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“Os médicos estão completamente exaustos. Todos eles” e “sofrem de burnout e de violência, até física”

12 abr 2023, 14:00
Médicos (imagem Getty)

Carlos Cortes avisa que, neste momento, muitos clínicos estão no limite e fala da agressividade que se está a verificar. " A agressão, seja física, moral, psicológica, até sexual, sobre os profissionais de saúde é intolerável". Nesta terceira parte da entrevista que deu à CNN Portugal/TVI, o bastonário anuncia que a Ordem vai criar um gabinete para dar apoio médico e jurídico a quem precisar e pede a lei seja revista para que estas situações de violência sejam mais gravemente punidas

(Terceira parte de uma grande entrevista ao novo bastonário da ordem dos médicos. Segunda parte: “Os hospitais estão em rutura na área da Medicina Interna. Uma rutura que é muito perigosa”. Terceira parte: “Formaram-se 1300 novos médicos especialistas, mas o Ministério da Saúde não dá sinal de os querer contratar” e “os privados estão a oferecer-lhes trabalho”)

Todos os dias se fala da falta de médicos. Há falta ou os médicos que existem estão no setor privado? 

Faltam médicos, falta aqui muita organização. O número de tarefas que os médicos têm de desempenhar nos hospitais é excessivo em relação à capacidade que os médicos têm. Os médicos também são humanos. E nós temos assistido a muitos problemas, variadíssimos problemas nesta área, problemas de burnout, por exemplo, de exaustão.

Há muitos médicos nessas condições de exaustão? A Ordem dos Médicos está a pensar fazer algum estudo sobre o tema?

 Além da questão do burnout, há a questão da violência, uma situação absolutamente inadmissível. Há violência sobre os profissionais de saúde no seu local de trabalho. Em relação a esta área, a Ordem vai criar um gabinete de apoio ao médico para desenvolver uma rede a nível nacional que permita precisamente ajudar os médicos. Por um lado, para dar apoio na questão do burnout e por outro, para apoiar na questão da violência, nomeadamente com apoio jurídico.

Esse tipo de violência parte  de utentes que estão desesperados e acabam por refletir no médico a falta de resposta do SNS?

Eu não quero encontrar aqui nenhuma explicação, porque eu acho que a agressão, seja ela física, moral, psicológica, até sexual, sobre os profissionais de saúde, é intolerável.

Mas tem aumentado essa agressividad.e? 

Tem de haver tolerância zero em relação a ela, independentemente das suas causas. Podemos estudar essas causas, mas tolerância zero em relação a essa violência. 

Mas quando fala de violência, é de violência física? 

De violência até física, também.  E do meu ponto de vista, a lei tem de ser revista para existir mais prevenção, mas também mais punição sobre quem pratica violência contra profissionais, contra médicos, cujo seu trabalho diário é ajudar os médicos. 

O que é que acha que a lei devia defender neste caso? 

A Ordem dos Médicos está precisamente a tratar desse aspeto. Nós estamos aqui a juntar-nos a vários outros parceiros desta área para modificar a lei nestas vertentes.  Tem de ser mais preventiva, tem de apoiar mais os médicos, os profissionais de saúde, e também tem que ser mais punitiva. Não é admissível existir violência contra os profissionais de saúde, ou contra qualquer pessoa. Não pode ser.

Vamos falar da formação dos médicos.  Pediu uma auditoria à qualidade dos cursos de Medicina. O que é que desconfia que exista e que precisa de ser investigado?

Eu não desconfio de nada. Eu quero é saber exatamente como é que está a ser feita a preparação dos futuros médicos deste País. E as escolas médicas têm um papel de uma enorme responsabilidade, porque fazem essa preparação. E nós queremos perceber- da mesma maneira que até fizemos uma auditoria ao papel que a Ordem dos Médicos tem nesse processo de formação - , como é que as escolas médicas estão a formar os seus médicos.

Que tipo de situações pretende esclarecer?

Se há, por exemplo, demasiados alunos nas faculdades, se há demasiados alunos por turma, se há demasiados alunos nos hospitais à volta dos doentes, nos serviços de internamento. E se a formação desses médicos é compatível com aquelas que são as novas exigências da Medicina. Esta auditoria é muito importante porque em todos estes processos tem de existir transparência. E depois há aqui outro aspeto que eu tenho de focar.  Fala-se muito da falta de médicos achando que por isso tem de haver mais estudantes de medicina. Mas isso é uma falácia, que muitos dirigentes e muitos ministros têm enunciado de forma muito errada ao país.

Outro dia a Ministra da Educação do Ensino Superior disse que cada médico, cada aluno, custa 100 mil euros a formar. Sabia deste valor?

