Porto de Sines paga fatura pesada pelo atraso na ferrovia
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Adiamento da linha Évora–Caia para 2028 cancela comboio diário
O porto de Sines vai perder 23% do tráfego de contentores que movimenta por comboio. A MSC transferiu para um porto espanhol a ligação ferroviária diária a Sevilha, em funcionamento desde 2018, com um comboio em cada sentido. O motivo é um novo adiamento na entrada ao serviço da linha Évora–Caia. Em janeiro passado, o ministro das Infraestruturas e Habitação anunciou comboios no prazo de um ano. Afinal, isso só acontecerá em 2028.
São 50 mil contentores de 20 pés (TEU) por ano que saem da ferrovia portuguesa. Em 2025, Sines movimentou por comboio 218,5 mil TEU, segundo o relatório e contas (R&C) da Administração dos Portos de Sines (APS). O serviço para Sevilha era quase um em cada quatro.
"Hoje é um dia histórico", declarou Miguel Pinto Luz a 16 de janeiro, de visita ao Alandroal para dar as obras como concluídas. Só faltava a sinalização. O governante deu um prazo: comboios "no final deste ano, princípio do próximo ano". Quase dez meses depois, a linha continua vazia. E a data fugiu. "Já fomos informados de que só será em 2028", lamenta Carlos Vasconcelos, presidente executivo da Medway.
Ferrovia de Santa Engrácia
A operadora de mercadorias líder na Península Ibérica garantia a ligação à Andaluzia para a MSC, com comboios de 750 metros, por um percurso sinuoso: Sines, Linha do Sul, Linha de Vendas Novas, Linha do Norte até ao Entroncamento, Linha da Beira Baixa até Abrantes, Linha do Leste até Elvas e Badajoz. A nova ligação a Elvas foi múltiplas vezes adiada. Agora, foi a gota de água. "Se fosse aguentar até ao final do ano, aguentávamos. Esperar um ano e meio não vale a pena", afirma Carlos Vasconcelos. A decisão foi tomada pela Medway e pela MSC, cliente e acionista, em conjunto.
Sem a Évora–Caia, os comboios para Espanha dão uma volta de 140 quilómetros a mais. O caminho alternativo, a Linha de Vendas Novas, também está em obras: 120 milhões de euros e 48 meses de prazo, desde dezembro de 2025. Com as limitações de circulação, a Medway perdeu 19 comboios numa só semana, conta Carlos Vasconcelos. Do lado espanhol, há também problemas entre Sevilha e Badajoz.
O Governo culpa os ladrões e a falta de certificadores pela derrapagem de prazos. "Os furtos e atos de vandalismo, designadamente em equipamentos de catenária, sinalização e telecomunicações, têm provocado a necessidade de refazer a obra", revela o ministro. A contratação de certificadoras independentes também “tem demorado mais do que o previsto, devido à escassez destas entidades em Portugal e à crescente mobilização de empresas estrangeiras para processos semelhantes em curso na Europa”, explica Miguel Pinto Luz, em resposta escrita remetida à CNN pelo seu gabinete.
Escaldado, o governante não se compromete com nova data: “é prematuro” arriscar esse exercício. A proposta de Orçamento do Estado, entregue a 8 de outubro, ainda aponta para 2027. Mas os erros de previsão orçamental são uma velha tradição portuguesa.
Sobre o cancelamento da ligação diária à Andaluzia, Pinto Luz não faz comentários. Descreve apenas que os comboios internacionais de mercadorias "continuam a utilizar os itinerários existentes". O de Sevilha já não.