Investigadores transplantam corações de porco geneticamente modificados em pacientes com morte cerebral

CNN , Neeraj G. Patel e Virginia Langmaid
16 jul, 17:00
Lawrence Kelly e Alice Michael (CNN)

Lawrence Kelly e Alice Michael foram um casal durante 33 anos. Depois de ter sido declarada morte cerebral no veterano da Marinha, uma equipa da NYU Langone Health transplantou um coração de porco geneticamente modificado para o seu corpo

Uma equipa cirúrgica transplantou um coração de um porco geneticamente modificado para o corpo de um ser humano em morte cerebral no âmbito de um estudo de investigação, anunciaram na terça-feira os investigadores da NYU Langone Health.

Este foi o primeiro procedimento do género alguma vez realizado e representa um avanço nos esforços para determinar se os órgãos em animais não-humanos podem ser modificados e utilizados com sucesso em humanos que necessitam de um transplante.

Aos 72 anos, Lawrence Kelly, natural da Pensilvânia, Estados Unidos, foi diagnosticado com morte cerebral. A sua família decidiu doar o corpo de Kelly para este estudo em específico, que tinha como objetivo investigar o funcionamento do coração de um porco modificado no corpo de ser um humano morto.

Após o transplante de Lawrence Kelly, em junho, a equipa de investigação repetiu o procedimento com outro corpo - desta vez o de Alva Capuano, um homem de 64 anos, natural de Nova Iorque.

Estes transplantes foram realizados no seguimento de um procedimento desenvolvido por investigadores da Universidade de Maryland, em janeiro, que transplantaram um coração de porco para um ser humano vivo. Esse recetor acabou por morrer em março.

Robert Montgomery, diretor do NYU Langone Transplant Institute, salientou que estes procedimentos permitiram um estudo mais aprofundado da forma como os corpos dos recetores toleram os corações de porco.

“Podemos fazer uma monitorização muito mais frequente, compreender realmente a biologia e preencher todas as lacunas”, disse.

O responsável acrescentou que este é um estudo sem precedentes, uma vez que os investigadores tentaram replicar as condições do mundo real, sem utilizar dispositivos e medicamentos experimentais, por exemplo.

Os investigadores estão a trabalhar na publicação de mais detalhes sobre este estudo.

“Ele partiu como um herói”

Os investigadores tiveram de viajar para fora do Estado para obter o coração, que tinha modificações genéticas com determinados objetivos, tais como a modulação do crescimento do órgão e a redução da hipótese de o sistema imunitário do recetor o rejeitar.

O voo permitiu à equipa replicar as condições de um transplante típico de coração, revelou Nader Moazami, diretor cirúrgico de transplantes cardíacos na NYU Langone Health, que realizou o transplante: “Estava a cerca de uma hora e 15 minutos de voo de Nova Iorque, que é a distância habitual de quando transportamos os corações para o transplante clínico."

O coração foi transplantado para Lawrence Kelly, um veterano da Marinha que foi declarado doente de morte cerebral após um acidente de viação. A noiva de Kelly, Alice Michael, autorizou a doação do seu corpo à investigação.

“Eles iam tirar-lhe o fígado, mas não conseguiram encontrar um recetor. Depois, a Universidade de Nova Iorque telefonou-me com esta questão da pesquisa. E eu disse logo que sim, porque sei que ele o aceitaria. Ele gostava de ajudar as pessoas”, recorda.

“Quando me perguntaram, nem tive de pensar duas vezes sobre isso. Disse logo imediatamente que sim, porque sabia que esta era uma pesquisa revolucionária, e sei que ele desejaria participar, se lhe fosse dada essa opção. Foi difícil, porque tive de esperar para realizar a cerimónia fúnebre, mas, a longo prazo, talvez ele possa vir a ajudar muita gente", acrescenta, lembrando o noivo como "um herói em vida, que partiu também como um herói".

Após o transplante, os investigadores realizaram vários testes durante três dias para monitorizar o coração, enquanto o corpo do recetor era mantido com vida através do uso de máquinas, incluindo ventilação.

