, em especial no ocidente, olhar para o berço da ideologia continua a ser uma zona de conforto. “É como se o atual regime russo fosse um derivado, uma continuação do sistema soviético. Há uma certa orfandade em relação ao movimento comunista internacional, que deixou de existir”, afirma João Madeira.

E, com essa orfandade, há um trabalho de recuperação do projeto político comunista e dos seus ideais. “O Partido Comunista e outras forças de esquerda à escala internacional continuam a perceber bem o peso histórico que tem o fim da URSS e aquilo que foi a construção de uma hegemonia dos Estados Unidos”, diz Manuel Loff.

Nos últimos anos, o PCP tem evitado críticas às políticas de Vladimir Putin, preferindo o silêncio quando é questionado sobre este protagonista. Mas os especialistas alertam, desde logo, que o atual presidente russo não é o melhor representante dessa empreitada coletiva de reerguer o comunismo. Antes pelo contrário: Putin não é um “neossoviético” – como fez questão de reforçar no anúncio desta segunda-feira, antes de reconhecer a independência das duas regiões – e tem mesmo grande proximidade a forças de extrema-direita, como o húngaro Viktor Orbán.

“É um pouco paradoxal, porque na Rússia as várias forças políticas que se mostram herdeiras [dessa ideologia soviética] trabalham na oposição”, destaca João Madeira. E António Costa Pinto completa: “é um legado do passado, porque a Rússia atual de Putin não tem qualquer relação privilegiada com o que resta dos partidos comunistas da Europa ocidental”.

Partido liderado por Jerónimo de Sousa não quis dar explicações adicionais (Tiago Petinga/Lusa)

“Imperialismo”, a palavra que entra no comunicado

A CNN Portugal contactou o PCP, no sentido de obter uma visão do partido nesta matéria. Fonte oficial remeteu para o comunicado, rejeitando comentários adicionais. Mas, nesse texto, acabam por surgir expressões que convergem com o retrato feito pelos especialistas, com destaque para a palavra “imperialismo”.

Nesse documento, o partido liderado por Jerónimo de Sousa apela a uma “solução pacífica dos conflitos internacionais, pelo fim das agressões e ingerências do imperialismo, pela rejeição do alargamento da NATO e pela sua dissolução, contra a militarização da União Europeia, pelos princípios de paz e desarmamento inscritos na Constituição da República Portuguesa”.

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