opinião
Economista, investigador e professor universitário

O futuro do PSD também se joga nestas eleições internas do PS

15 dez 2023, 15:30

Após a tempestade que ditou a demissão do Primeiro-Ministro e a queda do Governo, o PS prepara-se agora para escolher um novo líder. Os candidatos têm evitado o confronto directo – não houve sequer debates – com receio de poderem prejudicar o resultado do seu partido nas legislativas. Nas entrevistas surgiram estrategicamente cautelosos e exageradamente contidos.

Alguns estudos de opinião indicam que Pedro Nuno Santos – aquele que tem o pensamento ideológico mais vincado –, entusiasma mais os militantes socialistas. Por outro lado, José Luís Carneiro, menos carismático, mas com maior capacidade de gerar consensos e com um background de algum sucesso em pastas governativas, parece reunir um maior apoio junto dos portugueses em geral. Ambos procuram apresentar-se como o verdadeiro herdeiro do legado político de António Costa; sendo que este último tem evitado opinar, sob pena de perder apoios para um futuro desafio, como, por exemplo, uma candidatura a Belém em 2026…

A maior parte das sondagens para as legislativas colocam o PSD e o PS muito próximos e o Chega com valores surpreendentes. É um facto que as sondagens valem o que valem, mas se não forem muito diferentes dos resultados eleitorais, então, independentemente de quem vier a ser o futuro líder do PS, haverá um bloco maioritário à direita (PSD + Chega + IL + CDS).

Admitindo que o PSD será o partido mais votado, condição necessária para que Luís Montenegro aceite ser Primeiro-Ministro, e dando como boa a sua palavra de que não fará acordos com o Chega, então tal significará que o seu futuro governo ficará nas mãos do PS – é que André Ventura já afirmou que se lhe fecharem a porta então que reprovará uma solução governativa à direita. Ora, se nas internas do PS vencer o candidato apontado como preferido, então a probabilidade de o programa de governo do PSD passar no Parlamento será nula, dado que Pedro Nuno Santos também garantiu que não viabilizará uma solução governativa à direita.

Como se percebe, este desfecho corresponderia na prática a ingovernabilidade, e, consequentemente, a novas legislativas. Alguns dir-me-ão que o PSD já antecipou tudo isto e que, se tal vier a ocorrer, numa segunda campanha eleitoral procurará absorver o Chega que o derrubou e, com isso, conquistar uma maioria absoluta como em 1987. É, no entanto, arriscado pensar que tal sucederia, dado que o Chega poderia sempre ripostar culpando o PSD por lhe ter fechado a porta em primeiro lugar. Já o PS, por forma a pescar eleitorado ao centro, argumentaria com a incapacidade do PSD em formar uma solução governativa duradoura.

Há algo que me parece óbvio: com a porta fechada ao Chega, um futuro governo do PSD também se joga nestas eleições internas do PS.

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