O golo de Rui Costa que trazia dez vidas dentro

29 jan, 10:01

9 de abril de 2005, Milan-Brescia: a anatomia de um golo que demorou onze dias - e mais dez segundos

Este é um fim de semana especial. A MF Total chega à edição mil: um número redondo e sintomático da importância que a revista tem assumido na história do Maisfutebol. Para celebrar esta data, viajámos no tempo. Oito jornalistas escolheram a reportagem que mais os encantou escrever. Esta é a escolha de Nuno Madureira, foi publicada a 4 de março de 2014 e recorda em conversa com Rui Costa o golo mais emocional da carreira do Maestro.

Boas leituras.

Esta é a história de um golo com ligação direta às emoções mais primitivas. Não precisa de coordenadas GPS, de subtilezas táticas ou de movimentações complexas. Para os apressados pode resumir-se a um clip de dez segundos: um homem, uma bola, dez toques de pé direito e uma parábola perfeita. Pelo menos na aparência.

Procurando mais fundo, este é um dos golos mais compridos da história do futebol: demorou praticamente onze dias - e mais dez segundos - a ser construído até ao momento em que a bola pára no fundo da baliza de Castellazzi, o guarda-redes do Brescia nesse sábado, 9 de abril de 2005.

Os abraços de Shevchenko e Serginho

O homem dos dez toques é Rui Costa, e são as suas palavras que ajudam a perceber até que ponto este golo é diferente dos outros. É o dia 29 de março, dia em que Rui comemora o 33.º aniversário. Estamos a bordo de um jato privado, um Beechcraft Hawker 800, que se aproxima do aeroporto de Malpensa. A bordo, além da tripulação, seguem oito pessoas, o número 10 do Milan e toda a família próxima, incluindo os dois filhos, a sua mulher e os pais.

Rui Costa
«Era uma pausa para jogos de seleções e no Milan éramos quase todos internacionais. Só ficavam os mais velhos que já tinham renunciado à seleção: eu, o Costacurta, o Maldini, o Seedorf, e poucos mais. Ao todo, éramos uns cinco ou seis e, dado que as competições paravam, Ancelotti acabava por dar-nos uns dias de folga. Como o aniversário do meu pai é a 26 e o meu a 29, fomos passar três dias na praia, em Sharm-El-Sheik, com o compromisso de voltar no meu dia de anos.»

É já com Malpensa à vista, por volta das 13.30 italianas, que o comandante chama Rui Costa ao cockpit para o informar de um problema: o trem de aterragem não sai e também não obedece ao comando manual, de recurso. Se a situação não se resolver vai ser preciso fazer uma aterragem de barriga, com todos os riscos inerentes. Depois de longos minutos a voar em círculos e de uma primeira aproximação à pista, para a torre de controlo fazer a confirmação visual do problema, a decisão fica tomada. Cabe ao jogador gerir a informação e a forma de comunicá-la à família.

Rui Costa
«Lembro-me de falar com o comandante e de lhe dizer: “Não me deixe a família toda morrer aqui”. Estupidamente, só quando ele respondeu “Rui, nós também não queremos morrer” é que me lembrei que estava a lidar com pessoas, tão interessadas em resolver o problema como nós. Quando ele me explicou o que ia fazer e me disse que estava preparado para fazer o necessário eu respondi: “Preparado quer dizer o quê? Já fez isto antes?” Ele respondeu que o fazia muitas vezes no simulador e não aguentei: “Eu também jogo muito bem na Playstation, mas a sério é diferente.” Mas até à aterragem tentei transmitir uma impressão de calma: a minha preocupação era a de que os meus filhos, e os meus pais, não vivessem momentos de pânico.»

O tempo de espera por cima de Malpensa tinha sido suficiente para o pessoal do aeroporto cobrir a pista com espuma, diminuindo o atrito e os riscos de incêndio. E também para que bombeiros, paramédicos e equipas de TV se dirigissem ao local, à espera de um final feliz. São 14.03 quando Rui Costa avisa a família para tomar as posições de emergência, com a cabeça entre os joelhos, e o avião se faz à pista.

Rui Costa
«Antes de descermos pedi ao meu pai para me passar a mala onde tinha o telemóvel. Disse-lhe: “Assim que aterrarmos preciso de avisar Milanello de que vou chegar tarde ao treino.” Era a última coisa que me preocupava naquela altura, mas foi uma forma de projetar normalidade para o que vinha aí. Íamos aterrar, e depois ia tudo voltar ao normal. Não sei se foi sentimento genuíno, ou uma forma de bloquear o medo, para não assustar os meus filhos, mas naquela altura senti que ia correr tudo bem. Tanto que me lembro de olhar pela janela, quando tocámos na pista, e ter a sensação de que nada de extraordinário ia acontecer. A verdade é que já tive aterragens com trem bem mais agitadas do que essa.»

Assim que o avião se imobiliza e a porta se abre, Rui Costa confirma que todos estão bem e, já no solo, procura os pilotos para os abraçar. Depois, com a família entregue aos paramédicos, cumpre o prometido: avisa os responsáveis, em Milanello, de que vai a caminho. Dizem-lhe para ir para casa e recuperar do susto, mas o médio insiste: precisa de ganhar referências, de ficar a sós com os pensamentos, de deixar a família em segurança e reencontrar a normalidade. Se for preciso treinará sozinho, mas ninguém se atreva a deixá-lo à porta.

