Apareceu com "cicatrizes", diz que Costa evitou a catástrofe e que a direita não vai evitar aliança com "o racismo e a xenofobia": Pedro Nuno, o discurso da íntegra

13 nov 2023, 19:05
Pedro Nuno Santos apresenta candidatura à liderança do Partido Socialista (José Sena Goulão/ Lusa)

Ex-ministro apresentou oficialmente a candidatura. Fê-lo na sede do PS, onde houve euforia

DISCURSO NA ÍNTEGRA

Boa tarde. Quero começar esta intervenção por cumprimentar e agradecer a vossa presença num momento particularmente difícil para o nosso partido.  

Cumprimento também todos os camaradas e simpatizantes que me dirigiram mensagens e  comunicações de apoio nos últimos dias. 

Os acontecimentos recentes, que são conhecidos de todos os portugueses, levaram António  Costa a demitir-se das funções de Primeiro-Ministro e também de Secretário-Geral do Partido Socialista.  

É neste quadro que, aberto um processo eleitoral interno para a eleição dos órgãos do Partido, eu apresento a minha candidatura a Secretário-Geral do PS. 

Os portugueses, tal como os militantes do PS, conhecem-me. Conhecem as minhas qualidades  e os meus defeitos. Conhecem o meu inconformismo e a minha combatividade; conhecem a  minha vontade de fazer acontecer e os meus sucessos; conhecem também os meus erros e as  minhas cicatrizes. 

Sim, os erros que cometemos e as cicatrizes que carregamos fazem parte das nossas vidas. 

Aqueles que não fazem e não decidem, os que se limitam a gerir e a manter o que existe, esses  raramente cometem erros.  

Mas ainda mais importante do que termos consciência dos nossos erros é saber o que fazer com  eles. 

Quem os comete, deve com eles aprender. E quem aprende com os erros, está preparado para  os evitar e melhor decidir no futuro. Quem decide e faz não pode ter medo de os cometer.

Cada um é o resultado da educação que recebeu, do meio onde cresceu e das experiências que  teve.  

Sou natural de São João da Madeira, terra com a palavra “Labor” no topo do seu escudo. Terra  de empresários e trabalhadores; de trabalhadores que se fizeram empresários e de empresários  que voltaram a ser trabalhadores.  

O meu pequeno concelho existe fruto do trabalho e do esforço criativo do seu povo.  

Começámos por ser o principal pólo da indústria chapeleira do país e um dos principais focos da  revolução industrial em Portugal.  

Mas os usos e costumes mudam e evoluem. As pessoas, os homens em particular, deixaram de  usar chapéus e a indústria chapeleira entrou em crise.  

Mas os trabalhadores e os empresários de S. João da Madeira não baixaram os braços e a queda  da indústria chapeleira foi substituída pela indústria de calçado.  

Como o mundo não pára, o setor do calçado hoje é só mais um entre muitos. A capacidade de  criar e de fazer, de cair e de reerguer faz parte da identidade de ser sanjoanense. 

Também faz parte da minha. 

Sou neto de sapateiro e filho de empresário.  

Cresci com as dificuldades das famílias trabalhadoras e com tantas desigualdades e injustiças  diante dos meus olhos. Não é por acaso que falo tantas vezes das gaspeadeiras: aquelas  mulheres que trabalham horas e horas em frente a uma máquina de costura para poder criar os  seus filhos e ajudá-los a ter uma vida melhor do que a delas.  

DISCURSO NA ÍNTEGRA

Mas também cresci com os desafios e as ansiedades permanentes dos empresários que lutam para conseguir encomendas que garantam a sobrevivência das suas empresas.  

A produção na minha terra nunca se fez colocando umas pessoas contra as outras.  

O diálogo, a negociação e a concertação são uma das marcas do desenvolvimento de São João  da Madeira.  

O setor do calçado foi sempre um dos maiores exemplos de concertação social, de acordos entre  trabalhadores e empresários. Foi esta cultura de diálogo, de negociação e de concertação que me ajudou nos anos em que trabalhámos diariamente com os partidos que apoiavam o governo  do Partido Socialista. 

