Taça: Sporting-Benfica, 2-1 (crónica)

Sérgio Pereira , no Estádio de Alvalade, em Lisboa
29 fev, 23:14

Este Sporting tem um leão no peito (que se assusta e estremece)

Só por extremo altruísmo ou uma bondade carmelita se pode considerar que o Benfica chegou ao intervalo com um remate. É certo que, aos 22 minutos, Bah esboçou o que pareceu ser uma tentativa de fazer algo do género, mais ou menos do meio da rua, mas não foi longe: ficou logo ali, presa nas pernas de um adversário.

E isso foi tudo o que o Benfica fez na primeira parte.

Ora serve este preâmbulo para chegar ao ponto essencial: o Sporting ficou a dever a si próprio uma vitória robusta no dérbi eterno. Pelo que construiu e pelo que desperdiçou, sem dúvida, mas também pelo tormento que significou a exibição encarnada até à hora de jogo.

Para se ter uma ideia, só nos descontos da primeira parte é que o Benfica teve um canto e só aos 60 minutos obrigou Israel a intervir: segurou sem problemas um remate de João Mário.

O Sporting, por outro lado, tinha ameaçado em mais dois disparos, mas sobretudo tinha chegado várias vezes com perigo à área adversária.

E era tudo simples, tão simples. Trocava a bola com rapidez, levantava a cabeça para ver onde estava Gyokeres e lançava o sueco em velocidade com a bola controlada. A partir daí ganhava dezenas de metros num piscar de olhos e deixava o adversário em sobressalto.

No final da primeira parte, aliás, os números explicavam muito: dez remates do Sporting contra um do Benfica, trinta ações na área contrária para os leões, contra três do adversário.

E tudo isto, vale a pena a lembrá-lo, com Matheus Reis a lateral esquerdo.

O que torna tudo muito mais difícil. Sobretudo porque Di Maria teve uma primeira parte desastrada, com doze perdas de bola, apenas três duelos ganhos e a normal incapacidade para ajudar o lateral, que deixava uma autoestrada para o lateral esquerdo leonino aproveitar.

Mas Matheus Reis não foi feito para isso. Via Bah a perseguir Pedro Gonçalves por dentro, o espaço à frente totalmente livre e só em breves assomos de loucura se atrevia a aproveitá-lo.

Tal como já tinha acontecido no jogo da primeira volta na Luz, de resto.

Mas enfim, mesmo assim o Sporting chegou ao intervalo em vantagem, graças a um golo madrugador de Pote, logo na primeira jogada junto de uma baliza, e totalmente embalado.

Até porque o início da segunda parte não mudou muito as coisas. Mais Sporting, mais Gyokeres com fogo no rabo e mais futebol junto da área encarnada. Pelo meio teve um penálti bem revertido pelo árbitro, um remate de Geny Catamo pouco por cima da barra e o golo da ordem de Gyokeres, em mais uma jogada dele sozinho contra o mundo.

Alvalade rebentou em euforia, mas era cedo. Os dérbis com o Benfica já mostraram que é sempre cedo para este leão festejar o que quer que seja.

Logo a seguir chegaram três minutos trágicos, a derrota da Luz voltou à memória e o jogo ficou completamente aberto. Finalmente fez-se dérbi: emocionante, irreverente e belicoso. Com o pé a fugir-lhe do chinelo, como em qualquer discussão entre vizinhos que se preze.

Tudo começou quando alguém se esqueceu de Aursnes, que apareceu sozinho na cara de Franco Israel para reduzir a desvantagem. Logo a seguir Di Maria marcou o segundo golo e o Benfica empatou em três minutos.

Tal como tinha feito na Luz, insiste-se.

É certo que este segundo golo foi anulado por fora de jogo de Tengstedt, mas aquele sentimento de receio colou-se ao rosto dos jogadores leoninos. O Sporting de Ruben Amorim tem, definitivamente, um leão no peito, que se assusta e estremece em instantes de encarnado.

Na Luz assustou-se e estremeceu nos descontos, esta noite fê-lo à hora de jogo. E o dérbi, enfim, nunca mais foi o mesmo.

Di Maria achou que era uma boa altura para entrar em jogo, mudou-se para o lado esquerdo e ameaçou em cada cruzamento para a área, João Neves (sobretudo ele) e João Mário subiram uns metros no campo, o Benfica definiu melhor a zona de pressão, ganhou mais segundas bolas e tornou o jogo mais dividido.

O mesmo Benfica, refira-se, que tem na frente um jogador como Rafa e que beneficiou em vários momentos da primeira parte de quarenta metros nas costas da defesa leonina para explorar, sem o conseguir fazer, claro está. Há coisas difíceis de entender, não é?

Mas pronto, em boa verdade é preciso dizer que até ao fim, e apesar da emoção despejada sobre o relvado, voltou a ser o Sporting a ficar mais perto do golo. Nuno Santos ainda marcou, um golaço que foi anulado por fora de jogo, e Esgaio atirou duas vezes muito torto.

O que permite sublinhar aquela entrada inicial deste texto: o Sporting ficou a dever a si próprio uma vitória robusta.

Ou pelo menos um resultado que tornasse a segunda mão destas meias-finais um pro-forma, para despachar lá para abril, juntamente com o resto do expediente.

Não o fez e a eliminatória continua viva. O que nós também agradecemos.

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