"Não volto a ter um filho no público". Porque é que cada vez mais mulheres escolhem ter filhos nos privados

2 jul, 08:00
Parto (Getty Images)

Duas grávidas com experiências diferentes contam o porquê de terem feito as opções que fizeram. Uma foi para o público e a outra para o privado. Tal como os diretores dos serviços de Obstetrícia dos dois maiores hospitais portugueses, não têm dúvidas: se houver problemas, o público ainda é a melhor solução

"A minha experiência foi completamente traumática". Carlota teve um bebé num hospital público há três anos, ainda antes de todas as complicações da covid-19. Em conversa com a CNN Portugal, admite que só optou pelo público por causa do dinheiro: "Não tinha seguro e um parto no privado custava cinco mil euros". Agora, diz, se voltar a engravidar, vai escolher um hospital privado para todo o processo, como cada vez mais mulheres em Portugal. A tendência mostra que o número de partos realizados no público tem vindo a diminuir, ao mesmo tempo que o número de partos realizados no privado tem aumentado.

Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), realizaram-se 69.231 partos nos hospitais públicos em 2018, número que vem descendo de ano para ano, atingindo os 60.966 partos em 2021 (segundo os dados referidos no Portal da Transparência do Serviço Nacional de Saúde), o número mais baixo de sempre. Em sentido contrário está o setor privado, que em 2018 realizou 12.366 partos, número que terá subido para perto dos 16 mil, fazendo a subtração do total de nascimentos em estabelecimentos de saúde em Portugal (77.005) e o número de partos efetuados no público. Trata-se de um máximo histórico, sendo que em 2020 tinham sido 14.354 os partos realizados no privado. 

Uma realidade que é espelhada em Lisboa e Vale do Tejo, onde, segundo o jornal Público, cerca de 30% dos partos de 2021 ocorreram no setor privado, sendo que os hospitais dos grupos CUF e Luz Saúde atingiram recordes nesse mesmo ano. "A maternidade do Hospital da Luz Lisboa encerrou o ano de 2021 a celebrar pelo segundo ano consecutivo um recorde de nascimentos: 2.898, mais 23 do que em 2020", pode ler-se numa nota daquela unidade.

Estes dados apontam que cerca de 20% dos partos realizados em Portugal no último ano foram efetuados no privado, uma percentagem recorde.

Partos realizados desde 2018
Ano Partos no Público Partos no Privado
2018 69.231 12.366
2019 65.837 13.249
2020 63.009 14.354
2021 60.966 16.000*

Fonte: INE e Pordata

*número que carece de confirmação oficial, uma vez que os dados finais só são conhecidos em dezembro

Uma situação que não se notou no Hospital de Santa Maria, o maior da capital, mas que o diretor de Obstetrícia daquela unidade sabe que ocorreu nos seus vizinhos. Diogo Ayres de Campos afirma à CNN Portugal que este "é um problema generalizado" na região e no País.

"O Hospital de Santa Maria manteve os registos, mas os restantes hospitais públicos da região de Lisboa e Vale do Tejo tiveram decréscimos enormes", admite o médico.

Mais a norte, a tendência mantém-se, e não é de agora, diz à CNN Portugal Marina Mocho, diretora de Obstetrícia do Hospital de São João, no Porto: "Nota-se cada vez mais a diminuição de partos no público".

Os dois especialistas apontam uma série de razões para que isto se verifique, desde uma agudização do problema com a covid-19 às condições díspares de "hotelaria" nos dois serviços.

A importância da "hotelaria" e do acompanhamento

Foi a principal razão de queixa de Carlota, mas também foi fulcral para que Mariana decidisse ter o filho no privado. Esta mulher, que já teve a filha depois de falar com a CNN Portugal, afirma que não colocou a hipótese de ir para o público, em grande parte por causa das condições de "alojamento" que os dois serviços tinham, mas também por achar que o seguimento que iria ter seria completamente diferente, além do acompanhamento que o pai da bebé poderia fazer.

"No centro de saúde ou nos hospitais é muito difícil ter um acompanhamento obstétrico regular", refere à CNN Portugal Mariana, que diz mesmo que foi por isso que optou por ser seguida no privado.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia admite esta como uma das razões mais fortes: "No privado, as mulheres têm o seu médico, em quem confiaram desde o início da gravidez. No público isso não acontece, as pessoas não estão sempre disponíveis para fazer um parto", afirma Nuno Clode à CNN Portugal.

