A "Catedral Subterrânea" que protege de inundações a maior metrópole do mundo

15 jan, 12:30

A norte de Tóquio, um túnel, cisternas gigantescas, um enorme tanque e bombas feitas a partir de turbinas de aviões protegem a cidade das cheias que eram frequentes

À beira do Rio Edo, na cidade de Kasukabe, a norte de Tóquio, há um campo de futebol com as linhas desbotadas, e sem relva no miolo do terreno. A julgar pelas marcas de desgaste do campo, as equipas amadoras que fazem ali os seus jogos atacam sobretudo pelo meio, e fazem pouco uso das alas - talvez porque os jogadores ocasionais não tenham fôlego para aproveitar, ao longo de 90 minutos, todo o espaço de um campo com as medidas regulamentares da FIFA, como este.

O campo de futebol foi uma forma de aproveitar o amplo terreno livre entre um edifício de tijolo castanho, que fica atrás da baliza norte, e uma construção circular, como se fosse uma grande rotunda, atrás da baliza sul. 

Apesar de ser longe de tudo, a cerca de uma hora de viagem desde Tóquio, e a meia hora de caminhada desde a estação de comboio mais próxima por estradas de província sem interesse nenhum, aparecem por aqui muitos turistas. 

Não vêm para praticar “sakkā” (como se chama por aqui o futebol, numa versão muito japonesa da palavra inglesa “soccer”) no campo meio-pelado. Também não vêm para apreciar o contorno do Monte Fuji, que se vê daqui perfeitamente recortado no horizonte em dias sem nebulosidade. Os turistas vêm para apreciar… o que está debaixo do campo de futebol.

Estamos em Saitama, a prefeitura a norte da capital do Japão, que faz parte da área metropolitana de Tóquio. O Google Maps identifica este insuspeito campo de futebol de forma pomposa: “Underground Temple - atração turística”. O dito “Templo Subterrâneo”, que é mais conhecido como “Catedral Subterrânea”, tornou-se no mais improvável cartaz turístico dos arredores de Tóquio.

A “Catedral Subterrânea” é a peça mais impressionante de um complexo sistema de prevenção de inundações conhecido como o Canal de Drenagem Subterrânea da Área Metropolitana Exterior. Esta é a principal linha de defesa da maior metrópole do mundo em relação a cheias provocadas por tufões ou pelas chuvas muito intensas e repentinas que costumam assolar o país. 

O Japão é um dos países mais húmidos do mundo, e Tóquio está localizada numa planície atravessada por cinco grandes rios e inúmeros rios mais pequenos, ribeiras e canais. A bacia formada entre os rios Nakagawa e Ayase é atingida por cheias frequentes desde tempos imemoriais, tanto quando estes rios transbordavam, como quando isso acontecia com os grandes rios vizinhos, como o Edo, o Tone ou o Arakawa. O facto de o terreno ser praticamente plano, com uma inclinação quase imperceptível até à baía de Tóquio, agravou ainda mais o longo historial de inundações de toda esta região, incluindo zonas altamente povoadas da capital.

A falta que fazem os campos de arroz

Tufões e chuvas muito intensas são comuns por aqui, e facilmente os rios de Tóquio se transformam em correntes incontroláveis de água e lama que levam tudo pela frente. A rápida e muito densa urbanização de Tóquio após a destruição da II Guerra Mundial tornou mais problemático aquilo que já era um problema: conforme a cidade cresceu, criando uma malha urbana ininterrupta onde vivem, hoje, 37 milhões de pessoas, a paisagem transformou-se radicalmente - muitos dos campos de arroz que ao longo de séculos rodeavam a cidade desapareceram para dar lugar a edifícios de habitação e serviços.

Os campos de arroz, e outros terrenos agrícolas, eram uma forma natural de reter água em excesso e retardar as correntes quando ocorriam cheias; com a urbanização intensa, essas barreiras desapareceram, agravando as vulnerabilidades da região. Em simultâneo, os mecanismos de controlo de inundações que foram sendo criados, como compensação, não eram suficientes para minorar os danos.