Em 2014, fui um dos primeiros presidentes de federação do PS a manifestar apoio à candidatura  de António Costa a Secretário-Geral do Partido Socialista. Fi-lo em bom tempo. Tive a  oportunidade de trabalhar com um dos melhores políticos portugueses que conheci.  

António Costa foi o líder que derrubou os muros erguidos entre o PS e os outros partidos da  esquerda parlamentar, foi ele quem teve a iniciativa de desfazer o bloqueio que colocava o PS  em desvantagem face a uma direita que se conseguia entender para governar. António Costa  foi o líder que perante a catástrofe que se abateu em Portugal, aquando dos incêndios de 2017,  liderou uma importante reforma do território, das florestas e da proteção civil que produziu  resultados importantes nos anos seguintes. António Costa foi o líder que conduziu de forma  exemplar o combate à crise pandémica que nos testou enquanto comunidade em 2020 e 2021.  Mas estes anos não foram apenas anos de gestão de crises. Foram anos em que Portugal cresceu  acima da média europeia, em que colocámos o país numa trajetória sustentada de redução da  dívida pública e onde voltamos a colocar o emprego em níveis que já não tínhamos desde o  início do milénio. À pergunta que alguns analistas fazem: “Qual foi o desígnio de António  Costa?”, e para a qual só teremos resposta com o devido distanciamento no tempo, permitam me dar um contributo. Usarei uma expressão do próprio para descrever o seu maior desígnio: “emprego, emprego e emprego”. Foram mais de 600 mil empregos criados desde que o PS  assumiu funções no final de 2015. 

É verdade que ainda há muito por fazer, e que são muitos os problemas que afligem as famílias  portuguesas, mas seria errado e injusto esquecer o legado que é deixado ao país pelos governos  liderados por António Costa. 

Uma investigação judicial ditou o fim do governo. É um momento difícil para a nossa democracia  e para o nosso partido, em particular.  

Não vou ignorar o quanto os acontecimentos da passada semana abalaram as instituições da  República e a sua credibilidade perante os cidadãos. E sobre essa matéria entendo o seguinte:  em primeiro lugar, afirmar, sem margem para quaisquer dúvidas, que o combate à corrupção constitui uma tarefa prioritária e indeclinável do Estado; em segundo, sublinhar a necessidade  imperiosa de observância das regras do Estado de direito democrático, como a presunção da  inocência e a independência do poder judicial. 

Estas matérias são fundamentais e a justiça é central para o funcionamento de uma democracia de qualidade. Mas o PS não vai passar os próximos quatro meses a discutir um processo judicial.  O nosso dever é preparar e defender uma política para o país. Ao longo dos próximos meses  apresentaremos as nossas ideias, nas diversas áreas, para dar resposta aos problemas e anseios  dos portugueses. Mas neste momento permitam-me destacar três preocupações centrais: 

Em primeiro lugar, os salários. Sem salários dignos os trabalhadores portugueses não se sentirão  nem reconhecidos nem respeitados. Sem salários dignos não conseguiremos estancar a  emigração de jovens, daqueles que não saem porque querem, mas porque não se sentem  valorizados no seu país. Sem salários dignos nunca conseguiremos ter uma administração  pública capaz de recrutar e reter quadros qualificados.  

Portugal só conseguirá ser um país desenvolvido e próspero se valorizarmos e respeitarmos  todos os que hoje trabalham, bem como os idosos que trabalharam toda uma vida, e os jovens  que farão o futuro do nosso país. 