O também antigo diretor do serviço de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria conta que no privado existe sempre um "contacto preferencial", alguém para quem as mulheres podem ligar, mesmo que o parto seja espontâneo, e que em princípio irá realizar o parto na mesma. No público isso não acontece, "é impossível, por causa das escalas".

"No público nunca sabe quem lhe aparece à frente, quem vai lá estar no momento do parto", acrescenta.

"Precisamos que do outro lado esteja alguém de confiança, e isso no público não existe", afirma Carlota.

Marina Mocho compreende este cenário: "Quem não é muito seguro prefere fazer com um médico que conheça. É natural".

Violência obstétrica e uma hemorragia interna

Carlota lembra aquilo que diz ter sido uma experiência para não repetir: "Acabei de ter o filho e deixaram-me num corredor durante três horas, acabada de parir. Não comia há horas, não ia à casa de banho há horas, nunca tinha dado de mamar, tinha um recém-nascido nos braços".

Esta mulher, que foi sempre acompanhada no privado e apenas realizou o parto no público, explica que se queixou várias vezes, mas que os profissionais do Hospital de Santa Maria lhe iam dizendo que "estava na hora da troca de turnos", até que acabou por chamar um superior, que lhe disse que os turnos já tinham sido trocados há algum tempo.

"Estamos a viver um grande dia da nossa vida, mas por outro lado estamos sensíveis. Eu fiquei no corredor esquecida. Não volto a ter um filho no público", conclui.

Já na cama, recorda que não se sentia bem, que chamou por várias vezes as enfermeiras, mas que durante 24 horas ninguém a atendeu: "Sempre que me tentava levantar desmaiava, não é normal".

Uma médica acabou por dar conta da situação e verificou que Carlota tinha uma hemorragia interna. "Só veio porque eu fiz finca-pé", afirma.

Carlota alega ainda que foi vítima de violência obstétrica, explicando que lhe realizaram uma episiotomia (incisão que amplia o canal de parto natural) excessiva: "Cortaram a mais", resume.

Quarto e casa de banho eram partilhados com várias mães e outros recém-nascidos, o que, refere Carlota, não só retira privacidade, como também não a deixou ter descanso: "Estamos a tentar adormecer ou a adormecer o bebé e depois outro bebé começa a chorar e não conseguimos".

"No privado existe a possibilidade de ficar num quarto individual: é muito mais confortável, permite um melhor repouso e mais acompanhamento da família", aponta Diogo Ayres de Campos, mencionando que "são raros os hospitais públicos que conseguem ter esse acompanhamento", garantindo que aquele em que trabalha é um dos poucos.

"Não conseguimos evoluir em termos hoteleiros para proporcionar um apoio de qualidade a seguir ao parto. O parto é um evento de família. Se a família não consegue visitar, deixa de o ser e passa a uma dor de cabeça", acrescenta.

No Hospital de São João, os pais já podem acompanhar todo o processo, mesmo depois do dia do nascimento. É uma experiência de retoma dos serviços, que Marina Mocho diz ser importante para dar mais segurança e confiança às mulheres.

O aumento dos privados e a falta de investimento público

Marina Mocho aponta o aumento dos hospitais privados como uma das causas. Mais oferta, mais competitividade: "Havia menos camas no privado, mas com os hospitais novos têm muita oferta, a situação mudou", refere, dizendo que aqueles serviços mantêm as mulheres o máximo de tempo possível, muitas vezes realizando procedimentos desnecessários.

Diogo Ayres de Campos concorda, e lembra que "antes só Lisboa e Porto é que tinham privados", situação que se reverteu: "Enquanto há uns anos a medicina privada era gerida por pequenos grupos, agora são tudo multinacionais ou perto disso".

Um problema que, para o diretor do serviço de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria, também é político, nomeadamente por causa da questão da falta de exclusividade.

"Alguns são diretores de serviço no público e depois trabalham no privado. Isso gera conflitos de interesse, porque quando uma pessoa tem interesse que o privado floresça não dedica muito tempo a melhorar a medicina pública", afirma.

