CEO da Ryanair furioso: Boeing precisa de “resolver as suas merdas”

Chris Isidoro
16 mai, 20:51
Michael O'Leary, CEO da Ryanair

Michael O’Leary dispara obscenidades contra a Boeing por causa de atrasos nas entregas de aviões [aviso: este artigo contém citações com linguagem ofensiva]

O presidente executivo (CEO) da Ryanair soltou um ataque contundente e carregado de obscenidades contra a administração da Boeing esta segunda-feira, afirmando que os executivos da empresa precisam de uma "reinicialização imediata ou de um pontapé no cú" [no original em inglês, “a reboot, or a boot up the ass”.]

“Neste momento, achamos que a administração da Boeing está a andar às voltas como galinhas sem cabeça, incapazes de vender aeronaves, e mesmo as aeronaves que entregam não conseguem entregá-las a tempo”, afirmou Michael O’Leary, CEO da Ryanair, a maior transportadora “low-cost” da Europa, que encomendou quase 400 jatos à Boeing desde 2010.

O'Leary e a Boeing tiveram uma discussão pública pouco habitual no outono passado sobre as negociações em torno de uma possível encomenda para a próxima geração do 737 MAX, com a companhia com sede na Irlanda a interromper as negociações por causa de uma disputa de preços.

Os comentários incomumente contundentes do CEO, esta segunda-feira, estiveram focados nas entregas atrasadas de aviões da Boeing. O'Leary disse que a Ryanair teve de reduzir os seus horários de primavera e verão porque os aviões que esperava que a fabricante de aeronaves entregasse até ao final de abril provavelmente não chegariam até ao final de junho.

O'Leary ficou lívido com os atrasos, especialmente porque a Ryanair está a comprar aviões conhecidos como “caudas brancas”, que a Boeing já construiu para outras companhias aéreas. O comprador original destes aviões cancelou o pedido durante uma paragem prolongada de 20 meses do 737 MAX, após dois acidentes fatais [quando 157 pessoas morreram a bordo de um voo da Ethiopian Airlines que partiu de Addis Ababa em março de 2019; e quando 189 pessoas morreram no voo da Lion Air que caiu no mar em outubro de 2018].

“Posso entender que pode haver vários desafios na fabricação de novas aeronaves, mas aeronaves que você já construiu e fez há dois anos, tudo o que tinha… de fazer era colocar combustível nelas e pô-las voar para Dublin, foda-se [no original em inglês: “put petrol in them and fucking fly them to Dublin”]. A sério, não entendo porque há atrasos de dois a três meses nisso", afirmou numa teleconferência com investidores sobre os resultados financeiros da companhia aérea. "Cheira a um desempenho pobre da gestão em Seattle."

A Boeing não respondeu a um pedido de comentário sobre os comentários de O'Leary.

Criticar a gestão

O'Leary disse que a Boeing fabrica ótimos aviões, mas que talvez seja hora de mudar a sua gestão.

"Ou a gestão atual precisa de melhorar o seu jogo ou eles precisam de mudar a gestão, essa seria a nossa visão da vida", disse. "Estamos muito felizes em trabalhar com a gestão atual, mas eles precisam de melhorar muito o raio do que estão a fazer ao longo dos últimos 12 meses... Somos um cliente com boa vontade, mas estamos a lutar contra estas entregas lentas e uma incapacidade de fazer um acordo sobre novas aeronaves, apesar do número de ‘caudas brancas’ que eles têm pousadas no chão em Seattle.”

A Boeing enfrentou vários problemas nos últimos anos, incluindo a crise do 737 MAX, que custou mais de 20 mil milhões de dólares [19,15 mil milhões de euros ao câmbio atual]. A empresa foi também atingida por uma suspensão de entregas do seu 787 Dreamliner ordenada pela FAA [Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos] em junho passado, devido a problemas de controlo de qualidade. E enfrentou atrasos na aprovação do seu jato da próxima geração, o 777X, o que forçou a Boeing a adiar as primeiras entregas do avião em dois anos, pelo menos até 2025.

A Boeing também sofreu perdas substanciais nos seus negócios militares e espaciais, incluindo uma multa recente de 660 milhões de dólares [632 milhões de euros] por causa de dois aviões que está a concluir e que serão usados ​​como os novos Air Force Ones [aviões do presidente dos Estados Unidos]. Também está combater atrasos na construção de uma nave espacial para transportar astronautas dos EUA para a Estação Espacial Internacional.

“Se eles conseguirem resolver as suas merdas [original: “get their shit together], estaríamos dispostos a levar mais aeronaves para o verão de 23 e o verão de 24”, disse O'Leary. "Há crescimento a ser conquistado."

O'Leary também disse que a companhia aérea está disposta a reiniciar as negociações sobre um pedido para a nova geração do 737 MAX, embora tenha realçado que ainda não obteve a aprovação da FAA, tornando-se arriscado ficar a depender disso. Portanto, a Ryanair também está a pensar em comprar 50 jatos no mercado de segunda mão. E ele também tinha palavras escolhidas para a equipa de vendas da Boeing:

"Você pergunta-se o que diabo fez a equipa de vendas deles nos últimos dois anos", afirmou O'Leary. “Francamente, a maioria deles parece estar sentada em casa com a porra dos seus pijamas [original: “in their fucking jimjams”] a trabalhar em casa, em vez de estar a vender aviões a clientes.”

O'Leary também criticou o plano da Boeing, anunciado recentemente, de mudar a sua sede empresarial de Chicago para Arlington, Virgínia, um subúrbio de Washington.

"Mudar a sede de Chicago para a Virgínia, embora possa ser bom para o lado da defesa do negócio, não resolve os problemas fundamentais subjacentes no lado das aeronaves civis em Seattle", disse ele.

Outras críticas de clientes

Além de O'Leary, várias outras companhias aéreas reclamaram em teleconferências recentes - embora em linguagem muito menos colorida - sobre os problemas que enfrentam com atrasos do 787 ou 777X.

Domhnal Slattery, CEO da Avolon, uma das principais empresas de leasing de aeronaves do mundo, sugeriu no início deste mês que a Boeing precisa de uma mudança de cultura – e talvez de liderança.

"Acho justo dizer que a Boeing perdeu o rumo", disse Slattery na conferência do Airfinance Journal, em comentários divulgados pela Reuters e confirmados pela Avolon. "A Boeing tem uma história célebre... Eles constroem grandes aviões. Mas dizem que a cultura come a estratégia ao pequeno-almoço e foi isso que aconteceu na Boeing."

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