A ideia que a Ordem dos Médicos tinha era que esse valor até era superior a esse número.  A Ministra também sugeriu aqui outro aspeto que eu tenho de salientar e que tenho de elogiar, porque é inédito e é surpreendente. Falou da necessidade de um estudo sobre o planeamento de recursos humanos na área médica.  Isto para se perceber quantos médicos é que o país vai necessitar e quantos estudantes de medicina necessitamos.

Mas não será normal uma vez que há falta de médicos que tenham de se formar mais? 

Não, e eu vou explicar porquê.  Portugal não tem falta de estudantes de medicina.  Aliás, Portugal não necessita de estudantes de medicina. Aquilo que o país precisa é de médicos especialistas, é disso que o Serviço Nacional de Saúde precisa. Neste momento as Faculdades de Medicina estão a formar à volta de dois mil médicos.  Além disso, nós temos médicos que vêm do estrangeiro, inclusive portugueses, que vão estudar para países da União Europeia, por exemplo, e que depois, naturalmente, querem voltar para o seu país e querem praticar a sua especialidade.

Mas então porque é que não se deve formar tantos médicos? 

O que eu lhe quero dizer é que esses médicos acabam por depois não ter um lugar de vagas de especialidade, que é isso que nós necessitamos. E neste momento temos entre 2 mil a 3 mil médicos, portanto, diplomados, sem especialidade.

E esses médicos não servem?

Nós não queremos médicos sem especialidade, que são formados pelas escolas médicas.  Nós queremos médicos com especialidade. Portanto, o esforço do País não é um esforço nas escolas médicas, mas tem de ser um esforço nos hospitais e nos centros de saúde para permitir que eles tenham mais capacidade para formarem médicos especialistas.  Um médico que estuda durante seis anos e depois tem mais um ano de formação geral é já um profissional bem diferenciado mas para ter uma especialização precisa de ter condições nos hospitais e nos centros de saúde para a poder obter.

Mas não há médicos desempregados, ou há? 

Não há médicos desempregados, mas o que é importante nós sabermos é que o país precisa de médicos especialistas, não de médicos sem especialidade. Portanto, o país tem de criar aqui condições para ter os médicos especializados que necessita.

Tendo em conta a pandemia e o estado do SNS, acha que os médicos estão cansados?

Eu acho que os médicos estão exaustos. Todos eles.  Porque há aqui um cansaço acumulado, não só da pandemia. Portugal vive momentos muito difíceis na área da saúde. Desde logo com a crise económica e financeira mundial, que teve um impacto devastador sobre a saúde em Portugal.

Enfim, sobre toda a economia, sobre também a área social, mas na saúde.  E houve aqui um grande esforço dos médicos para tentarem soluções de equilíbrio. Porque apesar de não terem tido muitos cortes financeiros na altura, os médicos deram tudo para tratarem os seus doentes.

Depois da crise económica e financeira, tivemos uma crise sanitária de amplitude também mundial, com impacto em Portugal, como teve em outros países, e com as dificuldades que nós conhecemos. E mais uma vez, os profissionais de saúde colocaram-se na linha da frente.

E agora, que já não estamos na fase mais aguda da pandemia, os médicos têm novamente de fazer um esforço acrescido para tratar os doentes que não foram tratados durante a pandemia. Sabemos que a resposta do Serviço Nacional de Saúde, fundamentalmente, e do todo o sistema de saúde, foi uma resposta de hiperfocalização na Covid-19. Ficaram muitos doentes por diagnosticar, ficaram muitos doentes por tratar, ficaram muitos doentes por acompanhar.

Temos um somatório, com contornos de alguma gravidade em algumas áreas, que os médicos têm de recuperar.  Mas também temos uma nova crise. Uma crise que advém também desta crise bélica, da guerra na Europa, que tem impacto também em Portugal, do ponto de vista social, econômico e financeiro, e que tem também o seu impacto na saúde.

Portanto, eu diria que os médicos estão, neste momento, completamente exaustos.  Há sinais muito concretos, e nós já referimos isso, por exemplo, do burnout, que é uma das manifestações dessa exaustão.

Há muitos médicos, neste momento, que têm problemas de saúde mental?

Os problemas de saúde mental, como se sabe, são transversais a toda a população portuguesa.  E há aqui, de facto, um problema que nós temos de assumir, porque ele existe. Os médicos são pessoas como as outras pessoas, portanto, também têm as suas fragilidades, e perante um esforço tão grande, uma pressão tão grande que foi colocada nestes últimos anos, obviamente que há muitos médicos, neste momento, que necessitam de apoio na área da saúde mental. E a Ordem dos Médicos vai desenvolver toda a sua capacidade, criando soluções próprias para poder dar apoio a esses médicos.

 

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