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Sporting: “Acordo com os bancos era castrador” (entrevista na íntegra em vídeo e em texto)

23 mai, 09:23

Depois da fase de reestruturação, o Sporting entra na fase da expansão. É uma nova era, diz o seu administrador financeiro. Depois de um passo atrás, dois passos à frente. Francisco Salgado Zenha aponta para o futuro dos campeões nacionais

Tinha trinta e poucos anos e uma carreira de 12 na banca de investimento, que já passara por Londres e agora se baseava em Madrid, quando o telefone tocou. Do outro lado estava Frederico Varandas com um convite. Era o ano de 2018 e a sua vida estava prestes a dar uma guinada que alguns dos seus mais próximos acharam ser uma loucura: deixar os mercados financeiros para se meter na embrulhada do futebol? Francisco Salgado Zenha disse que sim. Hoje, aos 41 anos, o administrador financeiro do Sporting já ajudou a desembrulhar dois campeonatos nacionais - e completou a reestruturação financeira iniciada antes de si, com a célebre operação das VMOC de que resultou um perdão indireto de dívida mas que atribuiu um controlo aos credores de que só agora o Sporting se libertou.

“O acordo com os bancos era muito castrador”, diz, “isso era naturalmente frustrante e, no fundo, estava a limitar a capacidade do Sporting de crescer. Hoje temos mais oxigénio e temos capacidade para expandir.”

Depois da reestruturação, é hora da expansão, anuncia Frederico Salgado Zenha, que fala de compras e vendas de jogadores, no modelo de negócio do Sporting, na aposta no entretenimento e na gestão do futebol que, defende, é bem feita em Portugal.

Entrevistámo-lo no relvado de Alvalade na segunda-feira a seguir ao fecho do campeonato. Nas bancadas, ainda se recolhiam os últimos balões da festa com milhares de adeptos – afinal, o maior ativo do clube. “Se o estádio estiver vazio, não estamos aqui a fazer nada.”

 

Quem é que está mais contente? É o adepto do Sporting ou é o administrador financeiro, que provavelmente já está a ver os cofres a encher?

FRANCISCO SALGADO ZENHA (FSZ) - Bom dia, Pedro. Obrigado pelo convite, antes de mais. Claramente, todos estamos contentes. Sobretudo, o mais importante é que os adeptos estejam contentes, é para isso que nós aqui estamos. Mas, naturalmente, nós também temos que estar satisfeitos com o nosso trabalho e satisfeitos com aquilo que foi o percurso do Sporting ao longo deste tempo e, sobretudo, deste ano.

 

CNN -  Vamos falar do percurso, e não apenas deste ano. O Sporting há 8 ou 10 anos estava falido. Mas quando [a sua administração] entrou, em 2018, também estava falido. Aliás, esteve tecnicamente falido até ao ano passado. Como é que se transforma um clube falido num clube campeão?

FSZ - Eu diria que há dois pontos críticos para isso acontecer. O primeiro, temos que fazer o reset: cortar custos, ser capaz de assumir esse compromisso de que podemos eventualmente ser menos competitivos ao princípio, mas para sermos mais competitivos no futuro. E depois não nos desviarmos do nosso caminho e, mesmo que haja pedras no caminho, termos capacidade de manter essa consistência.

Posso dar um exemplo: nós, quando entrámos - e sabe-se o contexto, em 2018, muito difícil - fizemos isso mesmo, reduzimos custos e, portanto, tivemos aqui esta fase inicial muito desafiante. E, em 19-20, tivemos, além disso, um ano muito aquém das expectativas do ponto de vista desportivo. E no final dessa época, em que ficámos no quarto lugar, por exemplo, fomos capazes de reduzir o orçamento. O que é que aconteceu no ano seguinte? Fomos campeões nacionais de futebol; fomos campeões europeus de hóquei em patins; fomos campeões europeus de futsal, entre outros títulos importantes que tivemos.

CNN -  Dizia que parte da reestruturação foi cortar custos, mas depois há a outra parte, que é aquela mais difícil de controlar: é a das receitas e é tão importante como a dos custos. O que é que o Sporting fez e está a fazer para aumentar as suas receitas?

FSZ - [Agora] é uma fase de expansão da marca Sporting, expansão do negócio Sporting, crescimento competitivo do ponto de vista desportivo mas também económico do Sporting. Estamos numa fase em que - hoje sim - temos capacidade para andar para a frente nessa expansão. Quando chegámos aqui, em 2018, não tínhamos capacidade, e por isso tivemos que dar o tal passo atrás, reduzir custos, para dar estes dois à frente e estarmos agora nesta fase.