“Não foram observados sinais de rejeição precoce e o coração funcionou normalmente com medicamentos padrão pós-transplante e sem apoio mecânico adicional”, informou o centro médico, em comunicado.

Além disso, os investigadores disseram não encontrar sinais de infeção com citomegalovírus porcino (pCMV), algo que preocupava os especialistas porque poderia constituir um obstáculo à utilização de órgãos de suínos em recetores humanos.

Um novo método para a investigação de transplantes

Nader Moazami salienta que este é um novo método de estudo para a investigação de transplantes. A primeira utilização desta técnica para investigação aconteceu em setembro, quando uma equipa da NYU Langone, liderada por Montgomery, transplantou um rim de um porco geneticamente modificado para um cadáver.

Embora este estudo represente um novo passo para a ciência, Moazami reconhece que ainda há trabalho a desenvolver antes deste procedimento ser amplamente disponibilizado fora de um ambiente de investigação.

“Há ainda um longo caminho a percorrer antes de passarmos daqui para o transplante clínico para apoiar um paciente a longo prazo. Ainda há muitas, muitas, muitas perguntas para as quais precisamos de obter respostas", disse.

Uma limitação importante prende-se com a duração do estudo. Isto porque o órgão e o recetor foram avaliados durante apenas 72 horas após o transplante. Além disso, poderia haver diferenças importantes na forma como os corpos humanos mortos respondem ao procedimento, em comparação com os humanos vivos. Será necessária mais investigação para determinar como os recetores de transplante se comportariam a longo prazo.

“Achámos que em 72 horas, poderíamos aprender todas as coisas necessárias para que tivéssemos prolongado isto um pouco mais”, admitiu Moazami, ressalvando que o curto período de tempo limitou as despesas do estudo e permitiu que o corpo do recetor fosse devolvido à sua família o mais rapidamente possível.

“Acreditámos que este era um período razoável para o nosso estudo de curto prazo, para compreender tudo o que precisávamos - que três ou cinco ou sete dias não fariam diferença. Será que três dias em vez de um mês fariam a diferença? Sim, completamente. Mas nesta fase, isso teria sido muito, muito difícil de conseguir", acrescentou.

A transplantação de órgãos animais em humanos levanta também uma série de outras questões éticas, tais como se os benefícios da utilização de um coração de porco modificado superam os riscos que um paciente enfrentaria se, em vez disso, esperasse que um órgão humano ficasse disponível.

Ligação pessoal e uma nova fronteira

Para Montgomery, esta investigação tem um lado pessoal, pois ele próprio é um recetor de um transplante de coração humano, e admitiu que a dificuldade em assegurar um transplante faz parte daquilo que motiva o seu trabalho.

“Durante a minha doença, tornou-se claro para mim que este paradigma não está a funcionar. É um paradigma com falhas, e precisamos de um recurso renovável, uma fonte alternativa de órgãos, que não exija que alguém morra para que outra pessoa possa viver”, lamentou.

“Toda a minha doença esteve relacionada com este assunto, fez com que percebesse esta realidade e mudou a forma como penso. Não que não seja importante continuar a fazer o que estamos a fazer, mas temos de seguir uma direção completamente diferente", acrescentou o médico.

Geralmente, a procura de transplantes de órgãos supera de longe a oferta de órgãos de dadores disponíveis nos Estados Unidos. Desde 7 de julho, 106.074 pessoas estão na lista de espera para transplante de órgãos, dos quais 3.442 estão na lista de espera para transplante de coração. Em média, 17 pessoas morrem diariamente na lista de espera para transplante de órgãos.

Moazami sugeriu que os transplantes de animais poderão um dia ser úteis no contexto pediátrico, onde os pacientes podem enfrentar desafios ainda maiores para obter um transplante de órgãos humanos a tempo. Os órgãos de animais poderão vir a ser utilizados como uma “ponte”, oferecendo mais tempo até que um órgão humano fique disponível.

“Talvez a melhor maneira de estudar esta questão seja eventualmente usá-lo como ponte para um transplante humano, por exemplo, para que qualquer paciente que esteja a precisar de um órgão obtenha este coração com a advertência de que quando um coração humano compatível com o recetor ficar disponível, nós voltamos a trocá-lo,” concluiu.

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