No pós-guerra, sucederam-se as tragédias relacionadas com as cheias. Em 1947, o tufão Kathleen destruiu mais de 31 mil casas e matou cerca de 1.100 pessoas. Em 1948, o tufão Kanogawa destruiu ou inundou mais de 41 mil casas e espalhou a devastação pela cidade. Numa semana a precipitação foi de 400 mm por metro quadrado; na fase mais crítica, caíram 267mm em apenas 48 horas. 

Os fenómenos naturais foram agravados pela construção intensa, pela industrialização e pelas alterações climáticas. Para minorar o impacto das cheias, há décadas que as autoridades - juntando governo central, três governos provinciais e diversos executivos municipais - tecem intrincados sistemas de diques, túneis, barragens e reservatórios. 

O trabalho mais aprofundado começou em 1980, com a construção de zonas de retenção e escoamento de águas pluviais nos inúmeros rios e ribeiras do norte de Tóquio, e planeamento e gestão articulados entre os vários níveis de decisão. Foi quando entraram em prática regras gerais de desenvolvimento urbano focadas na resistência aos danos causados por inundações; foi também quando começou a prática de fazer parques verdes e amplas zonas para a prática de desporto nas margens dos cursos de água, prevendo a sua inundação - uma espécie de versão moderna dos desaparecidos campos de arroz. E foi quando começaram também a ser construídos tanques-cisterna, para receber água em excesso, e canais de drenagem. O Sistema de Drenagem Subterrânea da Área Metropolitana Exterior é a jóia da coroa desta complexa arquitetura.

A cisterna onde cabe um vai-vem

O projeto foi aprovado em 1983, e demorou 13 anos até estar concluído. Entrou em funcionamento em junho de 2006 e custou o equivalente a cerca de dois mil milhões de euros.

Nobuyuki Akiyama, o engenheiro chefe da do Gabinete de Gestão dos Canais de Inundação Metropolitanos Exteriores, guia a CNN Portugal por este prodígio de engenharia e explica o seu funcionamento: há cinco gigantescos tanques cilíndricos colocados em pontos críticos do sistema fluvial desta região: perto dos rios Ootoshifurutone, Koumatsu, Kuramatsu, Nakagawa e Edo - são os principais rios desta área, em torno dos quais se estabelecem todos os demais cursos fluviais secundários. Sempre que ocorrem tufões ou grandes chuvas repentinas, conforme o nível dos rios sobe, a água transborda para locais de recolha e vai para as grandes cisternas cilíndricas.

Cada uma das cisternas tem diferentes dimensões, mas são todas colossais. A maior de todas, junto ao rio Edo, tem quase 32 metros de diâmetro, e 71 metros de profundidade. É tamanho suficiente para acomodar lá dentro a Estátua de Liberdade, ou um vai-vem da NASA.

As cinco cisternas cilíndricas estão ligadas a 55 metros de profundidade por um túnel com cerca de 10 metros de diâmetro. A água em excesso, que noutras circunstâncias ficaria à superfície, inundando tudo à volta, é canalizada por este túnel até ao “tanque de compensação”. É esse tanque que fica por debaixo do insuspeito campo de futebol semi-pelado. É essa a construção que atrai visitantes de todo o mundo - uns, são meros turistas; outros, são engenheiros e especialistas de proteção civil que querem testemunhar com os próprios olhos este colosso.

A Catedral Subterrânea

Chamam-lhe a “Catedral Subterrânea” de Tóquio. Parece isso mesmo, com os tetos altíssimos suportados por 59 colunas de 500 toneladas cada uma. É um salão fantasmagórico, frio e iluminado por luz fria. Tem 177 metros de comprimento, 78 metros de largura e 18 metros de altura. O que mais impressiona é a  colunata, que forma uma espécie de labirinto entre pilares - cada um tem 7 metros por 2 metros de espessura e 18 metros de altura. Este espaço já serviu para filmar cenas de cinema de ação e de cenário para videoclips de música pop. Na época seca, é sobretudo cenário do espanto de quem o visita, lugar de humidade eterna que entra nos ossos, com o chão pontuado por poças de água.