Rui Costa
«Tinha um carro no aeroporto, pronto para seguir. Faço a viagem sozinho, de Malpensa para Milanello, e é no carro que tenho a descarga de adrenalina e começo a chorar. Quando chego, equipo-me, vou para o treino. Todos param o que estavam a fazer, rodeiam-me, dão-me conforto. O mister Ancelotti pergunta-me se quero participar no treino com bola e eu digo que sim. Ainda hoje não me lembro do que se passou nessa sessão, mas os meus colegas contaram-me: nunca parei de correr. Quando a bola saía do campo e a sessão parava, em vez de pegar numa das 500 bolas que tínhamos à nossa volta eu ia a correr atrás dela, como os miúdos.»

Nessa noite, a festa de aniversário é substituída por um jantar silencioso, em família, a olhar para as imagens da aterragem de emergência, na TV.

Dez toques, dez segundos, dez vidas

Passam onze dias até haver jogo. O Milan lidera a Série A, com vantagem curta sobre a Juventus. Vai acabar por perder o título, com polémica, mas por essa altura tudo vai bem. O técnico, Ancelotti, tem dois sistemas: nos jogos mais exigentes, um 4x3x2x1, também chamado «árvore de Natal», com Shevchenko como única referência na frente. Nos jogos mais acessíveis muda para um 4x4x2 em losango, com Rui Costa como vértice mais adiantado. É assim que vai enfrentar o Brescia, com San Siro à espera de uma vitória que deixe a equipa mais perto do título.

Nessa altura, Rui Costa passa por uma seca goleadora. Nada de invulgar na passagem pelo Milan, onde Shevchenko e Inzaghi ficavam com a parte de leão e a eficácia do maestro era medida em assistências. Foram 65 em cinco épocas, e algumas simplesmente inesquecíveis, como esta, de 60 metros, frente ao Real Madrid, em 2002:

Mas a perspetiva de um jogo com o Brescia, a quem marcava regularmente, também funcionava como um estímulo extra para o médio português: cinco dos seus 11 golos rossoneri tiveram os rondinelle como vítimas.

Rui Costa
«O Brescia era a minha vítima habitual. Quando estava enguiçado, sem marcar, já olhava para o calendário, para ver quando chegava o jogo com eles. Essa foi uma semana tremenda, a adrenalina demorou a dissolver. Costuma dizer-se que os jogadores precisam dela para render mais, mas daí a recomendar um susto destes por semana vai uma distância enorme [risos]. Mas o certo é que esse jogo me correu bem, e em parte por tudo o que aconteceu antes.»

Adrenalina, confiança, motivação extra: os ingredientes para a tempestade perfeita que se avizinha. Aos 14 minutos, Rui Costa recebe a bola de Gattuso, a seguir ao grande círculo. À sua frente, Seedorf, vigiado. Mais adiante, Shevchenko e Tomasson, que fixam a defesa visitante. Sem opções imediatas, Rui conduz a bola para a esquerda, à procura de uma solução que, para já, desconhece em absoluto. Cinco toques de pé direito dão velocidade ao lance, mas deixam-no encostado à linha, vigiado de perto pelo número 3 do Brescia, o lituano Stankevicius. É então, com o sexto toque, que a mudança de direção anuncia a solução perfeita.

Rui Costa
«A única ideia até aí é ir andando. Se o defesa me apertasse muito eu ficava fechado, virado para a linha lateral. Mas como ele dá alguma distância eu consigo parar o movimento,virar-me e ficar de frente para a área. Quando tiro a bola para o lado ele escorrega e cai e eu ganho espaço para decidir. A primeira intenção é cruzar para a área, mas quando levanto a cabeça vejo que o Tomasson está coberto pelos defesas. E é nesse instante que o outro defesa vem fazer a dobra e me dá uma referência perfeita. Ao lado do seu corpo vejo um espaço da baliza sem guarda-redes. É como a barreira, nos livres: o defesa está a dar-me a mira, a mostrar-me onde tenho de pôr a bola.»

Serginho avança pela esquerda, a pedir o passe para a linha de fundo, mas nesta altura Rui Costa já não precisa de alternativas. Os três toques que usou para ultrapassar Stankevicius fazem-no aproximar-se da quina da grande área, mas é bem antes de chegar à linha que o costarriquenho Martínez lhe dá a referência para o movimento de compasso com a perna direita.

Ao décimo toque nasce a parábola perfeita: há jogadores que passam toda uma carreira sem conciliar força e precisão daquela forma, nem sequer nos treinos. A trajetória em arco tem ponto de chegada na parte inferior da trave de Castelazzi, que lhe dá o ponto de exclamação para uma frase definitiva. Passaram dez segundos desde que iniciou o arranque para a esquerda e, assim que vê o desfecho, Rui Costa começa a correr na direção oposta, afastando os companheiros com um gesto enérgico do braço. Para onde corre? O clip já não o mostra.

Rui Costa
«Foi um dos melhores golos que marquei. Mas o festejo é a expressão de toda essa semana. Começo a correr na direção da minha família, que estava quase do outro lado do estádio, é com eles quero festejar tudo o que se passou, o facto de estarmos todos bem. No fim, perante os jornalistas, dediquei o golo ao comandante. Embora tenha tentado mais tarde, nunca mais voltei a ter contacto com ele.»

Esse foi o último dos 42 golos que Rui Costa marcou na Série A. Muitos deles mágicos, como este. Mas nenhum demorou onze dias - e mais dez segundos - a nascer. Nenhum outro tem uma história com tanta vida: é uma parábola com dez vidas dentro, para sermos mais precisos.

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