Mas não teremos salários dignos no presente e pensões dignas no futuro sem empresas fortes  e rentáveis. Não teremos empresas fortes e rentáveis sem uma economia sofisticada e  diversificada. E não teremos uma economia sofisticada e diversificada sem um continuado investimento na ciência e na inovação, sem a persistente transferência de conhecimento para a economia, e sem o apoio sistemático ao desenvolvimento e a inovação das nossas empresas. Não conseguiremos salários dignos desprezando quem trabalha, mas também não o conseguiremos  desprezando as empresas e ignorando os seus desafios. Reconhecemos que as empresas são  comunidades entre empresários e trabalhadores, e que as relações entre uns e outros são feitas de  direitos e de obrigações. É por isso que o PS é a plataforma política que melhor defende e promove  o diálogo, a negociação e a concertação entre empresários e trabalhadores. 

Em segundo lugar, a habitação. As famílias portuguesas têm sido esmagadas pela inflação e pelo  aumento das taxas de juro. Se, por um lado, os salários são baixos por outro o custo de vida é  alto. Na parcela dos custos pesa muito a despesa com habitação - seja com a compra, o  arrendamento ou o crédito.

A habitação não é só um teto, é o espaço onde organizamos a nossa  vida, onde vivemos em família, onde nos refugiamos e nos sentimos seguros. É o nosso primeiro  direito - porque sem ele dificilmente conseguiremos garantir os outros. Mente aos portugueses  quem disser que tem uma solução única, rápida e eficaz para o problema do acesso à habitação.  O problema é de difícil resolução e não é apenas nacional. Em 2020, comigo Ministro com a  pasta, lançámos o maior plano de investimento público em habitação da história da nossa democracia. É verdade que os processos são demorados - mas já temos a quase totalidade dos  nossos municípios a trabalhar, duas mil e quinhentas casas entregues, dezoito mil em fase de  projeto e obra. Serão mais de trinta mil casas até 2026.  

Ainda estamos muito longe do parque público que precisamos, é verdade, mas o trabalho que  iniciámos não tem precedentes na história recente. Já depois da minha saída, o governo adotou  mais medidas para dar uma resposta imediata ao problema. Queria destacar o apoio às rendas  criado este ano e que já abrange mensalmente 185 mil famílias. Bem sei que não é suficiente e que teremos de voltar ao tema porque ele é prioritário para os portugueses. O diálogo, a  negociação e a concertação entre inquilinos e proprietários, e entre famílias e bancos serão  decisivos para o sucesso da nossa estratégia.  

Em terceiro lugar, valorizar o território. Os problemas dos que vivem nos grandes centros  urbanos são reais e merecem a nossa atenção, mas os portugueses que vivem fora de uma  estreita faixa do litoral sentem-se há muitas décadas cidadãos abandonados num território  esquecido. Queixamo-nos de Portugal ser um país pequeno, mas damo-nos ao luxo de não  aproveitarmos plenamente mais de 70% do nosso território. Desenvolver o interior e os  territórios de baixa densidade não é só cuidar e respeitar o povo que nunca desistiu das suas  terras, é também pensar no desenvolvimento de Portugal como um todo.  

Seremos uma comunidade mais forte, mais rica e menos desigual quanto melhor soubermos  aproveitar todo o nosso território. Será através do diálogo, da negociação e da concertação com  o povo do interior, os seus autarcas e as empresas que conseguiremos construir as políticas que  permitirão a Portugal ser um país inteiro. 

Aqui, quero também lembrar as regiões autónomas e o povo açoriano e madeirense. Portugal  inteiro é continental e insular. Os açorianos e madeirenses sabem que podem continuar a contar  com o PS.  

No próximo ano, Portugal comemorará os 50 anos do 25 de Abril. 2024 será um ano de  renovação da esperança de abril, de defesa do que conseguimos construir enquanto  comunidade nestas cinco décadas de democracia, do SNS à escola pública, mas também um ano  de exigência e de lançamento das reformas que o país e o Estado social precisam. De reformas  que aprofundem e desenvolvam as nossas conquistas - e não das reformas que a direita quer impor ao país e que visam sempre a mesma coisa: diminuir direitos.  

