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Colunista e comentador

Pior do que "Taynan" são aqueles que fazem dele um herói

23 jan, 15:17

Rui Santos escreve sobre casos de (des)proteção da verdade desportiva e do desportivismo e diz que é preciso esperar mais das reações dos clubes: pede-se-lhes responsabilidade e frieza, acima da quentura e emocionalidade dos adeptos

Sei que há sensibilidades diferentes perante o tema, e discordarei sempre daqueles que entendem haver na competição valores superiores a defender, acima da verdade desportiva.

As “vitórias limpas" são as únicas que contam. E por isso é preciso investir na natureza e na qualidade do desempenho de quem regula o jogo de acordo com as suas leis, que são — não apenas mas também — as equipas de arbitragem.

No futebol, vivi e cresci num país em que o edifício da arbitragem foi assaltado durante décadas de uma forma vil e vergonhosa, desde os dirigentes/nomeadores até aos árbitros e aos então chamados fiscais-de-linha.

Todos tentaram capturar os inquilinos desse edifício, mas só os mais fortes e persistentes conseguiram tirar benefícios dessa captura.

Tivemos nomeadores em linha aberta com presidentes de clubes e tivemos árbitros ou aliciados com sexo ou coagidos a decidir em favor dos autores da coação.

Faz parte do lado negro da história do futebol e foi por isso que, vendo o que vi, in loco, nas décadas de 80 e 90, sempre defendi maior e melhor escrutínio.

A batota esteve instalada tempo de mais e, por isso, a defesa de maiores e melhores ferramentas de escrutínio, através da videoarbitragem.

É preciso ter a noção de que, não eliminando o lado não objectivo das leis de jogo, haverá sempre uma zona cinzenta na condução dos jogos pelas equipas de arbitragem e nas decisões que tomam e o exercício de nomeação, também subjectiva, pode levar a muitas entorses.

O nomeador tem um poder enorme nas mãos porque ele, mais do que ninguém, sabe o perfil de quem nomeia para aquele jogo ou para aquele estádio em específico, e por isso pode antever comportamentos.

O VAR não veio resolver tudo, porque há uma parcela de subjectividade que não é eliminada, nas questões técnicas e disciplinares, e, portanto, percebendo isso, líderes ou serventuários de uma ideia de domínio a qualquer preço continuarão a habitar este planeta.

É preciso combater isso e não é com comunicados pontuais a reclamar prejuízo ou benefícios dos adversários que se avançará no Futebol e no Desporto em geral. É com medidas estruturantes que correspondam à evolução de um sistema que se habituou a viver assim e a premiar generosamente aqueles que sabem viver nele e se alimentam dele.

Esta semana tivemos dois casos que merecem profunda reflexão.

O primeiro no futsal, na final da Taça da Liga entre o Benfica e o Sporting, em que um jogador suplente dos ‘leões’, Taynan, de colete vestido, decidiu entrar em campo para interromper uma jogada de ataque do Benfica.

Como é possível um árbitro não expulsar um jogador nestas circunstâncias, mostrando-lhe “amarelo”? Não é este um exemplo maior de conduta imprópria e de tudo aquilo que o desporto não deve consentir?

Um jogador que tem uma conduta tão antidesportiva tem de ser expulso! Ponto de exclamação!

Não há aqui defesa de emblemas ou coabitação com interesses inconfessados. Há apenas a proteção do valor supremo da competição — a verdade desportiva e o desportivismo.

Pior do que “Taynan” são aqueles que fazem dele um herói.

Em lado oposto, felizmente, o segundo caso, na Liga portuguesa, nesta primeira jornada da segunda volta, em Vizela. O protagonista foi Hjulmand. O Sporting estava a perder em cima do intervalo, Samu, do Vizela, fica a queixar-se deitado no relvado sem que os vizelenses atirassem a bola para fora a fim de se prestar assistência médica ao seu jogador e foi Huljmand quem o fez, o que até motivou protestos de colegas, nomeadamente Esgaio.

No nosso futebol, particularmente, talvez por consagração do regime do benefício ao infractor, continua a existir uma plêiade de chicos-espertos, permitam-me a expressão porque não vejo outra mais adequada, segundo a qual quem tem gestos de proteção da verdade desportiva, do fair-play e da integridade das competições é tó-tó, lírico ou romântico.

Deixem-nos falar. Temos de acreditar, defendendo as boas práticas no desporto — os seus valores supremos — que um dia ficarão agarrados e presos às suas barbaridades. Mesmo na agitação dos milhões, Futebol e Desporto sem ética e sem cumprimento das regras será a consagração da mentira e da fraude. Não podemos aceitar isso. Nunca!

O Futebol e o Desporto devem agir contra os batoteiros e premiar os gestos que nos elevam como seres humanos.

Sem hesitações.

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