O crime que chocou o Brasil. 20 anos depois de mandar matar os pais milionários, Suzane von Richthofen saiu da prisão

12 jan, 15:01
Suzane von Richthofen

Suzane von Richthofen cumpriu cerca de 20 anos da pena de 39 à qual foi condenada por ter planeado a morte dos pais, em São Paulo, juntamente com o namorado e um irmão deste

Suzane von Richthofen é a protagonista de um dos casos de polícia mais falados do Brasil: com apenas 18 anos, confessou ter sido a mentora do homicídio dos pais, executado pelo seu namorado Daniel, de 21 anos, e pelo irmão deste, Christian, de 26. Suzane era a filha mais velha do casal Richthofen, Marísia e Manfred: ela uma psiquiatra brasileira e ele um engenheiro alemão a trabalhar no Brasil. Quis ver os pais mortos porque não aprovavam a relação com Daniel. 

O crime foi cometido a 31 de outubro de 2002, na casa da família de classe média alta, uma moradia num dos melhores bairros de São Paulo. Suzane, que acabou por confessar ter sido ela a orquestrar o plano para o homicídio, foi condenada a 39 anos de prisão. Na quarta-feira, a Justiça brasileira decidiu aceder ao pedido dos advogados da reclusa e Suzane vai cumprir a restante pena em regime aberto, informa a CNN Brasil. Atualmente, já estava em regime semiaberto na penitenciária feminina Santa Maria Eufrásia Pelletier, em Tremembé, no interior de São Paulo, o que lhe permitia frequentar um curso superior fora da prisão.

O pedido para progressão para regime totalmente aberto já tinha sido apresentado pela defesa de Suzane em 2018 e em 2020, mas fora negado de ambas as vezes. A reclusa cumpria pena em regime semiaberto, que permite saídas temporárias, desde 2015; mas, no ano anterior, a própria tinha recusado cumprir pena neste formato, alegando por escrito que temia "pela sua vida fora do cárcere". Desde 2016 que Suzane tinha autorização para frequentar o ensino superior, mas não o fez na altura porque não tinha recursos para tal, escreve a CNN Brasil. 

O crime cometido por Suzane, juntamente com os irmãos Cristovinhos, dominou a imprensa brasileira do início dos anos 2000 e chocou o país. Na altura, os jovens tentaram encenar um assalto e tiraram dinheiro e joias da casa dos pais de Suzane, mas a polícia estranhou de imediato as atitudes da filha mais velha do casal Richthofen, que continuava a trocar carinhos com o namorado. Já Andreas, o irmão mais novo, que na altura tinha apenas 15 anos, ficou em estado de choque. Suzane e o namorado tiveram mesmo o cuidado de levar Andreas para um cibercafé nas imediações para o tirar de casa durante o crime, dizendo-lhe que ele estava a ajudá-los a encobrir uma saída para festejarem o aniversário de namoro.

Crime foi "concordância de ideias"

Marísia e Manfred von Richthofen foram mortos no quarto, enquanto dormiam, com golpes de barras de ferro na cabeça. O objetivo de Suzane e Daniel seria matá-los para ficarem com a casa e a herança da família, que tinha ascendência da aristocracia alemã pelo lado paterno. Os Cristovinhos cometeram o crime enquanto Suzane ficou na sala a aguardar. Há dias que tinha desligado os alarmes e o sistema de vigilância da mansão.

Daniel Cristovinhos era instrutor de aeromodelismo e fora contratado por Marísia para dar aulas ao filho Andreas. Suzane acompanhava o irmão, a pedido da mãe, e acabou por começar uma relação com o instrutor. "Eles eram contra e proibiram-me de ver o Daniel. Mas eu era adolescente, apaixonei-me, comecei a fazer muita coisa sem eles saberem, viajar escondido”, disse a própria numa entrevista concedida na prisão à revista brasileira Veja, em 2017. "Daniel foi o primeiro e único homem que eu tive, ele apresentou-me uma vida completamente desregrada, uma vida em que eu podia fazer tudo", admitiu. 

Sobre o crime, nesta mesma entrevista, confirmou que ajudou a planear o duplo homicídio. "Eu não sou a única mentora intelectual, foi uma concordância de ideias. Mas eu fiz parte, ajudei a planear. O Christian é que sabia um pouco menos do que iria acontecer. E não foi decidido na véspera, foi planeado com antecedência", admitiu. Suzane e Daniel Cravinhos foram condenados a 39 anos e seis meses de prisão, Christian Cravinhos foi condenado a uma pena de 38 anos e seis meses. O julgamento gerou um grande interesse junto dos brasileiros, tanto que chegou a ser ponderada a transmissão em direto das audiências em tribunal.

Em 2021, foram lançados no Brasil dois filmes sobre o caso, com as duas versões que foram contadas em tribunal, uma por Suzane e outra pelo namorado Daniel, cada um a atribuir mais responsabilidades ao outro: um dos filmes chama-se "A menina que matou os pais", o outro "O menino que matou os meus pais". 

Cerca de 20 anos depois da condenação, a filha mais velha dos Richthofen vai agora cumprir a restante pena em liberdade - sendo que, por trabalhar em artesanato na cadeia, já conseguira uma redução da pena, que termina, segundo a imprensa brasileira, a 25 de fevereiro de 2038.

Desde setembro de 2021, Suzane estuda biomedicina numa universidade em Taubaté e estava autorizada a sair da prisão para frequentar as aulas ao fim do dia, deslocando-se de transportes públicos para o estabelecimento de ensino.

Já Daniel Cravinhos cumpre pena em regime aberto desde janeiro de 2018. O irmão, Christian, passou a regime aberto em 2018 mas voltou a ser detido e condenado a quatro anos de prisão por corrupção, por ter tentado subornar agentes da polícia para que não o detivessem por porte ilegal de arma de fogo. 

Em 2014, Andreas, único herdeiro do casal assassinado, vendeu a mansão onde a irmã mandou matar os pais, mas, segundo os vizinhos, nunca mais ninguém residiu na moradia em São Paulo desde o crime.

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