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Se ser civilizado é woke…

18 jun, 16:40

A resposta do primeiro-ministro aos cartazes do passado 10 de Junho provocou clamor, debate e trocas de acusações. António Costa considerou “racistas” os cartazes empunhados por alguns dos manifestantes em Peso da Régua e as interpretações do episódio dividem-se, fundamentalmente, em três: a primeira, que desvaloriza ou não comenta o assunto, como se ele não tivesse a mais pequena relevância pública; a segunda, que toma a reação do primeiro-ministro como uma fuga para a frente diante dos protestos e uma utilização da luta contra o racismo para fins meramente políticos (e exclusivamente seus); a terceira, uma condenação taxativa e veemente das caricaturas, como sendo racialmente ofensivas e etnicamente discriminatórias.

Confesso que entendo todas e não subscrevo nenhuma.

Em suma, entendo a indiferença porque percebo a incompreensão. Mais sucintamente: compreendo quem não compreende. António Costa, não sendo branco e tendo crescido num país maioritariamente branco, tem uma vivência com a discriminação racial que escapa à maioria dos observadores nacionais, coincidentemente brancos. Uma das coisas mais involuntariamente bizarras da última semana foi essa: uma multidão de brancos passou dias dando sermões a um não-branco sobre como é que ele deveria sentir ou não sentir racismo, sendo que a maioria dos padroeiros não o terá alguma vez sentido.

Os hábitos políticos deste governo têm, e é justo dizê-lo, alguma responsabilidade na presunção de dissimulação que acompanhou as análises ao ato de António Costa. Pessoalmente, tenho alguma dificuldade em acreditar que a equipa de duzentos e setenta e três assessores da maioria absoluta tenha sugerido ao sr. primeiro-ministro: “Ó doutor, ‘tá a ver, os professores, o Marcelo, a última semana da CPI, diabo, precisamos mesmo de sacar um coelho da cartola e esse coelho, imagine lá, tem mesmo de ser a sua cor de pele. Não se importa, não?”. Ligeiramente inverosímil, até para os menos ingénuos.

Claro que, depois do arrendamento coercivo que afinal não vai ser coercivo e da venda de maços de tabaco que afinal continuarão a ser vendidos, também eu vejo cortinas de fumo penduradas em qualquer janela deste governo. Mas tal não significa que tenha sido o caso.

É essa possibilidade ‒ só a possibilidade ‒ que merece o mínimo de benefício da dúvida.

Outro argumento, bem intencionado mas perigosamente mimético, é o dos que saem em favor da “liberdade de expressão” do ilustrador que desenhou António Costa com as feições de um suíno e dois lápis cravados na vista. Chamo-lhe bem intencionado porque a defesa das liberdades é, por norma, uma boa causa. E chamo-lhe perigosamente mimético porque é exatamente essa a estratégia de todos aqueles que querem fugir à avaliação dos seus gestos (cercos, boicotes, etc.), invocando uma liberdade legal, que não lhes tiraram, para evitar uma demarcação política, que não lhes convém.

O meu ponto é menos sofisticado, mas procura mais racionalidade. Se uma mulher sabe melhor o que é machismo por já o ter sofrido antes, se um homossexual conhece melhor o que é a homofobia por a ter sentido antes e se um imigrante reconhece mais facilmente a xenofobia porque a viveu repetidamente, é lógico que alguém que pertence a uma minoria étnica sente o racismo mais facilmente do que alguém que não pertence.

Não pertencendo eu a uma minoria, o meu instinto é pôr-me nos sapatos que nunca calcei. Não sei se o cartaz é ou não racista, mas também não sei se o foi ou não foi para António Costa. É impossível saber ao certo. Sei que o primeiro-ministro o denunciou assim e que os relatos da multidão confirmam esse lamentável ambiente. Na dúvida, a empatia tende a ser mais recomendável do que a superioridade moral. Se lhe quiserem chamar woke, seja. Eu chamo-lhe civilidade.

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