CNN - Este é o segundo passo à frente, a fase da expansão... Quando esta administração entrou em 2018, tudo à volta do Sporting estava, vamos chamar-lhe, intenso - estava a arder. E aquele princípio foi muito complexo para esta administração. Hoje o clima é completamente diferente e muito mais consensual, unânime. Nestes anos todos aconteceram grandes transformações no clube. Se lhe pedisse para escolher dois ou três momentos-chave deste período desde 2018, quais escolheria, do ponto de vista financeiro?

FSZ - Diria: claramente o campeonato de 2021, o campeonato de 2023-2024 e a conclusão da reestruturação financeira com os bancos.

E escolho estes três porque, primeiro, porque [o campeonato de 2020/21] claramente foi a confirmação de que o nosso plano fazia sentido e foi a confirmação de que estávamos no caminho certo; o campeonato de 2023-2024 porque foi a consolidação desse plano, portanto, que nós, de facto, confirma-se que somos um clube competitivo desportivamente e que estamos mais capazes, do ponto de vista financeiro, porque estamos a alcançar estes objetivos..

CNN - Ou seja, que não foi um acaso o primeiro campeonato.

FSZ - Não foi um acaso. E, finalmente, a conclusão da reestruturação financeira, porque o acordo que tínhamos era um acordo muito castrador.

 

CNN - O acordo com os bancos, com os credores.

FSZ - ... o acordo com os bancos. Era um acordo muito castrador e, portanto, com a conclusão desse acordo, com esta conclusão deste processo de reestruturação financeira, hoje temos mais oxigénio e temos capacidade para fazer aquilo que estava a dizer há pouco, de expandir.

 

CNN - Até muito recentemente, durante a reestruturação financeira, os bancos não só controlavam o orçamento - controlavam do ponto de vista do aumento de custos - mas depois também ficavam com parte da receita quando, por exemplo, o Sporting vendia um jogador. Isso hoje já não é assim. Portanto, o Sporting está livre como um passarinho?

FSZ - Absolutamente. Ou seja, aquilo que acontecia, que era altamente frustrante, é que quanto maior era o sucesso do Sporting, mais acelerava a amortização de dívida e, na verdade, aquilo que nós conseguíamos receber acima daquilo que eram as nossas expectativas acabava por ser transferido para os bancos e não ir para a nossa capacidade de investir mais e de expandir e de ser mais competitivos. Portanto, isso era naturalmente frustrante e, no fundo, estava a limitar a capacidade do Sporting de crescer. E isso não era bom para nenhuma das partes.

 

CNN - E agora, qual é o modelo de negócio que vai implementar no Sporting, uma vez que já tem essa liberdade e esta fase de expansão?

FSZ -  O nosso modelo de negócio tem sido assente na formação e esse é o nosso ADN.

Aliás, nós em 2018 - lá está, quando foi essa redução de custos -, o natural foi apostar na formação e voltar às nossas origens, coisa que nós sentimos que não estava a acontecer como nós achámos que devia estar.

E isso é fácil de traduzir em números: nós temos hoje uma liga portuguesa que é a 7ª do ranking europeu da UEFA e que está a concorrer, ou que esteve a concorrer nos últimos cinco ou mais anos, com outras sete grandes economias europeias, sete grandes países, que são as Top 5 ligas mais a Rússia e a Holanda. A Rússia agora saiu e a Holanda está em 6º lugar. E estes 8 países andaram a concorrer com sete lugares, sendo que os outros sete países são as sete maiores economias europeias - não por esta ordem, curiosamente -, e nós somos a 20ª. Portanto, alguma coisa nós fazemos bem. Lá está a formação.

CNN -  Portanto, a 20ª maior economia em futebol está em 6º ou 7º lugar.

FSZ -  Exatamente.

 

CNN - E o que é que explica isso? É a formação?

FSZ - Dou-lhe outro exemplo: a seleção portuguesa é a quarta seleção mais valiosa do mundo e nós somos a 47ª economia mundial. E a seleção portuguesa é composta por jogadores formados onde? Nos clubes portugueses, e o Sporting tem uma quota parte importante dessa formação.

 

O modelo está aqui e nós fazemos-lo bem. Porquê é que temos que fugir a isso? Não temos que fugir. Portanto, o nosso modelo desportivo e económico deve ser assente na formação. Depois, naturalmente - e voltando aqui ao início da sua pergunta -, o modelo de negócio também tem que ser assente em comprar melhor cada vez mais, desenvolver e vender bem. Mas também há, e é aqui que eu queria concluir, um modelo de negócio também assente do entretenimento, do espectáculo. E é isso que nós temos que desenvolver. Porque nós o negócio do futebol já o fazemos bem.