A questão da exclusividade vem há muito a ser debatida, e daria aos hospitais públicos condições e garantias de que teriam os seus médicos de forma permanente, mas a disparidade de condições para os profissionais nos dois setores é outro problema. Diogo Ayres de Campos lembra que o salário não é o mesmo no público e no privado, apontando que assim é difícil reter talento.

O responsável fala ainda numa "falta de planeamento estratégico" sobre o assunto, pedindo ao Governo que pense melhor a situação. Diogo Ayres de Campos foi, de resto, a pessoa escolhida pelo Governo para a comissão dos serviços de urgências, que procura encontrar solução para o problema detetado nos serviços de urgência de vários hospitais portugueses, nomeadamente nas especialidades de Ginecologia, Obstetrícia e Pediatria: "Também é uma questão de estratégia do Estado. Fica mais barato deixar os partos irem para o privado, é uma estratégia política".

"Se têm covid-19, chutam-nas para o público"

Nem Carlota nem Mariana, muitos menos Marina Mocho, Diogo Ayres de Campos ou Nuno Clode têm dúvida: se alguma coisa correr mal durante a gravidez num hospital privado, as grávidas são imediatamente reencaminhadas para o serviço público.

Uma situação que se tornou ainda mais visível com a covid-19, sendo que, segundo os dois médicos ouvidos pela CNN Portugal, os hospitais privados transferiam todas as mulheres que tivessem testado positivo à covid-19 no período antes ou após o parto: "Assim que uma mulher aparece com covid-19, os privados chutam-nas para o público", afirma a diretora do serviço de Obstetrícia do Hospital de São João.

"Era tudo chutado, de ambulância, mais a ambulância do INEM para transportar o recém-nascido. Tudo isto a cargo da doente. Era uma vergonha", recorda.

Marina Mocho garante que a assistência às mulheres em casos mais complicados é muito melhor no público, sendo que, nos casos mais graves, os privados nem sequer chegam a admitir a doente. É uma realidade que Carlota e Mariana conhecem.

"Tenho a perfeita noção de que, se alguma coisa correr mal, tenho de ser transferida para o público", afirma Mariana, a quem o parto correu sem percalços. Já Carlota, apesar da má experiência que teve, sabe que a nível de saúde esteve sempre mais segura no serviço público.

Diogo Ayres de Campos volta a apontar uma falha estratégica, que diz permitir que a medicina privada fique com "todas as grávidas de baixo risco". De resto, segundo conta, 80% das mulheres que são internadas no serviço de Obstetrícia daquele hospital chegam dos privados.

“Qualquer coisa que os privados precisem, enviam para os públicos. Assim claro que têm números muito melhores que nós. Não só se tem de lidar com as vagas do público, como ainda se põem as vagas dos privados, que nos enviam grávidas”, refere, falando numa questão de sobrelotação dos serviços.

“Mesmo que aconteçam mortes será sempre no público, porque todos os casos graves são enviados pelo privado”, acrescenta Diogo Ayres de Campos.

Nuno Clode também diz que o serviço público está mais-bem preparado para receber situações mais críticas, referindo que "no público há mais casos de grávidas de maior risco, nomeadamente nas grandes maternidades". Isto porque, segundo o profissional, aquelas unidades têm mais capacidade para "aguentar situações mais complicadas".

Marina Mocho reconhece que dá mais segurança fazer o parto com médicos de maior confiança, mas não tem dúvidas: "Mesmo com piores condições hoteleiras, é muito mais seguro ter um filho num hospital público".

A diferença das cesarianas

A Direção-Geral da Saúde (DGS) emitiu uma norma em 2013 para a redução da taxa de cesarianas em Portugal. O documento seguia uma recomendação da Organização Mundial de Saúde, que queria ver reduzido o número destes procedimentos em todo o mundo.

Curiosamente, e desde então, os números aumentaram em Portugal, passando de 35,6% naquele ano para 36,3% em 2021 no conjunto de hospitais públicos e privados.

E aqui está uma das grandes diferenças entre os dois serviços. É que se o público faz esforços para tentar manter a percentagem o mais baixa possível, nos privados os dados são sempre mais elevados. No público, um mau ano chega aos 30% de cesarianas, enquanto no privado é mais do que comum que essa taxa ultrapasse os 65%.