É muito importante lembrar que a direita não cumpre as suas promessas nem faz o que apregoa.  A direita fala muito em controlo das contas públicas, mas no seu último governo começou o seu  mandato com a divida pública nos 114% do PIB, e acabou com 131%. A direita cortou salários e  pensões quando prometeu que não o faria. Cortou na saúde e na educação quando prometeu  que não faria. Aumentou impostos quando prometeu que não o faria. 

É muito importante lembrar todas estas promessas que a direita prometeu e não cumpriu  porque ainda agora nos promete que não fará acordos com a direita populista, racista e  xenófoba, quando é precisamente isso que se prepara para fazer. É muito importante lembrar  que a direita não cumpre promessas quando diz que quer baixar impostos, aumentar pensões  ou recuperar o tempo de serviço dos professores. A direita simplesmente não tem credibilidade. 

Quando celebrarmos no próximo ano os 50 anos do 25 de Abril, será a primeira vez que o país  poderá eleger um líder que já nasceu em liberdade. Nessa data seremos muitos os milhões que,  como eu, tiveram a sorte de viver quase toda a sua vida numa sociedade com as instituições  essenciais de um Estado de direito democrático e social: eleições livres; liberdade de expressão  e de associação; uma justiça independente; uma escola pública que garante a educação de  todos, sem olhar à origem social; um serviço nacional de saúde que não pergunta se o doente  tem dinheiro para pagar o tratamento; uma segurança social pública que protege todos,  independentemente da idade ou dos azares da vida.

Talvez por não termos vivido num passado em que nada disto existia; talvez por não termos memória pessoal desses tempos, possamos esquecer que a democracia e o Estado Social são as  maiores construções coletivas de que fomos capazes. Talvez as vejamos como conquistas  irreversíveis. Mas não são. 

Não chega comemorar estas conquistas, é preciso consolidá-las. É preciso garantir os meios  necessários à escola pública e ao SNS, bem como todos os outros serviços públicos essenciais ao  bem-estar da população. Assegurar que os portugueses têm as bases essenciais para gozar a  liberdade que devia ser de todos: um salário digno, uma casa, saúde, segurança e sonhos  concretizados. 

Só com o Partido Socialista unido e forte poderemos proteger o legado que tanto custou a erguer,  mas também construir o futuro com a certeza de que podemos viver melhor na nossa terra, viver  melhor em Portugal. Só com o Partido Socialista unido e forte é que será possível melhorar as  condições de vida e dar esperança no futuro à esmagadora maioria das pessoas. 

Ao longo do último meio século, o Partido Socialista - o partido de Mário Soares, de Manuel Alegre,  de Salgado Zenha, de António Arnault, de António Guterres, de Jorge Sampaio, entre outros - foi o  lugar de encontro e de debate entre sociais-democratas, humanistas e progressistas.  

O PS foi, é e continuará a ser o espaço comum de quem acredita na liberdade e na igualdade, e de  quem as entende como valores fundacionais de uma comunidade decente - uma comunidade em  que o respeito pela dignidade humana, a tolerância e a solidariedade.  

Camaradas,

Muito se tem falado de uma suposta divisão no PS entre uma ala “centrista e moderada” e uma ala  de “esquerda e radical”. Mas esta discussão tem pouco sentido. Alimenta conflitos artificiais e apenas  serve a quem combate o PS. Na pluralidade que sempre existiu neste partido, o que está em causa  não é uma disputa entre a moderação e o radicalismo.  

O que está em causa é, antes, quem, num dado momento, está em melhores condições de unir o  partido, é mais capaz de adequar os valores do PS a um dado contexto histórico, e é o melhor  intérprete e executante do projeto de transformação do país de que o PS tem de ser o portador. 

É por tudo isto que sou candidato a Secretário-geral do Partido Socialista. Sou candidato porque sou  herdeiro dos seus fundadores, dos seus valores e suas ambições. Sou candidato porque acredito no  meu país e tenho a esperança de convosco sermos capazes de vencer os desafios do futuro de Portugal. 

Força camaradas, temos umas eleições para vencer! 

Viva o PS! Viva Portugal!

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