Embora pareça uma construção de aparato, é muito mais do que isso: esta salão existe para ser inundado quando a água das cheias é demasiada. Está a 22 metros de profundidade, ou seja, cerca de trinta metros acima do nível médio do túnel de drenagem. Quando a água vence esse desnível, isso reduz a força da corrente, e a grande “catedral” serve para isso mesmo: para ajustar a pressão e moderar a fúria das águas, antes de serem lançadas, de forma controlada, no Edogawa, ali ao lado, o maior rio da região e aquele que tem maior capacidade de levar a água em demasia.

Para bombar a água do tanque de compensação para o Rio Edo, foram criadas quatro bombas de drenagem a partir de turbinas de aviões a jato. Bombas com força de 13 mil cavalos puxam 200 toneladas de água por segundo. Para se ter uma ideia da sua potência: poderiam esvaziar uma piscina olímpica em 2 segundos.

Aqui tudo parece ter uma dimensão sobrehumana, e não é por acaso: esta é uma construção pensada para enfrentar dilúvios.

Na Central de Controlo, ecrãs mostram as águas a correr em cada rio, e pontos de luz num mapa alertam para qualquer variação em tempo real. Dezenas de números a vermelho monitorizam o nível das águas em tempo real. 

Desde a sua inauguração, este sistema tem sido acionado todos anos, numa média de 8 vezes por ano. O ano que que os túneis de drenagem foram mais requisitados foi 2013, tendo prevenido cheias 12 vezes.

Nobuyuki Akiyama chama a atenção de que “esta sistema possibilita a redução de inundações dos rios em suas fases iniciais”, o que permite “escoar a água das chuvas da bacia hidrográfica para o rio [Edo] antes dessa água inundar casas  e as zonas povoadas, reduzindo os danos”.

O projeto foi concebido para proteger as cidades ao norte de Tóquio, mas beneficia também o centro da metrópole. “Como a água das enchentes captada por esta instalação flui para Tóquio, consequentemente isso ajuda a reduzir o risco de danos causados por enchentes em Tóquio.”

As autoridades calculam que, desde que entrou em funcionamento, este sistema já evitou prejuízos que cobrem boa parte do investimento inicial. Desde 2006, as inundações neste região são menos frequentes, e o seu impacto é bastante mitigado. Em 2019, um tufão provocou nesta região precipitação na ordem dos 216 mm por metro quadrado em 48 horas, o que fez transbordar o Rio Nakagawa. Mas não se registaram grandes cheias, pois a água em excesso foi levada até ao Rio Edo - nesse evento, calcula-se que 12,18 milhões de metros cúbicos de água de cheias terão passados por estes canais. Em comparação com situações semelhantes, o número de casas inundadas foi de apenas 10%. A redução de 90% teve reflexo nos prejuízos que foram evitados - só dessa vez, evitaram-se perdas de quase 200 milhões de euros.

Preparados para fenómenos que só ocorrem a cada 100 anos

Esta mitigação do impacto das cheias tem sido conseguida apesar das alterações climáticas, que têm agravado os riscos. Conforme os fenómenos climatéricos extremos se agravam e se tornam mais frequentes, os canais de drenagem subterrânea de Tóquio são cada vez mais postos à prova. 

Nos últimos 30 anos, aumentou o número de dias com chuvas fortes no Japão, diz a Agência Meteorológica nipónica. Estimativas citadas pela BBC indicam que ao longo do século XXI a precipitação no Japão poderá aumentar em 10%. No Verão, que é a época das chuvas, esse aumento poderá chegar aos 19%.

“Na sua capacidade máxima, este sistema está projetado para suportar grandes inundações que ocorrem uma vez a cada 100 anos. É possível escoar 355 milímetros de chuva por metro quadrado ao longo de 48 horas”, informa Akiyama.

Porém, os desafios estão à vista. “Com as alterações climáticas, tem aumentado a incidência de chuvas fortes repentinas. Por isso, as medidas de controlo têm de ser adaptadas de acordo com as mudanças climáticas e com o uso das áreas de urbanização. É necessário reforçar todo o sistema de prevenção, não apenas nestas instalações, mas em toda a infraestrutura [de Tóquio] contra inundações”, reconhece o chefe de operações da grande Catedral Subterrânea.

Por muito que os visitantes cheguem de todo o mundo para apreciar esta obra-prima do engenho humano, este é um trabalho que nunca está concluído.

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