Marina Mocho refere que o Hospital de São João deixou de receber 1,5 milhões de euros em 2021 porque a taxa de cesariana ficou em 30,8%: "Os hospitais são penalizados na ordem dos milhões". Ainda assim, a médica garante que não se sente pressionada a nada, ainda que admita que possa acontecer com colegas seus.

"Nós não somos malucos. Posso ser pressionada, mas não sou obrigada. Nunca coloco uma doente em risco", afirma, referindo que "a pressão vem do ministério", na sequência da recomendação da DGS. Por isso mesmo, é feita uma avaliação diária dos partos realizados, tentando-se sempre perceber a razão para a realização das cesarianas que ali são efetuadas.

Cesarianas nos hospitais portugueses
Ano Público (%) Privado (%)
2018 19.349 (27,9%) 8.198 (66,3%)
2019 20.080 (30,5%) 9.078 (68,5%)
2020 19.573 (31%) 9.633 (67,1%)
2021 18.287 (30%) X

Fonte: INE e Pordata

X - dados não disponíveis

A contribuir para o aumento das cesarianas está novamente a questão de os privados recusarem algumas doentes, o que acaba por significar que o público fica com as mulheres cuja gravidez comporte maior risco, bem como as mais velhas, em que o risco de cesariana é mais elevado: "Perguntam-me como posso ter mais partos normais, mas é difícil", conclui Marina Mocho.

Sobre a questão da limitação de cesarianas, a especialista lembra que existem mais riscos se for realizada uma cesariana, nomeadamente para gravidezes futuras. No entanto, Marina Mocho sabe que existe uma grande diferença entre público e privado: "Há muitas doentes que entram com cinco semanas de gravidez e dizem logo que querem cesariana", diz, lembrando que o pagamento ao hospital privado por uma cesariana é superior ao de um parto normal. "Compensa a cesariana", o que acaba por "facilitar a escolha dos privados, que recebem muito mais por uma cesariana que por um parto normal", diz a médica do Hospital de São João, que fala numa situação "viciada".

Nuno Clode admite que possa haver uma maior "permissividade" para a realização de cesarianas no privado, dizendo que o medo que algumas mulheres possam ter de um procedimento como o parto natural pode levá-las a optar por pedir uma cesariana.

Já Diogo Ayres de Campos lembra os riscos "francamente superiores ao parto normal" que uma cesariana pode implicar. É que, além de ser uma cirurgia, o que pode levar a infeções e outras complicações pós-operatórias, este é também um procedimento que pode dificultar uma gravidez futura.

"É raro as mulheres não aceitarem um parto normal, sobretudo se lhes forem bem explicadas as hipóteses. As mulheres que escolhem a cesariana porque sim estão mal-informadas", sublinha, dizendo que essa deve ser uma decisão a ser seguida de acordo com o aconselhamento médico.

Mariana, que esteve no privado, nunca sentiu que pudesse ser "empurrada" para fazer uma cesariana, mas compreende que há mulheres que o peçam por terem medo do parto natural.

"Há muitas mulheres que têm medo do parto natural e que, para o evitarem, acabam por pedir uma cesariana. Talvez um médico do privado aceite isto melhor do que um do privado", refere.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia alinha com esta teoria, dizendo que no privado chegam a ser realizadas "cesarianas a pedido": "É mais fácil uma mulher dizer no privado que quer uma cesariana e isso ser realizado".

É aquilo a que Nuno Clode chama de "recompensa", uma vez que "os médicos são mais recompensados por um parto em cesariana do que por um normal".

"O público faz todos os possíveis para diminuir as taxas de cesariana. No privado não há isso. Ninguém se sente motivado para fazer um parto natural", afirma, apontando que os "os pagamentos ridículos" que se fazem pelos partos normais "enviesam a situação".

Diogo Ayres de Campos tem o mesmo entendimento, apontando um "incentivo financeiro para a realização de cesarianas no privado", algo que "está para ser corrigido há vários anos". O médico não percebe a diferença, até porque, como refere, um parto natural pode requerer até 12 horas (às vezes mais) da equipa médica, enquanto uma cesariana se faz em menos de uma hora.

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