Aquilo que nós temos mesmo que melhorar - e não são só os clubes portugueses, nem o Sporting, os clubes europeus também o estão a fazer -, é melhorar e ser mais eficientes no modelo do entretenimento.

CNN - O que é que podemos esperar de melhorias no entretenimento?

FSZ - Não posso divulgar aqui agora, mas haverá novidades em breve. Mas a ideia é, justamente, melhorar muito a experiência do adepto, a experiência do sócio, porque é isso que nós hoje não fazemos como queremos ainda.

 

CNN - Disse que há uma parte do negócio que vem da formação, ou seja, os clubes portugueses também são uma plataforma, não é? Uma plataforma que faz formação e depois vende jogadores; compra jogadores, também, baratos, e depois vende e faz essa mais-valia. Nós estamos no final de um ano económico, o Sporting tipicamente faz receitas anuais entre os 50 e os 100 milhões a vender jogadores. Este ano vai ser diferente, o Sporting vai vender, precisa de vender?

FSZ -  Para já, eu acho que o modelo do Sporting é um modelo que tem que assentar sempre em se aproximar dos seus concorrentes europeus. E tem que ter ferramentas para isso. Portanto, a resposta é: sim, o Sporting é um clube vendedor para ser cada vez mais competitivo na Europa. E agora vai-me perguntar porquê. Eu vou dar-lhe um exemplo, em números, que acho que é importante: o Sporting gerou, fechou 22/23, com cerca de 125 milhões de euros de receitas operacionais sem transações de jogadores, e esteve na Champions League. Um clube no meio da tabela inglês faz duas ou três vezes mais.

 

Para lhe dar outro número: o Sporting faz mais ou menos 20 milhões de euros em bilhética, que inclui também os camarotes, o corporate, etc., o chamado match day, o gateway. Um Ajax, um Rangers ou um Celtic faz quase 50 milhões. Faz mais do dobro.

CNN - Portanto, é sempre muito difícil competir. 

FSZ -  Voltamos atrás: nós somos uma economia muito mais frágil que a dos nossos concorrentes europeus e nós temos que tomar uma decisão. nós queremos ser competitivos na Europa e continuar a ir às ligas dos campeões ou não queremos? E se queremos, temos que arranjar formas de lá estar e de ser competitivos.

 

CNN - E qual é a resposta do Sporting?

FSZ - E a resposta do Sporting é que temos que continuar a trabalhar bem o negócio do futebol e continuar a gerar rendimento desportivo e económico com jogadores e, ao mesmo tempo, temos que ir melhorando o negócio de entretenimento para ir mitigando a necessidade de vender jogadores. E é isso que nós temos que continuar a fazer. Mas temos que continuar também a vender para sermos capazes de fazer isso. Mas só com uma nuance: hoje não somos obrigados a vender. Nós podemos gerir o nosso timing. Vamos acabar por vender, vendemos e compramos todos os anos, mas podemos gerir o nosso timing.

 

CNN -  Disse que não precisa de vender. O Sporting tem recursos para segurar o Gyökeres?

FSZ - Tem.

 

CNN - E quer segurar o Gyökeres?

FSZ -  O Sporting quer sempre segurar os seus melhores jogadores. No entanto, o mercado... temos que esperar por ele e ver o que é que acontece. Mas tem e quer, naturalmente.

 

CNN -  Os seus maiores ativos são os jogadores.

FSZ -  Eu acho que os nossos maiores ativos são os adeptos. E acho que isso ficou provado nas últimas semanas. Francamente, às vezes quando nós estamos aqui, as pessoas até dizem "como é que esta pressão, muitas vezes das redes sociais, das pessoas, da emoção das pessoas...", eu acho que o que nós temos verdadeiramente é um negócio que vive à volta dos adeptos. Se o estádio estiver vazio, os jogadores não estão aqui a fazer nada e nós não estamos aqui a fazer nada.

 

CNN -  Última pergunta: se nos encontrarmos daqui a um ano aqui, neste belo estádio, neste relevado tão bem cuidado, o que é que me estará a dizer-me, ou melhor, o que é que quererá estar a dizer-me?

FSZ -  Eu gostava de estar ainda mais satisfeito do que estou hoje. O que significaria que teríamos mais títulos e que estaríamos mais próximos também de nos darmos^, a nós e aos adeptos, a tal felicidade não só dos resultados desportivos, mas também da experiência de estarmos aqui neste estádio, mas também quem está ali naquela bancada, de poder estar cada vez melhor e ter cada vez mais gozo em vir aqui. 

 

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