Depois das reformas, as licenças sem vencimento para trabalhar fora das escolas. "Ninguém quer ser professor"

18 set, 20:45

Ao contrário do ensino público, nos colégios privados as aposentações de professores pouco se sentem

Os números ajudam a explicar a vaga nunca vista de aposentações de professores no ensino público: 57% dos professores do público têm mais de 50 anos. Pelo contrário, no privado são apenas 24%, como revelam os últimos dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência.

Rodrigo Queiroz e Melo, da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo, admite que os privados também já sentem a falta de docentes – "já não temos tantos currículos para escolher" –, mas o problema está longe de ser tão grave como no público, onde as escolas têm pouca margem e autonomia para melhorar as condições aos docentes.

A falta de professores nas escolas públicas é um problema que se vai agravar nos próximos anos com o mais que previsível crescimento das reformas, avisa Luís Catela Nunes, professor na Universidade Nova de Lisboa e especialista em Educação, que defende medidas de emergência para evitar que os alunos fiquem sem aulas.

"Quase nada foi feito para tornar a carreira docente mais atrativa", afirma o investigador que em 2021 liderou um estudo encomendado pelo Ministério da Educação para perceber as necessidades de docentes até 2030.

"Ninguém quer ser professor", constata o presidente Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas, que já chegou a fazer essa pergunta aos alunos da sua escola e não viu um único dedo no ar.

Além das aposentações, Filinto Lima está preocupado com outro fenómeno: há cada vez mais professores dos quadros a pedirem licença sem vencimento para trabalhar noutras áreas, numa altura de quase pleno emprego na economia em que é fácil encontrar um emprego noutra área a ganhar mais e com melhores perspectivas de progressão na carreira.

Paulo Maeiro é um desses casos: professor de Química e Física no Alentejo, chegou a ser diretor da sua escola em Odemira. Era docente há duas décadas, ganhava cerca de 1.300 euros limpos por mês e estava cansado de perder poder de compra. Este ano letivo, no entanto, não vai entrar numa sala de aula – pediu licença sem vencimento e foi trabalhar para outra área.

"Por mais paixão que tenhamos por ensinar os nossos alunos e estarmos envolvidos na comunidade, não é suficiente para mitigar a diferença salarial. O mercado cá fora é muito mais apelativo que o ensino e eu nem estava afastado de casa e tinha estabilidade, mas a diferença hoje é abismal", conclui o professor que tão cedo não espera voltar a dar aulas.

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